LENDAS - Curupira

 

Curupira, um semi- deus

 

Todas as civilizações tiveram ou têm a sua cosmogonia, através da qual interpretam a realidade e se relacionam com ela. São as explicações para as origens do universo, da vida e na natureza como um todo, recheadas de lendas e mitos. Esses personagens e histórias, em geral, são didáticos, estabelecem regras e normas de comportamento. Os índios brasileiros, por exemplo, têm uma concepção do universo que privilegia a natureza, sua fonte de sustento. O homem é incluído nela como parte integrante, em condições de igualdade, sem privilégio. Algumas tribos acreditam que Tupã, depois de criar o universo, criou os semi- deuses, o homem e outras criaturas com as quais povoou a Terra. Tupã criou também o Mundo superior, onde habitam os deuses e os bons, e o Inferior; onde ficam os maus e os seres demoníacos. Anhangá, por exemplo, é um deus maldito, cheio de ódio em seu coração, enviado para o mundo Inferior. Entre as criaturas que Tupã espalhou pela Terra estão o Curupira, um semi- deus que protege as florestas e a natureza da ação destrutiva dos homens. O Curupira é uma criatura baixinha e de cabelos de fogo. Sua lenda revela o ponto central da relação dos índios brasileiros com mata. Não é uma relação de exploração, de uso indiscriminado. É uma relação de respeito pela vida, uma relação de troca. O Curupira não se incomoda, por exemplo, com o "bons caçadores", aqueles que vão à caça para matar a fome. Os "maus", no entanto, que matam para se divertir, ou indiscriminadamente, fêmeas e filhotes, acabam caindo nas armadilhas do Curupira. Aliás, para os bons, ele nem aparece. E quem o viu, conta a lenda,  está correndo até hoje. Seu truque predileto é se transformar em caça, uma paca, um tatu, onça ou qualquer outro bicho que atraia os caçadores para o meio da floresta. E lá eles ficam, perdidos para sempre. Mesmo sabendo que matar animais ou abater árvores para a subsistência não é alvo da ira do Curupira, os índios entram na mata cheios de respeito  e termos. Eles costumam levar sempre presentes para agradar ao protetor da floresta, como fumo, comida, flechas e objetos que deixam nas trilhas. Essa relação dos índios com a natureza, estabelecida pela forma como eles compreendem o cosmos, contrasta com a visão judaico- cristã do mundo, onde o Deus criador é um ser parte, que construiu o universo e entregou- o ao homem para que usasse conforme os seus desejos. O homem é superior a tudo. Na visão da lenda indígena, Tupã continuou preocupado com aquilo que criou, impôs regras, estabeleceu limites para a sua utilização. Criou até seres que fiscalizam. Nesse caso, o homem é parte integrante da natureza, que deve se relacionar de igual para igual com o meio- ambiente.

 

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Curupira - a mãe do mato.

É interessante que geralmente se use o artigo definido masculino "o" para referir-se a este fantástico ente das florestas a quem se empresta justamente o atributo feminino da maternidade. Realmente, no interior paraense ou amazônida, não se referem a este ser como se fora mulher: é sempre "o curupira", mas no entanto lhe é reconhecida de maneira generalizada a proteção da flora e fauna sob o nome genérito e extensivo de "mãe do mato".
Curupira
Descrito como sendo um pequeno ser com traços índios, segundo alguns com os pés virados para trás, cor escura, o curupira possui o dom de ficar invisível. Guardião das florestas e dos animais, é entretanto protetor daqueles que sabem se relacionar com a natureza, utilizando-a apenas para a sua sobrevivência, ou seja, o homem que derruba árvores para construir sua casa e seus utensílios, ou ainda para fazer o seu roçado e caça apenas para alimentar-se, tem a proteção do Curupira. que derrubam Mas aqueles a mata sem necessidade, os que maltratam plantas e animais, os que caçam por pura perversidade, estes têm no Curupira um terrível inimigo.

Dizem que o Curupira faz o mau caçador perder a noção de seu rumo e ficar dando voltas no mato, retornando sempre ao mesmo lugar. Para escapar e salvar-se, só pegando um cipó no mato, fazendo um trançado, escondendo as pontas, jogando para trás sem olhar e gritando: - Curupira, quero ver se és capaz de desfazer este trançado! Diante do desafio, o Curupira vai pegar o cipó entrelaçado e acaba distraindo sua atenção do caçador, que acaba achando o caminho de volta. Outra forma de atingir o malvado é fazendo com que sua arma (arco e flexa, lança ou arma de fogo) fique "panema", ou seja, azarada, e portanto incapaz de acertar qualquer tipo de alvo, principalmente a caça.

Se o caçador vai matar um animal fêmea com cria, aí o Curupira fica realmente zangado e faz com que a pretensa caça vire meuã. Virar meuã é, de repente, portar-se como se gente fosse, e fazendo gestos como a implorar piedade. Neste momento, o caçador fica assombrado, não consegue mais fazer pontaria e foge apavorado, procurando o rumo de casa. Tem também que procurar o pajé. Dizem que pessoas que viram animais virarem "meuã" nunca mais quiseram saber de caça... o Curupira - a mãe do mato é, acima de tudo, em tempos atuais, uma entidade ecologicamente correta...

 

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As Amazonas


Historiadores afirmam que o navegador Orelhana, cuja aventura vimos antes, não combateu com mulheres. Na verdade, teria se defrontado com uma tribo de índios encabelados, os quais, na guerra, eram auxiliados pelas mulheres, daí Orelhana ter se confundido. Mas outros, inclusive o Frei Gaspar de Carvajal, que participou da expedição, dão o testemunho da existência das mulheres guerreiras, no que são acompanhados por descrições de diversos índios... Mas estes não falavam em amazonas, até porque não sabiam o que significava. Os índios falavam em Icamiabas, que significa "mulheres sem maridos".

As Icamiabas viviam no interior da região do Rio Nhamundá, sozinhas. Ali, eram regidas por suas próprias leis. Durante muitos anos foram procuradas por diversos estudiosos e exploradores, porém nunca foram encontradas. A região era denominada por estes aventureiros de País das Pedras Verdes e era guardada por Lenda do Muiraquitãdiversas tribos de índios, das quais a mais próxima das Icamiabas era a dos Guacaris. E por que a denominação de País das Pedras Verdes? Porque era justamente daí que se originavam os muiraquitãs, as famosas pedras verdes... Dizia-se que as Icamiabas realizavam uma festa anual dedicada à lua e durante a qual recebiam os índios Guacaris, com os quais se acasalavam. Depois do acasalamento, mergulhavam em um lago chamado Iaci-uaruá (Espelho da Lua) e iam buscar, no fundo, a matéria-prima com que moldavam os muiraquitãs, os quais, ao saírem da água, endureciam. Então presenteavam os companheiros com os quais tinham feito amor... Os que recebiam, usavam orgulhosamente pendurados ao pescoço. No ano seguinte, na realização da festa, as mulheres que tinham parido ficavam com as filhas e entregavam os filhos para os Guacaris...

Fantasia? Obra da imaginação? Patranhas de viajantes, cronistas e aventureiros? Hoje, tantos anos depois, é difícil de julgar. Mas os muiraquitãs existem: estão aí a enfeitar museus ou nas mãos de colecionadores particulares... Amazonas ou Icamiabas, a lenda foi tão forte que designou um rio, um estado da Federação e a toda uma região. Pode até não ter fundo de verdade, mas que é linda, é! Já pensou o que é fazer amor com uma bela mulher numa noite enluarada, à beira de um lago a espelhar a lua, em plena selva? E ao fim ainda receber de presente um muiraquitã? Se não é verdade, deveria ser!

De qualquer forma, quando se pronuncia Amazônia, não se pode deixar de pensar em muiraquitãs e em mulheres guerreiras, mas também amorosas, como aliás são as mulheres da Região Amazônica...

 

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As Amazonas

 

Era no Lago Verde que as Amazonas faziam seus muiraquitãs

 

Motivos semelhantes levam esse grande contigente populacional a se deslocar para Alter-do-Chão, uma vila turística localizada na margem direita do rio Tapajós e ligada por via rodoviária à cidade de Santarém. O rio Tapajós possui característica única entre os afluentes do Amazonas – suas águas são cristalinas – e, em frente à vila, com a descida das suas águas durante o verão, surge uma lagoa cor de esmeralda cercada por bancos de areia branca apropriadamente denominada de “Lago Verde”. O Lago Verde, também chamado de Lago dos Muiraquitãs, era ponto de passagem obrigatório das índias Amazonas.

Amazonas foi o nome dado às mulheres guerreiras da Antiguidade que habitavam a Ásia Menor e cuja existência alguns historiadores consideravam um mito. Segundo a lenda, elas removiam um dos seios para melhor envergar o arco, deixando o outro para amamentar seus rebentos, que, se nascessem do sexo masculino, eram impiedosamente sacrificados. Amazonas, aliás, quer dizer sem seios (“mazos”) em grego. No século XVI, essa designação foi dada a mulheres com as mesmas características, cuja existência histórica é discutida e que combaterem os conquistadores espanhóis no baixo-Amazonas.

Era no Lago Verde, considerado sagrado pelos indígenas, que as Amazonas recolhiam a nefrita (um mineral esverdeado), para produzir seu muiraquitãs, pequenos artefatos talhados na referida pedra em forma de sapos, tartarugas e serpentes, e ao qual se atribuem virtudes de amuleto. Os muiraquitãs eram oferecidas à mãe lua, em troca de favores. Diz a lenda que no fundo do lago há uma pedra mágica escondida. É essa pedra que dá ao lago a sua cor azul nas primeiras horas da manhã, mas que se transforma num verde intenso, durante o dia. Na realidade, isso pode ser o efeito do sol penetrando as águas transparentes e iluminando o fundo do lago, rico em nefrita.

 

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Muiraquitã


Muiraquitã éMuiraquitâ o nome que os índios davam a pequenos objetos, geralmente representando uma rã, trabalhados em pedra de cor verde, jadeíta ou nefrita, podendo existir em outros minerais e de outras cores. Conhecidos desde os tempos da descoberta, foi entre os séculos XVII e XIX que se tornaram mais procurados, sendo atribuídas qualidades de amuleto ou talismã e ainda virtudes terapêuticas. O muiraquitã atraía sorte para os seus possuidores e também curava quase todas as doenças.
Encontrado principalmente na região do Baixo Amazonas - por conseguinte justamente nas adjacências da foz do Rio Nhamundá, de cuja confluência com o Rio Amazonas pretensamente Orelhana encontrara mulheres guerreiras - o muiraquitã deu muito o que falar e gerou muitas controvérsias. Foi contestada inclusive sua origem, que não seria amazônica e sim asiática... Mas aqui não se vai discutir a origem arqueológica! O que nos interessa é saber como o muiraquitã entra na história e no lendário da região...!

LENDAS   

 

Vitória Régia


Uma das mais lindas plantas aquáticas do mundo, a Vitória Régia (Euryle Amazônica) tem a folha de formato circular e mede até 1,80m de diâmetro. Parecida a uma bandeja, é bastante resistente e pode agüentar um peso de até 45 quilos. De cor verde na parte virada para cima e interna, e purpúrea na sua borda externa e parte inferior, a Vitória Régia vive em lagos, lagoas e rios de águas tranqüilas. Sua flor de cor branca com o centro rosado, alcança até 30 cms.

A Vitória Régia, com toda a sua beleza e exuberância chama a atenção de quantos a vêem, que ficam Vitória Régiaverdadeiramente extasiados. E tal aconteceu com o botânico inglês Lindlev que, ao contemplá-la, resolveu homenagear a rainha Vitória, da Inglaterra, e deu à planta o nome da soberana inglesa.

Mas, conforme relata Anísio Melo, nossos índios também não ficaram indiferentes à sua beleza e contam uma linda história para justificar-lhe a origem.

As lagoas e os lagos amazônicos são os espelhos naturais da vaidosa Iaci, a lua. As cunhãs (índias) e as caboclas ao vê-la refletida sentiam toda a inspiração para o amor. Ficavam então no alto das colinas esperando pelo aparecimento da lua, e que com o contato de sua luz lhes chegasse o amor redentor e elas pudessem subir ao céu transformadas em estrelas.

Um belo dia... uma linda cabocla, tomada pelo amor, resolveu que era chegado o momento de transformar-se em estrela. E com este intuito subiu à mais alta colina, esperando poder tocar a lua Iaci e assim concretizar o seu desejo. Mas... ao chegar ao cimo da colina viu a lua Iaci refletida na grande lagoa e pensou que estava a banhar-se... Na ânsia de tocar Iaci para realizar o seu sonho de amor, a bela cabocla lançou-se às águas da lagoa... E ao que pensou tocá-la, afundou, sumindo nas águas...

E a lua Iaci, condoída com o infortúnio de tão bela jovem e não podendo satisfazer seu desejo de levá-la para o céu em forma de estrela, transformou-a na bela estrela das águas, a linda planta aquática que é a Vitória Régia... cuja beleza e perfume são inconfundíveis. Dizem que o local onde o fato aconteceu é o lago Espelho da Lua, situado no município de Faro, na região do Baixo Amazonas Paraense...

LENDAS

 

Boto Cor de Rosa

 

É uma das mais conhecidas do Brasil, segundo a qual, o "Dom Juan da Amazônia" encanta homens e mulheres. A cabeça do animal se assemelha á glande humana e a maneira como nada, subindo e descendo, lembra movimentos sexuais. Para muitos, o boto ora é uma bela mulher, ora um atraente rapaz. Quando uma moça fica grávida, logo se atribui às artes do boto. De acordo com os habitantes, na Amazônia existem dois tipos de boto. O preto, conhecido como Tucuxi, salva os náufragos. Ao vermelho são creditadas peripécias, como sinais inexplicáveis de maternidade e fugas femininas. Dizem que o boto chega a levar a escolhida para um palácio no fundo dos rios. Na figura da mulher leva os caboclos à loucura.


Quem ainda não ouviu falar nas incríveis façanhas do boto? Não é nem preciso ser paraense ou ainda da região amazônica para lhe conhecer as proezas. O boto já estreou inclusive no cinema, e aqui e ali cineastas amadores fazem novas películas abordando este ser mítico regional.

O boto tem a faculdade de transformar-se em homem e, nesta condição, seduzir as moças interioranas que costumam dançar nas festas de beira de rio. Como seduz também as que vão tomar banho sozinhas nos rios amazônicos, principalmente se estiverem menstruadas. Como conquista também as que se atrevem a andar em pequenas canoas...

O boto, diferentemente de outras lendas e mitos que não são encontrados facilmente, são perfeitamente identificáveis e até mesmo classificados cientificamente, sendo a "designação comum aos cetáceos odontocetos pertencentes às famílias dos delfinídeos (marinhos) e platanistídeos (fluviais)", segundo o mestre Aurélio. Já Carlos Rocque ensina que pode ser identificado como Inia geoffrensis o boto branco e Steno tucuxi o boto tucuxi.

Sobre botos existem mil e uma histórias e mil e uma crenças. Quando uma mulher moradora às margens dos rios da região engravida, não sendo casada nem possuindo companheiro, é certo que se dirá que seu filho é do boto. A fama de conquistador lhe é atribuída e, além de procurar as mulheres jovens e bonitas, casadas ou não, freqüenta festas onde realiza novas conquistas. Às diversões comparece sempre de chapéu à cabeça, diz-que para esconder um orifício que facilmente o identifica como boto. Bem apessoado, anda elegantemente vestido e faz parte da tradição dizer que tem sempre uma espada à cintura. Porém, acabando o encanto, na hora que tem que se transformar novamente em boto, se verá que todos os acessórios que usa são habitantes das águas: a espada é um poraquê, o chapéu é uma arraia, o sapato é um acari, cascudo ou bodó (um tipo de peixe), o cinto é um arauaná (outro tipo de peixe)...

Dizem que em naufrágios o boto procura socorrer os náufragos. Segundo uma versão, ajudaria apenas as mulheres, até para manter sua fama de conquistador... Noutra, ajuda indiferentemente homens e mulheres. Não são poucas as pessoas que, ao escaparem de morrer afogadas, atribuem - além de a Nossa Senhora de Nazaré - ao boto o seu salvamento.

Os órgãos sexuais, quer do boto quer da sua fêmea, são muito utilizados em feitiçarias, visando a conquista ou domínio do ente amado. Porém o mais utilizado mesmo é o olho do boto, que é considerado amuleto dos mais fortes na arte do amor. Dizem mesmo que, segurando na mão um amuleto feito do olho de boto, tem que ter cuidado para quem olhar, pois o efeito é fulminante: pode atrair até mesmo pessoas do mesmo sexo, que ficarão apaixonadas pelo possuidor do olho do boto, sendo difícil desfazer o efeito...

Contam-se várias histórias em que maridos desconfiados de que alguém estava tentando conquistar suas mulheres, armaram uma cilada para pegar o conquistador. A cilada geralmente acontece à noite, onde o marido vai a luta com seu rival e consegue feri-lo com uma faca, ou a tiros ou com arpão... Mas o rival, mesmo ferido, consegue fugir e atirar-se n'água. No dia seguinte, para surpresa do marido e demais pessoas que acompanharam a luta, aparece o cadáver na beira d'água, com o ferimento de faca, ou de tiros ou ainda com o arpão cravado no corpo, conforme a arma utilizada, não de um homem, mas pura e simplesmente... de um boto!

 

LENDAS

 

Cobra Grande


Já no primeiro livro da Bíblia - o Gênesis - encontramos a história acima sintetizada e verificamos que a cobra acompanha o ser humano desde que surgiu na Terra. E nos mais diversos povos encontramos crenças, lendas, mitos, gravuras, rituais envolvendo as mais diversas espécies de ofídios.

"Viviam o primeiro homem - Adão - e a primeira mulher - Eva - em total estado de pureza no Paraíso e eis que surge a serpente e põe tudo a perder, tentando a mulher a comer do fruto proibido. E depois de Eva, é Adão que come, e assim são expulsos do Paraíso, sendo obrigados por Deus a comer o pão com o suor do rosto. A serpente foi então considerada maldita por Deus entre todos os animais".


Em nossa região não poderia ser diferente. E aqui encontramos um dos mais fortes mitos envolvendo justamente a figura da cobra, de uma enorme e extraordinária cobra, por isso mesmo chamada de Cobra Grande.

Na verdade, há várias lendas sobre cobras: além da Cobra Grande propriamente dita (boiaçu, boiçu, boiguaçu, boioçu, boiuçu, palavras de origem tupi, a significar "cobra grande", que outra não é senão a sucuri, ou “anaconda” réptil do qual, no arquipélago de Marajó, existem espécimens de mais de 10 metros de comprimento), há ainda a Boiúna, a Boitatá e outras menos cotadas.

A Cobra Grande apresenta-se como enorme réptil que é capaz de virar, ou seja, fazer naufragar até mesmo embarcações de considerável porte, comendo ou levando para o fundo dos rios os passageiros.

Temida pelos ribeirinhos, sobretudo os dos grandes rios regionais, a Cobra Grande apresenta uma grande variação quanto a sua origem: ora é um ser representativo do mal, ora é um ser encantado e que carrega a forma de um ofídio como sina, até haver quem o desencante (neste sentido, é conhecida a estória da Cobra Norato, parida de uma mulher engravidada pela Cobra Grande, e que, ao ser desencantada, por um soldado da Polícia Militar, acabou sentando praça...), ora ainda pode transformar-se em imenso veleiro, que aparece todo luminoso, sempre à noite, e que, ao aproximar-se dos trapiches ou de outras embarcações, desaparece misteriosamente... Quase todo ribeirinho já viu ou tem um parente ou amigo que já se defrontou com a Cobra Grande em forma de navio...

A Boiúna (do tupi, "cobra negra") é também uma enorme cobra, de cor preta, que possui os mesmos sortilégios da Cobra Grande. Muitas vezes confunde-se a Boiúna, que, repetimos, significa "cobra negra ou preta" com a Cobra Grande. E diz-que tem dezenas de metros, os olhos são dois grandes faróis - e não falta quem diga que os olhos da Boiúna são na verdade os candeeiros colocados na frente da casa dos ribeirinhos, justamente para ajudar a navegação... mas Boiúna e Cobra Grande acabam confundindo-se e tornando-se uma só...!

Já a Boitatá é diferente. Em tupi, "cobra de fogo", é uma cobra luminosa que, às vezes, assume a forma humana, porém mantendo sempre a luminosidade, e outras vezes confundindo-se com o fogo fátuo, gases emanados dos cemitérios ou de regiões que tenham matéria orgânica em decomposição. Embora cause medo ou pavor às pessoas que a veêm, não chega a assombrar ninguém, ou seja, não deixa aqueles que a encontram em situação de precisar de "pajés" ou "pais-de-santo" para livrá-los de algum assombramento...

Em várias cidades, vilas e povoados amazônicos, existe a crença de que as mesmas estão situadas sobre a morada de uma... Cobra Grande! E Belém (atualmente) ou Santa Maria de Belém do Grão Pará, ou Nossa Senhora de Belém do Grão Pará, ou Feliz Luzitania, ou Feliz Espaniola (diversas denominações sobre as quais discutem historiadores para saber qual a verdadeira denominação que teve inicialmente a capital do hoje Estado do Pará) não foge a regra...

Acredita-se e que Belém foi fundada sobre a casa de enorme Cobra Grande... E daí corre a crença que, se a Cobra Grande se mexe, Belém estremece! Se a Cobra Grande resolver sair de seu lugar, Belém irá afundar! E com Belém, todos os seus habitantes...!

Acontece que... Estudo mais profundo do assunto poderia dizer se tal crença não nasceu dos primeiros missionários, que ao chegar em Belém, e, ao ouvir falar de Cobra Grande, a tenham resolvido esmagar, colocando-lhe a cabeça justamente sob os pés de Nossa Senhora, a Virgem Maria. Sim, porque segundo a crença - ou a lenda? - a Cobra Grande que está sob Belém tem sua cabeça sob o altar da Catedral da Sé e a cauda sob o altar da Basílica de Nazaré. Aliás, a crença fala em mais duas outras direções para a cauda: uma, indica a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no bairro da Cidade Velha; a outra, na Igreja de Santo Antônio. Sob o ponto de vista da evolução, do crescimento da cidade de Belém, a versão da causa sob a Igreja do Carmo é a mais antiga. Com a evolução da cidade, sua cauda mudou para ficar em baixo da Igreja de Santo Antônio. E, finalmente, que é a maior corrente, mudar novamente e se ampliar até a Basílica de Nazaré... Afinal, os missionários, aqui, como em outras plagas, tiveram que adaptar a religião cristã à cultura local, a fim de poderem conquistar novos crentes... E, quem sabe, se com isto, não tenham personificado a "boiaçu" dos indígenas, no símbolos do mal, no demônio, e a tenham resolvido esmagar, colocando-lhe a cabeça justamente sob o altar da Catedral da Sé onde fica a imagem de Santa Maria de Belém. Por sinal muito parecido à Virgem esmagando a serpente, que era a encarnação do demônio.

Por outro lado... a cabeça da cobra sob o altar da Catedral da Sé e a cauda em Nazaré, lembra também o famoso Círio de Nazaré que se inicia na Catedral e termina na Basílica de Nazaré...

De qualquer forma, existem, até hoje, os que crêem na Cobra Grande sob Belém. Tanto que, durante o tremor de terra ocorrido em Belém na madrugada de 12 de janeiro de 1970, muitas pessoas disseram que era a Cobra Grande que estava se mexendo... E a lenda diz que, no dia em que a cobra sair do seu repouso, Belém será tragada pelas águas da Baía de Guajará...

Crentes ou não, católicos ou não, lá vai a cobra grande humana... É o Círio de Nazaré... A grande serpente humana, a ondular-se, segue da Catedral da Sé para a Basílica de Nazaré...

E alí, a grande cobra - não uma lenda, mas a realidade formada por mais de um milhão de pessoas - que volteou durante quilômetros, abaixa-se, curva-se, põe-se aos pés da Virgem... da Virgem de Nazaré, Padroeira dos Paraenses...!

 

Mapinguari

 

Os caboclos juram que dentro da floresta mora o Mapinguari, um gigante peludo que grita como uma pessoa . Se alguém responder ele logo vai ao encontro do desavisado.

Pela descrição não parece lá muito atraente. Também, quem gostaria de encontrar uma figura com um olho na testa e a boca no umbigo? E o pior é que tem um cheiro tão ruim que aquele que se atrever a chegar perto pode ficar tonto e se tornar uma presa fácil.

 

O Mapinguari é feroz e não teme nem caçador, porque é capaz de dilatar o aço quando sopra no cano da espingarda.

Dizem que ele só foge quando vê um bicho-preguiça. O que ninguém explica é porque ele tem medo justamente do seu parente, já que é considerado um bicho-preguiça pré-histórico.


MapinguariUm enorme homem todo peludo ou então um ser que muito se aproxima de um grande macaco, só que possuindo um olho no meio da testa, e uma grande boca, que se estende até a barriga na direção do umbigo. Para uns, ele é realmente coberto de pelos, porém usa uma armadura feita do casco da tartaruga, para outros, a sua pele é igual ao couro de jacaré. Há quem diga que seus pés tem o formato de uma mão de pilão. Eis, em síntese, a descrição do Mapinguari, ente fantástico a povoar a região amazônica e a imaginação dos caboclos e demais interioranos que nela habitam.

Segundo contam, ao andar pelas selvas, emite um grito semelhante ao dado pelos caçadores. Se um deles se encontra perto, pensando que é outro caçador e vai ao seu encontro, acaba perdendo a vida: o Mapinguari devora-o, começando pela cabeça.

Contam também histórias de grandes combates entre o Mapinguari e valentes caçadores, porém o Mapinguari sempre leva vantagem e os caçadores felizardos que conseguem sobreviver muitas vezes lamentam a sorte: ficam aleijados ou com terríveis marcas no corpo para o resto de sua vida.

Há quem diga que o Mapinguari só anda pelas florestas de dia, guardando a noite para dormir. Quando volteia pelas selvas, vai gritando e quebrando galhos e derrubando árvores, deixando um rastro de destruição. Relatos outros informam que ele só aparece nos dias santos e feriados.

Uns dizem que o Mapinguari é um animal raro, porém animal mesmo, enquanto outros acham que é originário de índios que alcançam uma idade avançada... após o que transformam-se no incrível monstro!

Se você pretende ir ao interior e conhecer as belezas da floresta amazônica, vá com cuidado! NUNCA ENTRE NO MATO SEM UM GUIA EXPERIENTE. Pode ser que se depare frente a frente com um Mapinguari...

 

LENDAS

 

A Iara


A Iara é uma dos mitos mais conhecidos e também dos mais confundidos da região amazônica, o que naturalmente inclui o Pará. Geralmente as pessoas acham que a Iara é uma mulher loura, de olhos azuis e a parte inferior do corpo em forma de peixe. Esta descrição na verdade é da sereia européia e não da Iara amazônica. A Iara, além de ser confundida com a sereia européia, o é também com a Iemanjá africana e na verdade nada tem a ver nem com uma nem com outra.

Em certos locais dizem-na boto-fêmea, também a encantar os homens e levá-los para o fundo, e em outros dizem ser a própria Boiúna (cobra preta), que traduzem erroneamente por cobra grande.

Na verdade, a Iara é uma linda mulher morena, de cabelos negros e olhos castanhos. De beleza ímpar, os que a vêem nua a banhar-se nos rios não conseguem dominar seus desejos e atiram-se nas águas... Nem sempre voltam ao mundo dos vivos... Os que o fazem, voltam assombrados, falando em castelos, séquitos e cortes de encantados... e é preciso muita reza e pajelança - e de um pajé com muita força - para tirá-lo do estado de torpor. Alguns a descrevem como tendo uma cintilante estrela na testa, que funciona como chamariz para atrair o olhar e assim ser facilmente hipnotizado...

Quanto à possível forma de peixe da parte inferior da Iara, isto é apenas um vestido, ou melhor, uma espécie de saia, que ela veste por vaidade e para dar a ilusão de ser metade mulher, metade peixe...

Confundida ou não com crenças de outras plagas, a Iara até hoje exerce um grande fascínio e maior encantamento  nos homens da região...

LENDAS

 

A Grande Mãe


Conquistados e colonizados que fomos por um país - Portugal - onde a religião vigente era (e é) a Católica Apostólica Romana, desde a mais tenra idade ensinaram-nos a amar, a temer e a venerar um Pai, Deus-Pai, Deus-Padre Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, o Inominado, o ""Eu Sou O Que Sou"" em suma, um ser masculino.

Contudo, nas religiões primitivas, a grande deidade é feminina: a Deusa Terra, a Grande Mãe, a Senhora do Tempo e, por conseguinte, do Destino, aquela que governa toda a temporalidade concernente às etapas do crescimento: começo-meio-fim; nascimento-vida-morte; presente-passado-futuro, através de suas variadas manifestações.

A Grande Mãe é sempre uma virgem, o princípio criador que independe de um homem para gerar outra criatura. Em geral, a mãe dos heróis e dos semi-deuses é fecundada através de seres numinosos que podem ser animais - a serpente, o cisne, o touro, as aves em geral e, entre nós, num conceito mais popular, o famoso boto - ou pela ingestão de frutos, tanto quanto pelo sumo destes, pelo vento, pela lua, pelos espíritos dos antepassados e, enfim, pelos deuses. Na realidade, os povos ancestrais desconheciam a relação existente entre o nascimento de crianças e a atividade sexual em si. Respeitavam o período menstrual e assombravam-se com a gravidez das mulheres. Para eles, isto constituía um mistério, um tabu.

No Brasil e, particularmente, na Amazônia, muita criança tem por pai o Boto, a Cobra Grande e, em tempos imemoriais, o Sol. O Boto, com certeza, é "pai" de prole numerosíssima. A cunhã, a cabocla, "inesperadamente" o ventre começa a entumecer, a inchar, quem foi? "Foi boto, sinhá; foi boto, sinhô!" como bem informa a canção do mestre e maestro Waldemar Henrique, de saudosa memória, acrescentando... "quem tem filha moça, é bom vigiar..." Com as nossas tribos não poderia ser diferente.

Assim, a mulher, a Grande Mãe, a CY é vivenciada, sobretudo e principalmente, como a real fonte de origem de tudo quanto existir no Universo, o Universo em si.

O indígena acredita que tudo, no mundo animal, vegetal e mineral tem a sua mãe, a que protege e guia, perenemente. E esta mãe tudo gerou sozinha, sem precisar de elemento masculino. Destarte, Amanacy (a mãe da chuva); Iacy (a lua, nossa mãe, a primordial), Aracy (a mãe do dia), Ceucy (a mãe do herói-civilizador), Coaracy (que, embora sendo o Sol, é a mãe de todos os viventes) e tantas outras mais: a mãe do quente, a mãe do frio; a mãe do corpo, a mãe da coceira; a mãe do mangue, a mãe da praia; a mãe das canções, a mãe do silêncio, etc.

Veramente, os indígenas conhecem a mãe de tudo e de todos e sabem-lhe os nomes. O pai, contudo, passa em brancas nuvens. A modo, um detalhe sem nenhuma utilidade. Mór das vezes e, abrangentemente, na natureza, é sacrificado sem dó nem piedade: o caso do zangão que, após fecundar a abelha-rainha, é trucidado pelas "guerreiras"; os machos da aranha caranguejeira, do "Louva-a-Deus", da Caba-tatu são mortos pelas respectivas fêmeas, não esquecendo que, entre os quadrúpedes e aves, fêmea parida ou "choca" quer mais é distância do companheiro. Este serve para proteger e manter o lar. Um mero guarda de segurança. Há exceções, é claro, mas, raras. O único animal da natureza que mantém um relacionamento sexual assíduo com a sua fêmea é o homem.

LENDAS

 

Mães das Águas


Das deidades femininas aquáticas, a mais conhecida e temida é a Yara ou Uiara. Bela mulher, fascina e acaba por matar e/ou enlouquecer os homens que lhe caem sob o poder. Senhora das águas dos igarapés e dos rios, arrebata o espírito dos homens e o seu encanto é fatal. Diverge da sereia dos mitos europeus e senhora dos oceanos porque é mulher por inteiro, não possuindo a metade do corpo em forma de rabo de peixe, como aquela.

Essa deidade, entretanto, sofre uma forte influência européia. Em nenhuma lenda indígena do século XVI ou XVII ela
Mãe d´águaaparece, como atualmente. Ao invés, a "mãe-da-água" era, por assim dizer, um homem. Um homem-peixe que infundia terror por que de horrenda aparência, habitante do fundo das águas, inimigo mortal dos pescadores, mariscadores e, também, das lavadeiras: o Igupiara ou Ipupiara. Embora perseguisse as pessoas e as matasse interessavam-lhe, apenas, os olhos e os narizes de suas vítimas.

Esse epíteto, ao que se sabe, foi dado ao monstro pelos portugueses, pois o índio jamais o teve como "a mãe das águas". Ipupiara significa tão somente "o que habita no fundo das águas". Os lusos é que acabaram por confundi-lo com os monstros de suas próprias lendas, que também dominavam as águas e, embora tratando-se de um ser masculino, pelo fato de que na teogonia ameríndia a "mãe" bastar, o Ipupiara foi por eles batizado assim, por analogia e dentro do aspecto da Mãe Terrível, isto é, a que mata, a que devora e engole.

Mas, há outras mães nas nossas águas. Assim, aqueles insetos vorazes conhecidos como "Baratas d'água" são as mães das forças corrompidas das águas estagnadas e, particularmente, os caranguejos (relacionados com as potências lunares), a bem dizer, a fêmea, chamada "Condessa" é a mãe da força sombria da potestade das águas: o mangue. A "Condessa" merece respeito dos mariscadores e se é apanhada por um deles, é devolvida à lama do mangue. Utiliza-se esse crustáceo apenas em trabalhos de magia chamada negra e quem dela precisar para esses fins, só a consegue sob encomenda e pagando bom preço. A "Condessa" é um dos tabus do manguezal.

LENDAS

 

Matinta Perera

 

Ao ouvir durante a noite nas imediações da casa um estridulante assobio, o morador responde:


- Matinta, deixa a gente descansar e amanhã podes passar aqui para pegar tabaco.

No dia seguinte uma velha aparece na residência onde a promessa foi feita, a fim de apanhar o fumo. A cena descrita podia acontecer nos subúrbios de Belém, há alguns anos, ou ainda hoje, no interior do Pará e de toda a Amazônia.
Matinta Perera
Matinta Pereira, Matinta Perera, Mati-Taperê, Mat-taperê, Matim-Taperê, Titinta-Pereira são algumas formas de grafar este mito que se apresenta principalmente como sendo uma velha acompanhada de um pássaro. O pássaro emite um assobio agudo, à noite, que perturba o sono das pessoas e assusta as crianças, ocasião em que se promete tabaco ou fumo (aparece como promessa principal) mas que também pode ser alimento. A velha, uma pessoa idosa do lugar, carregaria a sina de "virar" Matinta Perera, ou seja, à noite transformar-se em ser indescritível, a meter medo e assombrar as pessoas. O mito da Matinta Perera chegou a ser confundido com o do Curupira, do Caapora e do Saci. A Matinta Perera pode ser de dois tipos: com asa e sem asa. A que tem asa pode transformar-se em pássaro e voar nas cercanias do lugar onde mora. A que não tem, anda sempre com um pássaro, considerado agourento, e identificado como sendo "rasga-mortalha". Dizem que a Matinta, quando está para morrer, pergunta: Quem quer? Quem quer?

E se alguém mais afoito, principalmente mulher, disser "eu quero", pensando em se tratar de alguma herança de dinheiro ou jóias, recebe na verdade a sina de "virar" Matinta Perera. Embora a grande maioria de registros informe que a Matinta Perera é mulher, existe pelo menos uma história passada em Inhangapi em que a Matinta Perera era um homem, por sinal um negão forte e musculoso.

Há fórmulas mágicas que permitem "prender" a Matinta Perera. Um deles exige uma tesoura virgem, uma chave e um terço. Cerca de meia noite deve-se abrir a tesoura, enterrar na área, colocar no meio a chave e por cima o terço, após o que rezam-se orações especiais. A Matinta Perera ficará presa ao local, não conseguindo afastar-se...

No livro "Visagens e Assombrações de Belém" o escritor narrou a história "A Matinta Perera do Acampamento", ocorrida na década de sessenta, na qual uma Matinta Perera foi presa pela fórmula e levada pelos habitantes ao Posto Policial do bairro da Pedreira, onde foi feita a acusação de que a mulher "virava" Matinta Perera, ante os policiais incrédulos. Mas naquela época - como até hoje - não se configurava como crime previsto em lei "virar" Matinta Perera, e a mulher ganhou a liberdade, voltando como vingança, a azucrinar a paciência dos moradores do Acampamento com seus estridulantes assobios

LENDAS   

 

O rio Amazonas

 

Tupã, o maior dos deuses, desejava criar o mundo e os homens... mas era impedido pelo Sol, que amava a Lua com amor tão ardente que queimava tudo à sua volta. Tupã não teve pois outro remédio senão separa-los. A Lua, infeliz, chorou copiosamente. Suas lágrimas, tão doces e abundantes que eram, formaram imensa torrente sobre a Terra, separada das águas do mar, assim nascendo o Amazonas.

Muitas outras lendas como estas relatam a origem da noite, das estrelas, da sucuri ou cobra-grande e outros tantos mistérios da natureza que despertavam a imaginação dos índios. A simples observação dessas curiosas narrativas pode ser suficiente para nos dar conta da atitude do indígena perante a natureza, profundamente diferente daquela que Sioli, muito justificadamente aponta como característica deplorável de nossa cultura européia, basicamente helenística, introduzida na América pelos conquistadores. O índio – tal como a maior parte das culturas orientais tradicionais, como a chinesa – considera-se parte integrante da natureza e não seu proprietário. Se ele mata animais para seu sustento, procede parcimoniosamente, não destruindo mais do que pode comer e, sempre, preservando sua reprodução; se derruba a mata para o plantio de suas roças fá-lo, sempre, em áreas restritas, sem remover os tocos remanescentes do desmatamento, de modo que estes, ainda vivos, rebrotem e cresçam novamente quando, três ou quatro anos depois, essa roça é abandonada à procura de novos locais para implantação da aldeia. Nada é definitivo, nenhuma ação modificadora do meio é irreversível. A terra é considerada sagrada pelo índio não apenas por receber seus mortos, mas principalmente por conservar sua vida.

 

O Uirapuru          

 

O pássaro de plumas vermelhas e canto maravilhoso é atingido pela flecha de uma donzela apaixonada, transformando-se num belo e forte guerreiro. Porém, um feio e aleijado feiticeiro enciumado, possuidor de uma flauta encantada, através de sua linda música faz com que o jovem desapareça, restando somente sua bela voz na mata. Dificilmente vemos o uirapuru, mas ouvimos com freqüência seu canto mavioso.

 

Único do mundo, misteriosa ave de canto lendário, quando o Uirapuru canta, todas as outras aves ao redor se calam e quem ouvir sentirá paz por toda a vida.

 

A mandioca

 

Mani era o nome da indiazinha de pele branca como o luar que nasceu para um casal de índios tupis. Era muito mimosa e boazinha, mas nada comia e foi definhando até que morreu, silenciosamente, em sua pequenina rede. Seus pais, compungidos, fizeram seu pequeno túmulo no interior, mesmo, da oca onde moravam. Regada a terra com as lágrimas dos pais desolados e com água pura de uma fonte próxima, eis que uma nova planta germina, rachando a terra com suas grossas raízes. Examinando-as, os índios logo perceberam que, por baixo de uma delgada casca, essas raízes eram brancas como a pele da meninazinha desaparecida e forneciam alimento farto e saudável que tornava os curumins que as comiam mais fortes e belos que os das outras tribos!

 

O guaraná

 

Um lindo e bondoso menino da tribo dos Maués é atacado, na mata, por Jurupari, espírito do mal, que, assumido a forma de uma serpente peçonhenta, envenena-o , causando sua morte. Tupã, o deus supremo, vinga-se do mau espírito regando abundantemente com suas chuvas o túmulo do indiozinho, de onde germina uma planta benéfica cujos frutos se assemelham aos grandes olhos da criança desaparecida: o guaraná que, desde então, traz saúde e felicidade à tribo.

 

LENDAS

 

Lenda do Açaí

 

Em tempos remotos, havia no local onde se erigiria, mais tarde, Belém do Pará, uma tribo que, devido à escassez de alimentos, vivia sempre em grandes dificuldades. E como a tribo aumentava dia a dia, o cacique Itaki reuniu sua gente, fazendo sentir a grande crise que adviria, caso continuasse a crescer demograficamente.

Resolveu, de comum acordo com os mais velhos guerreiros e curandeiros, sacrificar toda criança que nascesse a partir daquele dia. Talvez devido à tal medida, passaram-se muitas luas sem nenhuma nativa conceber. Porém, um dia, Iaçá, a filha do cacique Itaki, concebeu uma linda criança. Entretanto, não demorou muito para o Conselho Tribal se reunir e pedir o sacrifício da filha de Iaçá.

Seu pai, guerreiro de palavra, não hesitou em dar cumprimento à sua ordem. Ao saber da sorte de seu rebento, Iaçá implorou ao pai que poupasse a vida da filha, pois os campos estavam verdejantes e a caça não tardaria a abundar na região. O cacique Itaki, porém, manteve sua palavra e a criança foi sacrificada.

 

Iaçá enclausurou-se em sua tenda, ficando ali por quase dois dias de joelhos, rogando a Tupã que mostrasse a seu pai uma maneira pela qual não fosse preciso repetir o sacrifício de inocentes. Alta hora da noite, porém, ouviu Iaçá um choro de criança.

Aproximou-se da porta da tenda e, então, viu sua filha sorridente ao pé de uma esbelta palmeira. A princípio, ficou estática. Depois, em correria louca, lançou-se em direção à filha, abraçando-se a ela, mas deparou-se com a palmeira, pois, misteriosamente, a criança desaparecera.

Iaçá, inconsolável,chorou copiosamente até desfalecer.

No dia seguinte, o seu corpo foi encontrado ainda abraçado à palmeira. Estava morta, mas seu semblante risonho irradiava satisfação; ao mesmo tempo, seus grandes olhos negros, inertes, fitavam o alto da palmeira.

Itaki notou que a palmeira tinha um cacho de frutinhas pretas. Ordenou que fosse apanhado e amassado em um grande alguidar de madeira, obtendo, assim, um vinho avermelhado. Agradeceu a Tupã e, invertendo o nome da sua filha Iaçá, batizou o estranho vinho de Açaí, suspendendo em seguida, a limitação de seu povo.

E vieram os anos. O vinho vermelho veio a fortalecer gerações de guerreiros e caboclos. Belém tornou-se metrópole e, até hoje, seus habitantes tomam o vinho dessa palmeira nativa e se sentem fortalecidos graças às lágrimas de sangue da índia Iaçá.

 

LENDAS – Indígenas      

 

Português                                                                  Nheêngatú

 

Guerra do Buopé                                                        Buopé Maramunhangauaetá

Origem dos Uananas                                                 Mira Uanana (Ukaiar)

Os Uananas                                                               Sem texto em Nheêngatú

Guerra dos Uananas                                                  Uananaetá Maramunhangaua

Gente Manau I – Origem da Piripirióca                       Mira Manau I- Piripirioka lypyrungaua

Gente Baré III – Poronominare                                  Mira Baré III – Poronominare

Gente Baré III – Poronominare I                                Mira Baré III – Poronominare (Kamanao)

Gente Tária (Ucaiari) I – Origem dos Tárias                Mira Tária (Ukaiari) I – Tárietá lypyrungaua

Gente Macuxi – Origem do Mundo (Rio Branco)          Mira Macuxi II – lauka lypyrungaua (Kese Uéne)

Paraman e Duhi                                                          Paraman Duhi Yrumo

A Moça Retrato da Lua                                               Kunhãmuku Yasy Rangaua

Lapinari                                                                      lapinari

A Pussanga do Tocador                                              Muapysara Pusanga

Princípio da Fructa                                                      Yuá Ypyrungaua

As Surdas ou Mal Mandadas                                      Apysáymaetá

Sam                                                                            Sam

Amao (Kamanao)                                                       Amao (Kamanao)

Aru (S. Gabriel)                                                           Aru (S. Gabriel)

Kukuhy (S. Gabriel)                                                    Kukuhi (S. Gabriel)

As Filhas de Sufary                                                     Sufari Raiyraetá

Origem do Fogo I                                                       Tatá lypyrungaua

Origem do Fogo II                                                      Tatá lypyrungaua

O Ladrão de Umari                                                     Umari Mundasara

Casa de Tupana I                                                      Tupana Roka

Casa de Tupana II                                                     Tupana Roka

Massaricado                                                               Massarikado

As lágrimas do Ceo                                                    lúaka Sésa-lykysy

O Furto dos Instrumentos de lurupari                        lurupari Mimbyetá Mundasaua

Uanare                                                                       Uanare

Princípio da Noite e da Lua                                        Pytuna lasy Yrumo lypyrungaua

Dué                                                                            Ndué

Os Veados Comedores de Roça                                 Suasuetá Kupixaua Usára

A moça e a Curupira (Princípio do Caruru)                 Kunhãmuku Kurupira Yrumo (Kaaruru lypyrungaua)

 

 

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