MEIO AMBIENTE – Reunião Científica de Belém

 

Reunião Científica internacional em Belém debate condições ambientais da floresta

 

Por que o sistema de chuvas na Amazônia se parece mais com o do oceano Pacífico do que o com o de florestas? Por que as árvores da floresta amazônica absorvem mais gás carbônico do que produzem? Se a mata funciona como uma sugadora de gás, o Brasil não teria direito de cobrar países desenvolvidos pala poluição que a Amazônia elimina?

Parece um paradoxo, mas a maior reunião já realizada de investigação científica sobre a Amazônia produziu mais perguntas do que respostas. No final de junho, mais de 300 pesquisadores – a maioria brasileiros e dos EUA – apresentaram em Belém quase 350 trabalhos sobre clima, estocagem de carbono, química atmosférica, hidrometeorologia e os efeitos do desmatamentos e das queimadas sobre a Amazônia. Principal conclusão: a necessidade de realizar outras centenas de estudos.

O encontro foi a primeira mostra dos resultados do Experimento de Grande Escala da Biosfera – Atmosfera na Amazônia (LBA, na abreviatura em inglês), um ambicioso acordo de cooperação científica entre dezenas de entidades de pesquisa brasileira e internacionais.

Participam o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), a Nasa (agência espacial dos Estado Unidos) e a fundação holandesa Alterra Green Foundation.

“A boa Ciência se faz com perguntas, mas, por falta de mais pesquisas na Amazônia, ainda não tínhamos idéia de quais questões levantar”, disse o chefe do CPTEC (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe) e um dos coordenadores do LBA.

“Sabia-se tão pouco que qualquer experimento gerava três estudos. Em quatro anos, vamos saber mais sobre a dinâmica da floresta amazônica do que em décadas”.

 

Pior que São Paulo - Há anos, Artaxo, pesquisador do Instituto de Física da USP pesquisa os efeitos dos aerossóis (partículas sólidas) expelidos no ar da Amazônia durante o período das queimadas. Descobriu que, nos meses do fogaréu, a poluição no ar do Mato Grosso é cinco vezes maior que nos piores dias de inversão térmica em São Paulo.

“Há tantos aerossóis que a composição das nuvens no período da seca (quando ocorrem as queimadas) é completamente diferente do período das chuvas. Como as nuvens distintas têm potencial pluviométrico diferente, a longo prazo isso pode ter um efeito enorme no fluxo das chuvas na região”, prevê Artaxo.

As nuvens da floresta amazônica fascinam os cientistas. São a base da teoria embrionária do “oceano verde”, que compara a atmosfera da floresta com a dos mares.

Há motivos fortes para essa comparação oceânica. Embora a região amazônica tenha mais de 500 milhões de hectares de terra firme, suas nuvens têm um formato parecido com aquelas que ficam sobre os oceanos.

Al;em disso, as nuvens amazônicas têm carga elétrica negativa, assim coma as formações sobre os mares. O índice de chuvas, a produção de raios e a altura da suspensão das nuvens são mais próximos dos índices oceânicos que dos da floresta africana, por exemplo.

Como não se sabia disso até alguns meses atrás, todos os sistemas de previsão de tempo para a região estão baseados em modelos equivocados. “Teremos de criar uma fórmula nova de meteorologia, considerando que em parte do ano a região tem ventos e tempestades oceânicas”, afirmou Alan Betts, do Departamento de Pesquisa Atmosférica dos EUA.

 

Queimada e chuva - “Ainda serão necessários alguns anos de pesquisas de microfísica para entender por que a nuvem aqui não é igual ás do resto do Brasil ou da África”, disse Earl Williams, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachustts). Uma pista encontrada está na relação de aerossóis e de ozônio na atmosfera amazônica com as queimadas e os índices de chuva.

A série de pancadas diárias na estação das chuvas faz uma faxina no ar da floresta, enxaguando-a de aerossóis. No período de seca, há mais partículas suspensas no ar, fruto da falta de chuva e da fumaça.

“Na época das queimadas, os carbono liberado na atmosfera não reflete luz e provoca uma reação química que dificulta a formação da chuva. Para conseguir fazer chover, a nuvem tem de subir a uma altitude maior, onde a temperatura baixa faz a água se cristalizar. Nesse processo, gasta uma energia tremenda. Conclusão: chove menos, explicou o professor alemão Meinrat Andreae, do Instituto Max Planck de Química.

Essa medida nas chuvas foi feita em Ji-Paraná, Rondônia. Adreae suspeita que a relação direta entre carbono de queimadas e queda no índice de chuvas é valida para toda a região. “Em setembro vamos começar as medições em Manaus. É o laboratório perfeito para checar as conseqüências da poluição, porque o transito e as indústrias emitem gases o ano todo.”

 

Floresta inflamável – Se ficar comprovado que as queimadas estão ressecando a mata, cria-se um círculo vicioso digno de pesadelo. Uma vegetação mais seca é naturalmente mais inflamável, e, com menos chuva, a possibilidade de um incêndio se propagar é maior.

Cálculos feitos em 1997 pela organização não–governamental Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) , durante a seca provocada pelo El Niño, mostraram que um terço de toda região ficou inflamável em função da falta de chuva. O resultado se viu no ano seguinte, com os incêndios em Roraima.

“Sabe-se que dificilmente uma floresta que recebe alguns milímetros de chuva por semana pega fogo. Porém, descobrimos agora que a mata que já foi queimada uma vez tem o dobro de inflamabilidade da floreta virgem”, afirmou Daniel Nepstad, do Ipam e da ONG de pesquisa norte-americana Woods Hole Reserarch Center. Isso significa que uma queda nos índices de precipitação pode implicar uma série de queimadas, muitas em lugares que já foram incendiados durante a seca de 97.

Em condições idéias de preservação, a floresta amazônica tem novidades até no seu processo de respiração.

De dia, o CO2 é extraído da atmosfera no processo de fotossíntese. À noite, na respiração, o fluxo se inverte e as plantas liberam gás carbônico.

“Na teoria ecológica, uma floresta antiga como a Amazônia deveria ser estável, isto é, a mesma quantidade de gás liberada terminaria sendo fixada, mas a Amazônia vai contra a teoria”, afirmou Antonio Nobre, do Inpa. Ele diz acreditar que exista uma espécie de competição darwiniana entre as plantas em busca de gás carbônico.

“A planta fixa carbono principalmente para crescer. Quanto mais ela fixar, mais fortes serão as suas raízes e mais alta será sua copa. Ela poderá captar mais luz durante a fotossíntese e mais nutrientes do solo. O carbono pode ser a diferença entre viver décadas ou ficar à sombra de outras árvores e viver menos”, diz Nobre.

 

Medidores de carbono – Sensores instalados pelos pesquisadores do LBA em quatro florestas diferentes, 20 metros acima da copa das árvores, registraram que há mais gás carbônico entrando do que saindo da mata. É o início de uma série de medições para descobrir se Amazônia “seqüestra” carbono, contrabalançando parte do efeito estufa (aquecimento da atmosfera pela retenção de calor solar sob uma camada isolante de gases, como o carbônico).

O potencial da capacidade de sugar carbono é incerto (varia de 2 a 5 toneladas por hectare), mas as implicações econômicas, ambientais e políticas são enormes.

Acordos internacionais sobre efeito estufa tendem a premiar os países com sumidouros de gás carbônico, como parece ser o caso do Brasil. Há possibilidades reais de o país receber investimentos específicos para preservar florestas e continuar seqüestrando o carbono produzido pelas indústria dos países desenvolvidos.

As avaliações mais modestas calculam que um hectare dedicado ao seqüestro de carbono da atmosfera valeria US$ 5 por ano. Teoricamente, o Brasil poderia receber bilhões de dólares por ano para manter a floresta  de pé, com controle rigoroso das queimadas.

O governo brasileiro analisa essa brecha de investimentos com má vontade. Acredita que cederia parte da soberania nacional se aceitasse dinheiro e que perderia o direito de, por exemplo, construir a polêmica rodovia Santarém-Cuiabá, defendida por produtores da região.

“Esses recursos podem financiar uma política de desenvolvimento sustentável na Amazônia, que melhore a qualidade de vida dos moradores, preservando a floresta”, propôs o pesquisador Phillip Fearnside, do Inpa.

O LBA vai consumir seis anos de trabalho e US$ 100 milhões, mais de dois terços vindos do exterior. A previsão é que em três ou quatro anos se estabeleça definitivamente a quantidade de carbono seqüestrado pela floresta. Pode ser o fim do debate. Alguns cientistas não se convenceram do potencial da floresta de sugar carbono.

As pesquisa do LBA também investigam o número negativo da Amazônia. Também medir quanto gás carbônico é emitido durante as queimadas de inverno. Da diferença desses dois números (quanto carbono é seqüestrado ou emitido) sai o valor global da importância da Amazônia para o controle do clima mundial.