HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

O império entregou a Amazônia

 

  Fonte Agência Estado: José Paulo Lacerda/AE

 O antropólogo David Cleary, que encontrou documentos sobre o "pedido de socorro" feito pelo regente Feijó, que poderia ter levado a uma intervenção britânica no Pará.

  

 São Paulo - O fantasma da internacionalização da Amazônia voltou, recentemente, a preocupar brasileiros de todo o espectro ideológico. A questão, que já vinha ressurgindo graças à crescente conscientização a respeito da riqueza mineral e biológica da região amazônica, acabou atiçada pelo chamado Plano Colômbia, de combate ao narcotráfico.

 

 Mas o risco de a Amazônia brasileira vir a ser tomada, de fato, por uma força estrangeira provavelmente nunca foi tão real quanto nas primeiras décadas do século XIX, pouco depois da Independência - quando a Inglaterra, a nação mais poderosa de então, com uma das mais eficientes marinhas de todos os tempos, teve a possibilidade real de se apossar da região. Bastaria se aproveitar de um pedido feito sigilosamente, em dezembro de 1835, pelo representante do governo imperial brasileiro, o regente Diogo Antônio Feijó. Ele autorizou que tropas britânicas (e também portuguesas e francesas) invadissem o Pará, atendendo a seu próprio chamado, e dessem combate aos rebeldes da revolta que ficou conhecida, nos livros de história, como "Cabanagem".

 

 Se seu plano fosse aceito, estrangeiros poderiam matar cidadãos brasileiros em pleno território brasileiro, com conhecimento e aprovação do governo nacional. Onze meses antes, os nativos haviam desencadeado um motim, a Cabanagem, o mais sangrento de toda a história brasileira (no curso do qual, em cinco anos, de 15% a 20% da população regional morreu - o equivalente, hoje, a dois milhões de mortos).

 

 O encontro secreto entre Feijó e os embaixadores inglês e francês só foi revelado 160 anos depois, quando o antropólogo David Cleary, 42 anos, autor de uma elogiada pesquisa sobre os garimpos de ouro da Amazônia, encontrou, no arquivo do Publics Records Office, em Londres, correspondência travada, de 1835 a 1839, entre a embaixada, o ministério das relações exteriores e o almirantado britânico. Cleary publicou um artigo a respeito nos Estados Unidos, não traduzido para o português. A documentação, ainda inédita, aguarda, há mais de dois anos, a publicação prometida pela direção do Arquivo Público do Pará, para o qual o pesquisador enviou o material, em microfilme. Essa talvez seja a maior revelação recente da história brasileira, mudando ou anulando muita coisa do que se pensava, particularmente sobre o primeiro império brasileiro e a mais sangrenta insurreição popular do período, que antecedeu de quatro décadas a Comuna de Paris, de 1871.

 

 Era o dia 17 de dezembro de 1835. Os embaixadores da Inglaterra e da França, Fox e Pontois, chegaram à sede do governo brasileiro, no Rio de Janeiro, para uma audiência "secreta e confidencial" convocada por Diogo Antônio Feijó, que governava o Brasil como regente, em nome de d. Pedro II, ainda sem idade para assumir a administração do império depois da renúncia de seu pai, d. Pedro I.

 

 Feijó comunicou aos dois embaixadores que esperava reunir no Pará, até abril do ano seguinte, uma força de aproximadamente três mil homens para retomar o controle da capital e das áreas próximas a Belém, em poder de rebeldes. Eles haviam desencadeado um sangrento motim em janeiro daquele ano, destituindo as autoridades legais, assumindo o poder e iniciando uma perseguição a cidadãos portugueses, sobretudo aos comerciantes, ainda os donos do poder local. Feijó repetiu-lhes o que já havia pedido, em outro encontro secreto anterior, ao embaixador de Portugal, de cujo jugo colonial o Brasil se havia livrado apenas 13 anos antes: que mandassem de 300 a 400 soldados de seus países para participar do ataque aos amotinados "cabanos", como os paraenses eram conhecidos.

 

 Essas tropas estrangeiras seriam embarcadas em navios de guerra dos três países e chegariam a Belém "como que por acaso", recebendo autorização para permanecer em território nacional. Seriam mantidas de prontidão "para cooperar com as tropas brasileiras, a pedido e a critério das autoridades brasileiras em comando". Essa "cooperação" se faria "pelos interesses gerais da humanidade e da civilização, e também pelo objetivo específico de proteger nossos respectivos conterrâneos e restituir a eles a posse de suas residências e bens". Mas o regente do império fazia uma ressalva: teria que ser omitido "o fato de as medidas terem sido tomadas a pedido do governo brasileiro".

 

 Os dois embaixadores se comprometeram a transmitir imediatamente o pedido aos seus respectivos governos. Na carta que enviou ao ministro das relações exteriores da Inglaterra, Lorde Palmerston (que em seguida viria a ser primeiro-ministro), Henry Stephen Fox informou, porém, ter desde logo alertado o governante brasileiro que não acreditava no sucesso da iniciativa, "a não ser que o comunicado nos fosse feito por escrito". Só assim seria possível avaliar o alcance da "cooperação" requerida, assim como "justificar tal cooperação no caso de ela ser concretizada, e posteriormente merecer objeções por qualquer parte do Brasil".

 

 Segundo o embaixador, o regente respondeu-lhe "que como a Constituição do Império proíbe terminantemente a admissão de tropas estrangeiras no território do Brasil sem o consentimento da Assembléia Geral (que não poderá mais ser obtida a tempo), lhe é impossível formular sua proposta por escrito, e que, ademais, seria motivo de descrédito para o governo se fosse divulgado oficialmente o fato de que, sem ajuda externa, ele não é capaz de derrotar um punhado de insurgentes miseráveis". Assim, Feijó não podia ir além de uma solicitação verbal em caráter secreto, "deixando a cargo de nossos governantes basear nisso as instruções que lhe pareçam convenientes aos comandantes de suas respectivas forças navais".

 

 Ao transmitir o conteúdo da conversa reservada, o embaixador inglês, mesmo não podendo "deixar de transmitir o comunicado" ao seu superior, não via "a menor possibilidade de o governo de Sua Majestade ou o governo francês anuírem com os desejos do regente, ou consentirem em ordenar uma operação militar, com base em um pedido formulado de maneira tão imprecisa e informal".

 

 Como o próprio Feijó admitira, acrescentou o diplomata na correspondência, sua proposta "viola diretamente as leis e a Constituição do país; e, é claro, seria desmentida de imediato, e a culpa pela intervenção não autorizada seria atribuída às potências estrangeiras, se isso fosse visto como conveniente".

 

 Fox observa ainda: "não penso que exista a menor probabilidade de que o governo brasileiro consiga, nem agora nem em qualquer momento, reunir uma força regular tão grande quanto aquela que o regente afirmou contar".

 

 Finaliza a correspondência com uma última advertência: "O emprego, no Pará, de uma força inglesa e francesa, em conjunto com uma portuguesa, tornaria o procedimento ainda mais questionável, levando em conta o ciúme que ainda existe neste país com relação à influência e aos desígnios de Portugal".

 

 Respondendo à consulta, em 9 de maio de 1836, Lorde Palmerston informou o encarregado dos negócios na embaixada no Rio de Janeiro, W. G. Ouseley, que o governo inglês havia dado "a mais atenciosa consideração à sugestão feita" por Feijó, mas não se sentia "à vontade" para cumprir esses desejos.

 

 Em primeiro lugar, porque seria "uma divergência dos princípios gerais que regem a conduta do governo britânico, em relação aos países estrangeiros, interferir tão diretamente nos assuntos internos do Brasil". Palmerston considerava "inadequado para a dignidade deste país fazer uma demonstração, sem estar preparado, se fracassada fosse, para acompanhá-la pela força: e o Governo de Sua Majestade não acreditava justificável se envolver em operações em terra pelo interior da Província do Pará, com o objetivo de apoiar a autoridade do Governo do Rio de Janeiro contra a população do distrito".

 

 Mas ainda que não houvesse "objeções insuperáveis a esse tipo de procedimento", o chanceler inglês lembrava que a constituição brasileira "expressamente proíbe a penetração de tropas estrangeiras em território brasileiro sem o consentimento do Poder Legislativo". Mesmo descartando o pedido, o governo britânico se sentia "altamente gratificado pela confiança por parte do Regente, da qual a sugestão dele produz uma prova inequívoca, e que o Governo de Sua Majestade sinceramente espera que as medidas inteligentes e enérgicas adotadas pelo Regente, para a pacificação do Pará, cheguem a um bom êxito para restaurar a paz e a ordem naquela importante Província".

 

 Em abril de 1836, a tropa imperial brasileira e uma esquadra britânica realmente se encontraram no Pará, mas não da maneira pretendida por Feijó. Três navios de guerra foram deslocados de Barbados para Belém, pelo Comando Supremo das Índias Ocidentais, com a missão de exigir a prisão dos assassinos da tripulação de um navio mercante inglês, que fora pilhado cinco meses antes no litoral paraense.

 

 O capitão Charles Strong encontrou uma província em pânico pelos violentos combates travados entre as tropas imperiais e os rebeldes, que continuavam de posse da capital. Mas ele foi recebido em Belém "de forma muito melhor do que esperava". O presidente mandado pelo Rio de Janeiro, almirante Manuel Jorge Rodrigues, confinado numa ilha próxima, havia alertado Strong que "se eu atracasse, seria assassinado". Mas o presidente cabano, o jovem Eduardo Angelim, terceiro no posto desde o início da revolta, disse-lhe que só não fora cumprimentá-lo a bordo do próprio navio inglês porque "o povo não permitiria que ele o fizesse".

 

 Após esse contato, Strong manifestou ao almirantado sua admiração de que "os brasileiros não viessem tomar a cidade, o que certamente os botes da minha esquadra teriam feito, se necessário, em meia hora, mas o nome de Eduardo (um mero rapaz) parecia fazer um terrível efeito, e não vimos além de cento e cinqüenta homens armados e estes em estado deplorável". Em outra correspondência, garantiu que "podíamos facilmente ter desembarcado 220 homens, incluindo fuzileiros com pequenas armas", e tomado Belém dos rebeldes. Mas preferiu manter-se como observador.

 

 Na busca da indenização para os prejuízos materiais e na reparação dos crimes cometidos contra o brigue Clio, o oficial inglês enfrentou mais resistência na autoridade legal. Angelim, que louvou "a suavidade dos modos" de Strong, reforçando a "amizade que a nação inglesa consagra ao Pará", eximiu-se de responsabilidade, "pois o Pará não existe desmembrado do império". Deixava claro que não havia nenhum propósito separatista no movimento sob sua liderança, ao contrário do que caracterizava a Farroupilha, rebelião que eclodiu simultaneamente no outro extremo do país, no Rio Grande do Sul (então província de São Pedro), ameaçando a unidade territorial do nascente império.

 

 A Cabanagem foi reprimida a ferro e fogo a partir do momento em que os rebeldes abandonaram Belém. O historiador Arthur Cezar Ferreira Reis, uma das fontes mais respeitadas sobre a região, calcula que 20% dos 150 mil habitantes da Amazônia naquela época foram mortos, pelos rebeldes ou - e principalmente - pelas tropas imperiais, no período de "pacificação". A documentação inédita revela que a Inglaterra em nenhum momento tentou se apossar da Amazônia, transformando-a em possessão colonial britânica, como havia feito na Ásia e na África. Os navios da esquadra foram deslocados de Barbados para investigar se naquele lugar estratégico poderia estar se repetindo um motim semelhante ao de Santo Domingo, escravos e índios se unindo para se libertar do grande inimigo comum, "pondo fim ao mundo criado pelos brancos".

 

 Para a Inglaterra, naquelas paragens o representante desse mundo era o governo brasileiro, que confirmara todos os compromissos herdados da administração portuguesa. "Se a revolução [cabana] não for agora sufocada, a extensa e fértil província do Pará poderá ser considerada como perdida para o mundo civilizado", assinalou o embaixador Fox para Lorde Palmerston. Mas isso não aconteceria: os índios e negros amazônicos "eram muito menos avançados em relação à civilização do que os negros de São Domingos foram, quando eles por primeiro se tornaram livres". A pérfida Albion não tinha o que temer.

 

 A nova documentação sepulta especulações com a aparência de verdades históricas feitas até agora. Como a de Carlos Rocque, autor de Cabanagem - Epopéia de um Povo, um dos mais recentes livros de uma bibliografia perturbadoramente reduzida sobre o tema. Segundo Rocque, Eduardo Angelim, "quando Presidente, recebeu tentadora proposta de um capitão inglês, para proclamar a independência do Pará, no que teria o apoio de potências estrangeiras. E o caudilho negou-se até a discutir a sugestão".

 

 Nenhuma documentação acompanha a afirmativa, mas ela é repetida em quase todos os livros acatados como referência. Pasquale di Paolo diz, em Cabanagem - A Revolução Popular da Amazônia, que o capitão inglês propôs ao presidente cabano a "declaração de independência da Amazônia". Gustavo Moraes Rego Reis registrou, em A Cabanagem, que os ingleses "sugeriram e ofereceram proteção à província, caso fosse proclamada a separação política do Império". Quando o próprio Angelim morreu, em 1882, o jornal Diário do Grão Pará registrou que o maior dos líderes cabanos havia recusado "recursos militares do governo Americano para proclamar a independência da Amazônia".

 

 O mito prevaleceu durante tantos anos porque os historiadores não se lançaram adequadamente na busca da verdade e porque foi interessante cultivar uma versão heróica, observa Cleary na entrevista que concedeu a O Estado. Doutor em antropologia por Oxford e professor visitante do Departamento de História da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, até assumir uma diretoria da ONG ambientalista TNC (The Nature Conservancy) em Brasília, no ano passado, Cleary já publicou um livro em português: A Garimpagem de Ouro no Brasil: Uma Abordagem Antropológica (Editora da UFRJ, 1990). Sua entrevista:

 

 Como e quando você se interessou pela Cabanagem?

 

 Desde comecei a trabalhar na Amazônia e ouvi falar do episódio pela primeira vez, em 1984.

 

 Como e quando chegou aos documentos do Foreign Office?

 

 No verão de 1993, li Motins Políticos, de Domingos Antônio Rayol, publicado há mais de um século, mas ainda o melhor livro sobre o assunto. Rayol menciona diversas vezes a presença de comerciantes e navios britânicos, e intervenções militares britânicas. Eu sabia de pesquisas anteriores, sobre outros assuntos, que os arquivos ingleses são bem organizados, e não seria difícil achar o material consular, nem o material naval. Munido com datas e nomes de navios britânicos tirados de Rayol, fui para o PRO [Public Records Office] e de fato, com a ajuda de um arquivista, achei o material consular em aproximadamente duas horas. Daí, tirei mais informações, e consegui localizar vários pacotes de material relevante do Almirantado, também sem muitas dificuldades.

 

 Acha que pode haver ainda, na Inglaterra e em outros países europeus, documentos inéditos sobre a Cabanagem? O que seria preciso fazer para localizá-los?

 

 Sem duvida. Acho que na Inglaterra achei o maior parte dos documentos; o material consular e militar é completo e bastante compreensível. A única lacuna é o material sobre um pedido de indenização feita pelos comerciantes britânicos de Belém, que é mencionado na correspondência, mas não achei o material. Talvez exista num arquivo brasileiro; adivinharia no arquivo do Itamaraty. Há sem dúvida material consular e naval na França, que também manteve consulado em Belém na época, acompanhou de perto os eventos, de lá e de Caiena, também mandou navios de guerra, e teve um interesse direto territorial muito mais significante do que o britânico.

 

 Jeanine Potelet, professor da Universidade de Paris-X Nanterre, já vasculhou os arquivos da marinha francesa, da mesma maneira que eu fiz em Londres para a Marinha Real, e publicou resumo fascinante no Boletim do Museu Goeldi, em 1990, incluindo até desenhos da cidade na época, feita por oficiais franceses. E deve existir mais material consular e naval em Lisboa, que de todas as fontes deve ser a mais fascinante, já que os portugueses foram os mais afetados pela eclosão da violência.

 

 Existe material consular no Arquivo Nacional, em Washington, que já vasculhei, mas bem pouco, já que o cônsul americano da época não escreveu muito, e um dos cadernos mais relevantes é ilegível - parece que molhou. Só precisa mandar um pesquisador competente, com capacidade lingüistica.

 

 Este material é, sem dúvida, fácil de localizar. Sou antropólogo, não historiador, e mesmo assim achei o material em questão de horas. Isso num arquivo bem organizado e catalogado, é claro, mas arquivos consulares e militares geralmente o são. Já existe um trabalho relevante na França, o que significa que estes materiais franceses também são fáceis de localizar.

 

 Quanto a Portugal, não sei, e eu mesmo ia até fazer uma busca em Lisboa, mas acabei saindo do mundo acadêmico, pelo menos por enquanto, e não deu tempo. Mas comparado com muitos episódios desta época da história brasileira, a Cabanagem é relativamente bem documentada, e somente uma pequena fração da documentação relevante já foi levantada.

 

 O que você considera mais importante na documentação que encontrou em Londres?

 

 Ela esclarece definitivamente a natureza da participação da Inglaterra na Cabanagem, e dos países estrangeiros, de modo geral, que tem sido um ponto polêmico, porém pouco documentado, na historiografia. E de longe o fato mais importante é a correspondência secreta, que mostra como o governo imperial tentou armar uma intervenção militar estrangeira no próprio território brasileiro, um fato extraordinário e inédito.

 

 Quais as causas, diretas e indiretas, da Cabanagem, no seu entendimento?

 

 Direta, uma briga política entre facções da elite regional, e a decisão de uma facção de armar o povão. Indiretamente, um contexto de tensão racial e exclusão econômica, e de ódio contra os portugueses, que sobreviveu, embora em formas mais brandas, durante décadas depois da Cabanagem. Essa é uma das coisas mais interessantes e menos escritas na história da Amazônia.

 

 Você acha que a Inglaterra, se quisesse, podia ter se aproveitado da proposta apresentada pelo regente Feijó para se estabelecer na Amazônia e transformá-la em mais uma das suas colônias? Por que isso não ocorreu?

 

 Militarmente, sem dúvida. Tinha capacidade e o fato de que não o fez demonstra muitas coisas interessantes sobre a natureza do imperialismo britânico na época. Não o fez porque, em primeiro lugar, não precisou. Já dominava o comércio exterior do Brasil. Seus comerciantes trabalhavam no Brasil sem muito impedimento, conseqüência do lugar privilegiado que a Inglaterra conquistou no Brasil a partir da época da transladação da família real portuguesa, em 1808. Era mais eficiente do que construir um império à portuguesa quinhentista. Ou seja: controle de pontos estratégicos no litoral e domínio das rotas marítimas. O imperialismo britânico funcionava assim até a segunda metade do século XIX, quando os vitorianos estragaram tudo com suas idéias tolas de missões civilizadoras. Quando os seus comerciantes foram ameaçados, reagiram, como no caso da Cabanagem.

 

 Mas acredito que o arquivo britânico demonstra, com a maior clareza possível, a primazia dos interesses comerciais sobre os políticos. Quem quiser imaginar complôs ou segredos para desmembrar o País, como ainda se vê até hoje em alguns círculos militares e nacionalistas, que se ache nos arquivos do próprio governo brasileiro da época, porque existem!

 

 Os cabanos estabeleceram um governo popular em Belém quatro décadas antes da Comuna de Paris. Você concorda em que essa precedência faz da Cabanagem um movimento precursor, uma antecipação ao seu tempo? Que avaliação você faz dos governos cabanos?

 

 Não sei responder muito bem a esta pergunta, porque uma resposta adequada deve ser baseada em documentos, e não os examinei ainda, embora devam existir alguns no Arquivo Público, em Belém. Acho difícil comparar a Cabanagem e a Comuna. A Comuna teve a participação de muitos ideólogos alfabetizados, o que não foi o caso da Cabanagem. As raízes da Cabanagem estão na história social e econômica da Amazônia nas décadas desde a época pombalina - eu olharia mais para trás para explicá-la, não para o futuro. E não sei até que ponto que eu chamaria os governos cabanos de verdadeiramente populares. As lideranças - os Vinagre, Angelim - jamais foram populares, por exemplo. Às vezes, acho que a tradição esquerdista da historiografia brasileira procura exemplos de governos populares, quando a realidade era bem mais complicada.

 

 Como você situaria a Cabanagem no contexto da sua época?

 

 A maior e, de longe, a mais interessante das rebeliões provincianas que sacudiram o país ate a década de 1840. Uma janela direta para a especificidade do norte do Brasil, comparado com o resto do País; a complexidade racial, com a presença indígena, a maior influência da presença portuguesa, e a vingança contra eles, proporcionalmente mais violenta. O fato de que nunca foi uma rebelião separatista, no sentido de querer se separar do Brasil. A profundidade do ódio pessoal entre duas facções de elite, ambas escravocratas, ambas privilegiadas economicamente, e ambas demonstrando uma absoluta falta de astúcia ou de vontade de negociar, provocando uma conflagração que era (e é!) sem precedentes, em termos de escala, na história do Brasil. Uma tragédia shakespeariana.

 

 Por que é tão pobre a bibliografia sobre a Cabanagem? De quais leituras você obteve informações importantes para sua compreensão?

 

 Não sei, e sempre me estranhei sobre isso. Tem o Rayol, que continua a fonte fundamental, e o livro de Vicente Salles, Memorial da Cabanagem, que, embora não concorde com tudo o que diz, é um livro de primeira qualidade. Tem a obra de [Jorge] Hurley, na década de 1930, que resgatou uma série de documentos importantes. O resto da bibliografia é, me desculpe, extremamente provinciana, marcada por preconceito ideológico e uma falta de interesse em localizar ou analisar os documentos do episódio, primeiro dever do historiador. Nem todo mundo pode pesquisar na Europa, mas há muitos documentos ainda no Arquivo Público do Pará, que os pesquisadores e estudantes locais deviam estar trabalhando, e não estão - ou, se estão, não estão publicando.

 

 A Cabanagem, mal conhecida e muito falada, tornou-se um mito para os habitantes da Amazônia?

 

 Sim, porque houve o descaso de não levantar os documentos e fazer um história bem feita, com a exceção de Rayol e Salles. Mitos florescem na ausência de pesquisa.

 

 Os centros mais importantes do Brasil praticamente desconhecem a Cabanagem. A situação continua a mesma, hoje, apesar de tudo o que se fala sobre a Amazônia?

 

 Sim, infelizmente. A história da Amazônia continua sendo um campo de pesquisa que não atrai o número de pesquisadores que a sua importância merece. E o resultado da ignorância da sua história está aí: políticas públicas mal concebidas, muitas vezes repetindo os erros pombalinos do passado, e investimentos desastrados pelas entidades multilaterais e estrangeiras, que conhecem a região bem menos do que seus comerciantes da época da independência. Uma das coisas deprimentes é que às vezes a documentação mostra que os comerciantes, diplomatas e militares da década de 1830 eram mais sagazes do que seus colegas de hoje.

 

 Vai ser preciso um brazilianist ou um "amazonólogo" estrangeiro se interessar pelo tema e publicá-lo fora do Brasil para que os nacionais descubram a Cabanagem?

 

 Não. Não há falta de pesquisadores brasileiros e amazônicos competentes. Espero que não.

 

 Você pretende continuar a se dedicar ao assunto ou ele é algo lateral no seu esforço de pesquisa?

 

 Nem tanto como eu quero. Trabalho numa entidade ambientalista que tem outras prioridades. Mas tudo o que faço é de certa forma vinculado com meu conhecimento da história da Amazônia, e neste sentido nunca deixarei a trabalhar com a Cabanagem. Espero um dia achar o tempo de escrever mais uns artigos, ou talvez um livro, reunindo as fontes estrangeiras e as comparando com material brasileiro, enfocando o papel dos estrangeiros no episódio e o ele que demonstra sobre a natureza do imperialismo na América Latina e a Caribe da época. Mas não sei se - e quando - terei tempo de fazer isso. O melhor para mim seria orientar um historiador brasileiro, de preferência paraense, sobre o tema. Assim, eu sentiria que levando estes documentos para o Pará estava, de certa forma, ajudando a fortalecer a historiografia local, em todos os sentidos.

 

 Que projeto você está desenvolvendo atualmente relacionado à Amazônia?

 

 Trabalho na TNC do Brasil, sigla de The Nature Conservancy, uma entidade ambientalista. Basicamente, procuro fortalecer a capacidade institucional dentro da Amazônia para lidar com vários aspectos de questões ambientais na região. Quando os meus dois nenéns me permitem, escrevo um livro sobre a história ambiental da Amazônia, que espero publicar dentro de cinco anos. A editora está sendo paciente.

 

Por:  Lúcio Flávio Pinto

 

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

Amazônia: Diversidade e Conflito

 

Inferno Verde, Pulmão do Mundo, Hiléia, Paraíso Verde, Eldorado, são algumas designações e metáforas, entre tantas, com que a Amazônia é referida ao longo dos tempos, de acordo com as variações do humor ideológico de plantão.

 

Como escreve Samuel Benchimol no seu clássico Amazônia - Formação Social e Cultural, "depois da Guezerá (sentença maldita) da Ibéria, do Guehinan (inferno) de Marrocos, a Amazônia, por volta de 1810, quando se iniciou a emigração dos judeus para o Grão-Pará e Amazonas, surgiu como o Gran-Eden, o jardim do Paraíso, a Terra da Promissão." Ao que consta, a presença judaica na Amazônia era já tão grande que uma das alternativas que se discutiam para a localização do Estado de Israel, criado, enfim, em 1948, era a Amazônia, o que teria contribuído para o Brasil, através de seu chanceler na ONU, Oswaldo Aranha, apoiar e liderar a votação pelo reconhecimento do novo país em terras da, até então, Palestina de dominação inglesa.

 

Uma experiência antípoda com a Amazônia, do ponto de vista das suas representações, é a que se lê no romance A Selva (1930), do escritor português Ferreira de Castro que, órfão de pai, vem com doze anos para Belém, em 1914, embrenhando-se, mais tarde, na floresta para trabalhar como seringueiro. Essa é a matéria prima do romance que conta a história de um jovem estudante de direito que, aos 26 anos emigra, por razões políticas, para Belém, vai trabalhar no seringal "Paraíso" às margens do rio Madeira e vive o inferno dos desejos de juventude e as aventuras inusitadas com que a floresta o enfrenta.

 

Mais ou menos na mesma época, instala-se em Manaus o fotógrafo e cineasta Silvino Santos, também português, cuja atividade nos deixou um legado de imagens preciosas da região e de sua gente e que, em parte, podem ser vistas hoje no filme O Cineasta da Selva (1997), de Aurélio Míchiles, que tão bem soube aproveitá-las.

 

A Cólera dos Deuses, do cineasta alemão Wladimir Herzog, famoso nos anos 70 e 80 e fascinado pelos Andes e pela Amazônia, passeia a loucura dos colonizadores pelas planícies de água e verde do mito encantado e trágico da conquista. Em outra época, Fitzcarraldo navega, insano, por terra firme, num navio fantasma com que pretende chegar a Manaus para assistir a um espetáculo de ópera no fabuloso teatro plantado às margens do Rio Negro, em 1896, pelo luxo da riqueza transitória da explosão da borracha nos mercados internacionais.

 

A Fordlândia foi abandonada, Carajás não avançou, Ewil Ludwig - o mesmo do Instituto que em parceria com a FAPESP, desenvolve o projeto Genoma do Câncer no Brasil - desilude-se de seu sonho empresarial amazônico, a Transamazônica é uma ferida linear na selva, que sangra o desvario megalomaníaco dos governos militares, o projeto Sivam, contraditório na percepção que até agora permitiu de si para a sociedade, instala-se e consolida-se, a zona franca continua por lá, com vida legal projetada até 2013, mas com atividade comercial no varejo de Manaus reduzida a quase zero.

 

Em 1799, o filósofo e naturalista alemão Alexander Von Humboldt, chega, no dia 16 de julho, a bordo do navio "Pizarro", à Venezuela. Em fevereiro do ano seguinte, realiza uma longa excursão pelo rio Orenoco e outros rios da Amazônia, chegando até o rio Negro, na fronteira com o Brasil, onde foi barrado pelas autoridades portuguesas.

 

Em 1948, a Presidência da República dos, então, Estados Unidos do Brasil submete ao Congresso Nacional, para aprovação parlamentar, o texto da Convenção Constitutiva do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica e o Protocolo Financeiro, firmado pelo Brasil em Iquitos, Peru, no mesmo ano.

 

Em 1952, alguns intelectuais, entre eles Paulo Duarte, Osório Borba, Marques Rebelo e Sérgio Buarque de Holanda, tentam fazer aprovar, no III Congresso Paulista de Escritores, uma moção de apoio ao projeto da fundação Hiléia Amazônica, "instituída pelas nações com soberania na região amazônica e destinada exclusivamente a pesquisas científicas naquela região". Os nacionalismos de plantão não permitiram jamais que o projeto se concretizasse, embora, mais tarde, importantes instituições de pesquisa da Amazônia, como o INPA, em Manaus, e o Museu Goeldi, em Belém, ali se instalassem, cumprindo um papel fundamental para o conhecimento cultural e científico da região.

 

Em 1998, os mesmos nacionalismos, com roupas da moda, retardaram o quanto puderam a ajuda internacional para combater o fogo que destruía as matas de Roraima, a ponto do assunto ser matéria do editorial do Jornal do Comércio de Recife, de 08 de abril daquele ano, com o sugestivo título Hiléia Amazônica de novo.

 

Recentemente, o convênio, entre a empresa para-estatal Bio-Amazônia e a transnacional Novartis, de medicamentos, para a exploração da rica biodiversidade da floresta tropical foi, no ponto de ser assinado, suspenso no último minuto, provavelmente por razões, alegadas, muito parecidas às que envolveram, meio século antes, os impedimentos daquele outro programa de internacionalização de suas riquezas naturais, para fins científicos, tecnológicos ou, mesmo subjacentes, econômicos.

 

A Amazônia, tal como a bio e a socio-diversidade que lhe são constitutivas e, talvez, por isso mesmo, está enredada numa teia de dramas, conflitos, controvérsias que se multiplicam numa escala proporcional às pequenas e grandes ambições de que ela sempre foi alvo, desde sua conquista e posse, no decorrer dos séculos VVII e XVIII, pelos europeus.

 

Quase metade do território brasileiro é coberto pela floresta tropical da bacia amazônica em contraste com os apenas 10% de toda população nacional distribuída por sua imensidão.

 

Quando chegaram os invasores europeus, a população indígena no Brasil estimada em 5 milhões, tinha metade deles espalhados pela Amazônia, "cujos rios colossais", como escreve Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro, "abrigavam concentrações indígenas que pasmaram os primeiros navegantes".

 

O extermínio dessas populações de línguas, culturas e etnias diversificadas foi tão violento que delas restou até há poucos anos atrás não mais do que 150 mil, com perdas culturais e lingüísticas para sempre irrecuperáveis.

 

Contudo, esse processo sistemático e cruel de perda pelo contato com a civilização, que parecia irreversível à maioria dos estudiosos e dos que se dedicavam às questões indígenas, tem, desde algum tempo, sofrido uma reversão que se mostra nos sucessivos censos realizados e que apontam, hoje, para um número superior a 300 mil, dos quais mais de 170 mil em território amazônico.

 

Apesar da grande atenção nacional e internacional para as questões indígenas, consubstanciada, muitas vezes, em políticas públicas consistentes, elaboradas e desenvolvidas por instituições civis e governamentais e pela ação abnegada de homens como Rondon e os irmãos Vilas-Boas, isso não significa que o processo de permanência, de preservação da própria identidade e de interação com a sociedade, como um todo, tenha perdido os seus predicados históricos de crueldade, prepotência e debochado oportunismo.

 

Veja-se, a esse propósito, o artigo com o título-paródia The Fierce Antropologist (O Antropólogo Feroz) de Patrick Tierney na The New Yorker (9 de outubro de 2000) no qual comenta, contrapõe e critica a ação predatória e devastadora de um dos mais famosos estudiosos desse grupo indígena, cujo livro Yanomamö: The Fierce People (Yanomami: O Povo Feroz), de 1968, tornou-se um clássico e, através de múltiplas edições, bateu a casa de mais de um milhão de exemplares publicados.

 

Assim, também os cientistas têm sua contribuição a dar nesse processo de devastação socio-ambiental da Amazônia e, a considerar como procedentes as denúncias contidas no artigo de Patrick Tierney, muito mais virá no seu livro anunciado para novembro, cujo título - Darkness in El Dorado: How Scientist and Journalists Devasted the Amazon (Escuridão em Eldorado: Como Cientistas e Jornalistas Devastaram a Amazônia) - não só sugere lembranças do Coração das Trevas, de Joseph Conrad, como promete revelações terríveis sobre a pretensa imparcialidade isenta de nossos colegas em seus sagrados rituais de pesquisa e de informação.

 

Os Yanomami que, segundo Darcy Ribeiro, "constituem hoje o maior povo prístino da face da terra, começam a extinguir-se, vitimados pelas doenças levadas pelos brancos, sob os olhos pasmados da opinião pública mundial. São 16 mil no Brasil e na Venezuela. Falam quatro variantes de uma língua própria, sem qualquer parentesco com outras línguas, vivendo dispersos em centenas de aldeias na mata, ameaçados por garimpeiros que, tendo descoberto ouro e outros metais em suas terras, reclamam dos governos dos dois países o direito de continuarem minerando através de processos primitivos, baseados no mercúrio, que polui as terras e envenena as águas dos Yanomami."

 

Se a Amazônia não se internacionaliza formalmente, internacionalizam-se, contudo os seus conflitos nos diferentes níveis, esferas e escalas socio-políticas.

 

O assassínio de Chico Mendes transformou sua morte em emblema das duras lutas da vasta população cabocla da Amazônia pela dignidade de vida, ligada indissoluvelmente ao respeito pelos direitos sociais mas também à preservação do equilíbrio ambiental. Criam-se, assim, cada vez mais, as condições para desenvolvimento de uma consciência cidadã não como privilégio das populações urbanas da costa, do sul e do sudeste, mas como elemento crítico do conhecimento dos direitos e obrigações comuns a todos e do auto-reconhecimento das diferenças na integração.

 

Há dias, reuniram-se em Manaus ministros da defesa de 28 países para discutirem, entre outros assuntos atinentes ao tema, o plano Colômbia, amparado pelos E.U.A., de combate ao narcotráfico. Além das longas reuniões, da histórica prepotência da política americana, cujo sub-secretário de defesa declarou que, com ou sem apoio de outros países, eles levariam o projeto adiante, além das fotos-álbum-para arquivo e da pirotecnia dos exercícios simulados de combate na selva, o fato é que o ritual de internacionalização estava lá e não em outro lugar, plantado bem ali às margens do rio Negro que nasce do Orinoco, que desce dos Andes, que depois de Manaus se encontra com o Solimões que é, então, o Amazonas, que corre para o mar e nele deságua no delta de Marajó, depois de rolar suas águas por mais de 5 mil quilômetros em território brasileiro.

 

Um estudo desenvolvido pelo IPEA, cujo anúncio se fez recentemente pela mídia, estimou em cerca de 4 trilhões de dólares a riqueza potencial da diversidade biológica e mineral contida em nossas matas. A floresta amazônica, se a estimativa estiver correta, é, sem dúvida, responsável por grande parte desse valor e é por isso que a região concentra tantos conflitos quantas são as soluções que para eles se propõem e tantas vezes se adiam.

 

Inadiável, é claro, é a lembrança permanente de que ali se desenrola uma luta constante, às vezes anônima, outras notória e espetacular entre homens e a natureza, entre a natureza e as formas sociais de seu uso e apropriação, entre a sua apropriação e a consciência, cada vez mais dramática, de que é preciso aceitar-lhe, na sua diversidade social e biológica, a estranheza, renunciando, assim, ao projeto insano de sua total domesticação.

 

Apesar da cobiça e da ambição do conhecimento, transformado em valor econômico pelo domínio das tecnologias, é preciso conviver sinceramente com nossa humanidade, falível, portanto, nas suas ilusões de onipotência, mesmo sob os humildes disfarces do reconhecimento de nossos limites e limitações.

 

Carlos Vogt

  

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

O nome Amazonas foi dado pelo frei espanhol Gaspar de Carvajal, o primeiro cronista europeu a viajar pelo rio, durante a expedição de Francisco de Orellana, na primeira metade do século XVI. O frei afirmou que sua embarcação foi atacada por mulheres que, como na mitologia grega das amazonas, pretendiam escravizar os homens para procriar antes de matá- los. 

 

As mais antigas evidências arqueológicas da existência humana na Amazônia são de pelo menos, 12 000 anos atrás.

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

Durante o ciclo da borracha (4879-1912), a Amazônia foi responsável por quase 40% das exportações brasileiras. Manaus era a capital mundial de venda de diamantes, e o seu teatro, com 681 lugares, foi construído na Europa e trazido de navio para ser montado no Brasil. Sob o calor de 40 graus, os ricaços usavam terno, gravata- borboleta e colete, imitando os ingleses. As mulheres vestiam- se com modelos parisienses.

 

Graças à borracha, nos primeiros anos deste século a Amazônia teve uma renda per capita duas vezes superior à da região produtora de café- São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A riqueza acabou quando ingleses levaram as mudas de seringueiras para a Malásia, até hoje líder mundial na produção de borracha natural.

 

Até 1839, a borracha era um artigo que agradava mais aos curiosos do que aos empresários. Ela derretia no calor e tornava- se quebradiça no frio. Naquele ano um americano chamado Charles Goodyear (daí a marca  do pneu) descobriu o processo de vulcanização da borracha. Isso a tornou estável, tanto no frio quanto no calor. O comércio explodiu. Entre 1850 e o começo deste século, as exportações do produto na Amazônia aumentaram trinta vezes.

 

Nos anos 30, o pioneiro da indústria americana de carros, Henry Ford, resolveu plantar seringueiras na Amazônia. A plantação fracassou porque foi atacada por um praga da folha.

 

A primeira mega obra na Amazônia foi estrada de ferro Madeira- Mamoré, em Rondônia. Era parte do preço pago pelo Brasil à Bolívia pela compra do então território do Acre. Serviria para escoar produtos bolivianos, mas foi um fracasso. Durante a construção, entre 1907 e 1912 de 6000 operários morreram de malária- um morto por dormente da ferrovia, como se dizia na época. Hoje, dos 366 quilômetros construídos, apenas 7 quilômetros de trilhos continuam em operação.

 

Ficou famosa nos anos 60 a proposta de um futurólogo americano, Herman Kahn, do Instituto Hudson, Kahn sugeriu que se construíssem sete barragens para criar cinco lagos gigantescos na Bacia Amazônia. Queria estimular o intercâmbio econômico entre os países da América do Sul e o investimento estrangeiro em pesca, mineração e petróleo na região. Aos ouvidos do governo militar brasileiro soou como uma proposta de internacionalização da Amazônia e as reações contrárias foram muito fortes. Alguns dos projetos faraônicos inventados pelos militares para a região tiveram essa causa. "Integrar para não entregar" era um dos slogans oficiais da época.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA                                                 

 

O governo militar tentou, via incentivos fiscais, transformar o sul do Pará num pólo exportador de carne nos anos 70. Atraiu para lá 300 grandes empresas e tudo acabou num grande fiasco. Nem o capim nascia direito no solo pobre da região. Para fazer jus às facilidades fiscais, as empresas eram obrigadas a desmatar o terreno. Até hoje o desmatamento é prova de produtividade pelos critérios do governo. Se uma propriedade tem muita árvore, ela é considerada improdutiva. 

Na década  de 70 e 80, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária imaginou que seria possível colocar 5 milhões de colonos nordestinos no Amazônia. Conseguiu levar 5000 famílias para lá, dando terreno para plantar e salário mínimo durante os primeiros seis meses. Os colonos descobriram que a terra perdia a fertilidade em dois ou três anos. Descobriram também que lá havia muita doença e muito isolamento.

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

 

Entre os escritores brasileiros, nenhum conseguiu refletir tão bem o estranhamento de um visitante em relação à Amazônia quando Euclides da Cunha. Já conhecido por ter escrito Os Sertões, Euclides navegou pelos rios Purus, Juruá e Acre em 1905. Escreveu o seguinte: "O homem ali é ainda um intruso impertinente. Chegou sem ser esperado nem querido, quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais luxuoso salão".

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA: expedições

 

Em 3 de fevereiro de 1.914 o ex- presidente norte americano Theodore Roosevelt e o coronel Cândido Rondon participaram de uma expedição pelas matas amazônicas no intuito de descobrir e catalogar novas espécies animais e mapear a região. Descobriram que o rio da Duvida desembocava no rio Madeira. Passou a chamar-se Rio  Roosevelt. Todos os exemplos de flora e fauna coletados foram para o Museu Americano de História Natural. Em março de 1992, o antropólogo norte americano Tweed Roosevelt, bisneto de Theodore  Roosevelt, participou de uma nova expedição ao mesmo local organizado por Elizabeth Mc Knight  e Charles Haskell, com total de 18 pessoas, cinco barcos infláveis de alta resistência e um  caiaque. Por determinação dos organizadores, todo o material coletado na viagem seria estudado no Brasil.

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA 

 

Estradas aceleram desflorestamento                

 

A floresta amazônica permaneceu praticamente intacta até a década de 60. As atividades produtivas - basicamente extrativistas - não chegavam  a afetar a mata. O transporte dos produtos era feito por via fluvial, o que também contribuía para a preservação da floresta. Naquele ano, a região só tinha 6.000km de estradas, dos quais menos de 300 asfaltados. Esse isolamento relativo resguardou a vegetação nativa. Um levantamento do WWF (Fundo Mundial para a Natureza), divulgado em 97, revela que o desmatamento atingiu 41% das florestas Iatino-americanas, em contraste com asiáticas (88% de desmatamento) e européias (62%). O isolamento da Amazônia começou a ser quebrado em 1964, com abertura da rodovia Belém-Brasília. Com 1.900km, a BR-010 estimulou a expansão da pecuária (e atividades subsidiárias) nas regiões adjacentes. De 1960 a 1970, a população na zona de influência da estrada passou de 100 mil para 2 milhões de pessoas. Em 1970, o governo Emílio Médici instituiu o Programa de Integração Nacional, que forneceu recursos para a abertura de 15.000km de estradas, incluindo a Transamazônica (o primeiro trecho foi inaugurado em 72) e da Cuiabá-Santarém (completada em 76). O Incra tentou criar uma rede de agrovilas ao longo dessas estradas, mas a iniciativa não teve sucesso: as terras não eram férteis, e o desmatamento provocou um crescimento de malária. O fracasso dos assentamentos protegeu a floresta. Em 1968, a construção da Cuiabá-Porto Velho (BR-364) abriu uma nova frente de desmatamento em Mato Grosso e Rondônia. A descoberta de jazidas minerais (cassiterita e ouro) na região, conjugada com a distribuição de lotes para pequenos produtores, impulsionou a ocupação da região.

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA    

 

Estradas aceleram desflorestamento 

 

A floresta amazônica permaneceu praticamente intacta até a década de 60. As atividades produtivas - basicamente extrativistas - não chegavam a afetar a mata.

O transporte dos produtos era feito por via fluvial, o que também contribuía para a preservação da floresta. Naquele ano, a região só tinha 6.000 Km de estradas, dos quais menos de 300 asfaltos.

Esse isolamento relativo resguardou a vegetação nativa. Um levantamento do WWF (Fundo Mundial para a Natureza), divulgado em 97, revela que o desmatamento atingiu 41% das florestas latino-americanas, em contraste com as asiáticas (88% de desmatamento) e européias (62%).

O isolamento da Amazônia começou a ser quebrado em 1964, com a abertura da rodovia Belém-Brasília. Com 1.900 Km, a BR-010 estimulou a expansão da pecuária (e atividades subsidiárias) nas regiões adjacentes. De 1960 a 1970, a população na zona de influência de estrada passou de 100 mil para 2 milhões de pessoas.

Em 1970, o governo Emílio Médici instituiu o Programa de Integração Nacional, que forneceu recursos para a abertura de 15.000 Km de estradas, incluindo a Transamazônica  (o primeiro trecho foi inaugurado em 72) e da Cuibá-Santarem (completada em 76).

O Incra tentou criar uma rede de agrovilas ao longo dessas estradas, mas a iniciativa não teve sucesso: as terras não eram férteis, e o desmatamento provocou um crescimento da malária. O fracasso dos assentamentos protegeu a floresta.

Em 1968, a construção da Cuiabá Porto Velho (BR-364) abriu uma nova frente de desmatamento em Mato Grosso e Rondônia. A descoberta de jazidas minerais (cassiterita e ouro) na região, conjugada com a distribuição de lotes para pequenos produtores, impulsionou a ocupação da região.

Mega projetos

O fracasso da Transamazônia induziu o governo a substituir a colonização baseada na pequena propriedade pelos megaprojetos.

O Polamazônia (Programa de Pólos Agropecuários e Agrominerais da Amazônia), de 74, conjugava a construção de uma infra-estrutura com a concessão de subsídios para as empresas privadas.

O mais conhecido dos megaprojetos é o Grande Programa Carajás, que cobre uma superfície de 895.000 Km2 , mais de 10% da área total do país. Além de assegurar o fornecimento de energia elétrica (a hidrelétrica de Tucuruí começou a operar em 1984) e transporte ferroviário, o Estado também concedeu grandes incentivos fiscais.

O crédito governamental incentivou a destruição da floresta por projetos agropecuários. Os Estados mais antigos são Pará, Mato Grosso e Rondônia.

A devastação foi acompanhada pela proliferação de associações ambientalistas no país (em geral localizadas no Sul e Sudeste). A primeira associação surgiu em 1971, em Porto Alegre - um ano antes da conferência da ONU sobre meio ambiente, em Estocolmo. A maioria das associações é criada após 1974, quando começa o processo de “distensão”.

 

 HISTÓRIA DA AMAZÔNIA               

 

Amazônia no Centro da Cobiça

 

O interesse pela Floresta Amazônica é antigo. De estudiosos a aventureiros, ninguém fica impassível quando o assunto é "Amazônia". Dessa grande discussão em torno do ecossistema da Terra, no qual a região tem um papel fundamental, não escapam sequer as chamadas grandes potências. Os gigantes da economia voltam suas atenções para a região, cuja biodiversidade lhe garantiu o título de "pulmão do mundo". Vítima da especulação, de projetos faraônicos, da devastação provocada pela ignorância, a região é cortada por diversas rodovias federais. Rasgando o coração da selva está a Transamazônica(BR-230), com suas histórias de esperança, doenças e desalento, vista sob um ângulo nada otimista nas muitas cidades e lugarejos que nasceram às suas margens. Ao longo da Cuiabá- Santarém(BR-163) e da Belém- Brasília(BR-010)também foram importados núcleos populacionais, no rastro dos grandes projetos agropecuários e extrativistas. A ocupação desordenada, o desmatamento e as queimadas são algumas das mais graves conseqüências da falta de planejamento para a região. Alguns madeireiros, que se instalaram principalmente no Sul e Sudeste do Estado, têm uma grande parcela de responsabilidade no processo de destruição da floresta e no agravamento do níveis de poluição ambiental. No entanto, apesar dos graves problemas que provoca, a exploração de madeira é a mais representativa fonte de renda do extrativismo vegetal no Estado.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA                     

 

Há sinais de 53 grupos indígenas ainda isolados, sem contato com a civilização tecnológica, todos na região amazônica. Sujeitos a contatos casuais, os índios continuam despreparados para enfrentar as doenças dos brancos e vivem no nomadismo.

Krenakore, o nome dos índios gigantes da Amazônia, significa "cabeça redondo", uma referência as seu corte de cabelo em forma de meio coco. É uma designação de cunho pejorativo, dada pelos rivais Kayapós. Os krenakores preferem chamar- se de panarás, a palavra para o pronome "nós".

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

O homem e o ambiente: uma relação complexa

 

A Amazônia e as populações nativas que durante séculos conviveram nela encontram-se hoje ameaçadas. Possuidora da maior diversidade biológica do planeta e habitada por diversos grupos étnicos autóctones, a região experimenta níveis de desmatamento que ameaçam a sobrevivência dos povos autóctones e o patrimônio biológico condão na floresta. As mudanças que tal desmatamento poderiam trazer no ciclo hidrológico e no clima poderão influir também em áreas do sul e do centro do Brasil que produzem alimentos para as grandes populações do pais. A perda da diversidade biológica constitui o efetivo empobrecimento de brasileiros ainda por nascer.

Não é fácil definir a Amazônia. Por vezes é definida simplesmente como o vale amazônico ou bacia do rio Amazonas e seus afluentes (com cerca de 4 milhões de quilômetros quadrados). Mas existem também definições político-econômicas, como a de Amazônia Legal. De acordo com essa definição, áreas do Planalto Central fora da rede hidrográfica foram incorporadas, tanto que a Amazônia, por qualquer definição, não é somente ambiente físico como também um ambiente humano, com uma história social, política e econômica. Definições de caráter político-econômico enfatizam que a problemática da Amazônia não é simplesmente ecológica, mas política e social.

A Amazônia Legal abrange uma região de um milhão de quilômetros quadrados maior que a bacia amazônica propriamente dita (Benchimol 1989:15), uma área aproximadamente metade do território brasileiro. Em ternos comparativos, a área da Amazônia é equivalente à área continental dos Estados Unidos da América ou da Europa Ocidental e Oriental juntas (sem a União Soviética). A Amazônia apresenta não somente áreas de floresta pluvial, como também florestas semidecíduas, florestas inundáveis, cerrados, campinas, campos e caatingas. Os cursos d'água são constituídos por rios, furos e igarapés possuindo águas de qualidade variável, algumas límpidas e outras barrentas. A sociedade contemporânea atua na Amazônia como se a mesma fosse homogênea, esquecendo a necessidade de ajustar o comportamento humano de acordo com os limites e oportunidades que o ambiente físico oferece. Com isso, esquece-se da presença de sociedades nativas da região que têm direitos e profundo conhecimento de tais áreas.

A heterogeneidade das populações que têm habitado a Amazônia reflete a diversidade do ambiente. Essas sociedades são produto do contato interétnico, de processos históricos particulares, da ação das missões religiosas e da natureza da intervenção do Estado. Além disso, elas refletem as diferenças do ambiente físico do qual obtém sustento físico e espiritual, de diferenças em estruturas demográficas, do impacto das epidemias e da área disponível hoje para manter um certo grau de autonomia (Oliveira 1988:66).

Os exploradores europeus do século XV1 encontraram na Amazônia numerosas populações ao longo dos rios. Cronistas da época descreveram a existência de cacicados capazes de mobilizar milhares de guerreiros, com

abundância de alimentos para oferecer aos visitantes e habitações estendendo-se por centenas de quilômetros ao longo das margens dos rios (Carmjal 1934, Cruz 1885, Herrera 1856, Simon 1861, Porro 1989, Myers 1989, Whitehead 1989). Essas populações das várzeas foram rapidamente exterminadas pelas doenças trazidas pelos europeus, sendo epidemias, portanto, uma das armas mais efetivas do processo de conquista. Historiadores e arqueólogos estimam uma dizimação das populações indígenas da várzea entre 50 e 95°% no primeiro século de contato. O impacto das epidemias sobre as populações amazônicas repete-se hoje em áreas até pouco tempo relativamente isoladas e continuam funcionando como mecanismos de conquista de territórios indígenas.

Nos séculos XVI e XVII, o principal impacto foi o dos missionários, das epidemias e das guerras de conquista ao longo dos principais rios (Fritz 1922; Chaumeil 1981; Chantre e Herrera 1901, Figueroa 1904, Uriane 1952, Hemming1978). No inicio do século XVIII a situação demográfica já tinha até certo ponto se estabilizado, os missionários dariam ganhado controle sobre a mão-de-obra indígena, e as autoridades civis reclamavam que a colonização portuguesa faliria, a menos que tivessem mais fácil acesso à mão-de-obra indígena.

A época pombalina, do século XVIII, secularizou um processo até então dominado pela Igreja. O Diretório, criado para tomar o lugar das missões e tomar a produção indígena disponível aos colonos, faliu como experimento econômico e social (Anderson 1976). As conseqüências do Diretório foram o surgimento das primeiras cidades e povoados da Amazônia, um crescente aportuguesamento das sociedades indígenas e deu inicio à formação de um tipo de cultura regional, a dos caboclos amazônicos (Vagley1953; Moran 1974). Moreira Neto (1988) mostra que as populações amazônicas da terra firme conseguiram se manter como grupo majoritário até meados do século XVIII. Depois disso, o genocídio sistemático levou a uma dizimação populacional na terra firme, equivalente àquela que ocorreu na várzea no primeiro século de cantata.

Quando chegou a era da borracha, no século XIX, populações indígenas já eram minoria na Amazônia. O afã de explorar a borracha levou à expulsão violenta de populações amazônicas de seus territórios. Em vez de ser mão-de-obra essencial, como nos períodos anteriores, o índio começa agora a ser visto como obstáculo ao desenvolvimento econômico (Weinstein 1983; Oliveira 1988:68). De acordo com o cálculo de Darcy Ribeiro (1970), oitenta e sete etnias desapareceram no período entre 1900 e 1957. Hoje apenas 220 etnias sobrevivem no Brasil, com uma população de 230.000 pessoas, 60% delas amazônicas (Gomes 1988:24). Felizmente, algumas das populações amazônicas voltaram a crescer, especialmente aquelas que já passaram pelo choque biológico inicial e que receberam apoio médico. O futuro das populações nativas da Amazônia se mostra mais positivo que alguns anos atrás, apesar dos problemas de terra, de saúde e de convivência com a sociedade nacional enfrentados (Gomes 1988). Fatos como a atual invasão das terras ianomâmis por garimpeiros continuam criando situações desfavoráveis à sobrevivência dessas populações.

Entre a época da borracha e os governos militares dos últimos vinte e cinco anos, a situação continuou deteriorando. Escândalos dentro do Serviço de Proteção aos Índios (Wagley 1977), seguidos pela ação inefetiva da FUNAI, têm permitido que o processo de dizimação continue. Apesar disso, a recuperação demográfica de vários grupos sugere que sua extinção cultural e biológica pode ser evitada. Paralelamente a uma visão humanística de preservação dessas culturas, precisamos dos conhecimentos dessas populações para efetivar o processo de recuperação ambiental e para manejar com maior sabedoria a fica diversidade da Amazônia (Ribeiro 1986). As populações indígenas e caboclas da Amazônia têm-se adaptado ao meio ambiente físico amazônico e às forças externas da sociedade colonial e nacional. Os graus de adaptação ao meio ambiente amazônico que cada uma tem atingido num momento dado varia, em função das forças históricas, sociais e politico-econômicas que as têm influenciado. O manejo de algumas sociedades estará menos acoplado ao ambiente físico do que ao ambiente econômico da sociedade brasileira, enquanto que outras terão práticas sofisticadas de manejo ambiental desenvolvidas gradativamente. A ecologia humana visa contribuir ao descobrimento de tais práticas. As práticas e estratégias adaptativas das populações amazônicas constituem riquezas que a ecologia humana e a sociedade devem valorizar, porque podem oferecer soluções à problemática de como compatibilizar o desenvolvimento com a conservação da Amazônia.

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA                             

 

A presença humana na Amazônia

 

A antiguidade da presença humana na Amazônia passou a ser aceita recentemente e nossas teorias sobre a evolução cultural na bacia estão mudando em função das mais recentes datas obtidas pela arqueologia. Por muito tempo as teorias sobre a ocupação da Amazônia sugeriram que o Homo sapiens ali entrou já com conhecimento prévio da agricultura, do mesmo modo que se insistia não existirem condições ecológicas para a subsistência através da caça e coleta (Meggers e Evans 1957). A atenção excessiva à cerâmica e a escassez de materiais bem preservados dificultaram a descoberta e documentação de ocupações de populações caçadoras/coletoras do Paleo-índio.

Simões (1983), entre outros, discutiu o resultado das pesquisas de salvamento arqueológico da região de Carajás que  apresentaram datas bem recuadas para ocupações pré-cerâmicas na região. Parte da confusão deriva do fato de que as sociedades caçadoras/coletoras documentadas nesse século, como os acuriyós (Kloos, 1977), os hetas (Kozak et al. 1979), os makus (Silverwood-cope 1972; Milton 1984) e os guajás (Balee 1988), são vistos como sociedades "desculturadas"que abandonaram a agricultura e o sedentarismo em resposta à expansão colonial dos últimos «és séculos (Sponsel 1986:75; Gomes 1988).

Sponsel (1986:73) sugere uma data mínima de 6.000 anos para a chegada dos primeiros habitantes à Amazônia. Roosevelt considera que as evidências arqueológicas recentes indicam presença humana na Amazônia há pelo menos 12.000 antes do presente (A.P.) (1989:3), o que colocaria essas populações entre as mais antigas do Novo Mundo 0toosevelt 1987, 1989). Sítios arqueológicos no sul e leste amazônico revelam datas entre 10.000 e 14.000 anos A.P. indicando a presença de populações pré-cerâmicas nas extensas savanas e florestas ciliares dessa época (E. Miller 1987).

Os maiores e mais antigos sítios com presença de cerâmica datam do final do oitavo ao começo do sexto milênio A.P. - o que faz as populações amazônicas as mais antigas praticantes da agricultura e da fabricação da cerâmica no Novo Mundo (Roosevelt 1989). Para o quinto milênio A.P., há evidências de populações com um repertório agrícola comparável ao das populações indígenas anuais da Amazônia, incluindo agricultura baseada no cultivo da mandioca e simbolismo e arte dominados por imagens geométricas e zoomórficas (Roosevelt 1987).

No segundo milênio A.P., surge nas várzeas da Amazônia um número de sociedades pré-históricas que apresentam evidência de sistemas políticos complexos, possivelmente cacicados, com cerâmica policromática, uso de urnas funerárias e maior

enfoque em figuras antropomórficas, na sua arte e simbolismo (Roosevelt 1987). O tamanho dos sítios arqueológicos sugerem aldeias comum maior número de habitantes, maior dependência no cultivo de cereais como o milho; uso de tecnologias de pesca complexas como armadilhas fixas e controle territorial sobre áreas preferenciais. Porro (1989) confirma a presença de numerosos cacicados na várzea amazônica no caso dos omàguas, aisuaris e iurimàguas. As fontes etno-históricas indicam que a província de Aparia (também conhecida como Carad ou Manicud), ou "a teria dos omàguas" (Myers 1989:6) incluía no século XVI entre 23 e 34 aldeias numa extensão ribeirinha de 700km, desde o babo do Napo até a boca dos rios Javari e Icá. Algumas dessas aldeias tinham até 8.000 habitantes (Porro 1989:7). Os omáguas mantiveram grandes territórios até o século XVII, desde a boca do Atacuari (na anual fronteira entre Peru e Colômbia) até a foz do Mamória entre os dos Jutaí e Juruá, numa extensão ribeirinha de 300km (Porro 1989; Myers 1989). A partir do século XVII, a presença de caciques principais (paramount chiefs) desaparece e a extensão territorial e o número de aldeias diminuem, possivelmente em função da despopulação que ocorreu no primeiro século de cantata. Portanto, o material etnográfico sobre os omáguas do século XVII é mais representativo das conseqüências do cantata interétnico, do que um padrão adaptativo da população omágua ao meio ambiente físico da várzea amazônica.

A presença de cacicados estendeu-se também pela terra firme, conforme recente documentação que rejeita a opinião daqueles que insistiram que culturas complexas poderiam encontrar-se somente na vh2ea amazônica (Whitehead 1989:9). Os cacicados da terra firme parecem ter dependido, em particular, do controle do comércio regional. Isto parece se aplicar aos cacicados dos mamoas e dos caripunas. Afigura 5,10 ilustra as

áreas de influência dos vários cacicados na Amazônia na época do primeiro cantata com os europeus. Os caripunas, ou aruacas, parecem ter dominado o comércio de armas e madeiras talhadas. Os sistemas de intercambio regional dependiam de urna população numerosa e espalhada pelo território - o que provocou sua rápida queda com a de população trazida pelo cantata epidemiológico com os europeus. Assim os cacicados da terra firme desapareceram mais rapidamente do que aqueles da várzea (Whitehead 1989:17-18).

As indicações de que as províncias ou cacicados amazônicos tinham uma complexidade política e social maior do que as populações etnográficas encontradas hoje na Amazônia incluem a presença de escravos, o enterro dos mortos com atenção diferenciada baseada em status, o uso de linguagem elitista e a presença de estratificação hereditária (Whitehead 1989, 1988).

Os milhões de habitantes da Amazônia na época do contato com os europeus sofreram um grande choque cultural e epidemiológico em 1500. Com a chegada dos europeus no início do século XVI, as populações da Amazônia passaram de grandes maiorias a ser minorias em perigo de extinção (Moreira-Neto 1988). Para a bacia Amazônica, Denevan estima uma população de 5.000.000 (1976:229-230), à época do parteiro contato, 6,8 milhões se incluirmos as áreas periféricas. A população omágua, um dos grandes cacicados da época do primeiro cantata na várzea amazônica, foi reduzida em 70% nos primeiros 100 anos de contato (Porro 1989:8). Tal redução populacional é comparável àquela sofrida por muitos grupos amazônicos da terra firme recentemente contatados, como os suruis, que sofreram uma queda populacional de 75% na primeira década de cantata interétnico (Meireles 1974).

A persistência da caça e coleta, juntamente com a agricultura, entre as populações horticultores da Amazônia sugere que elas conhecem ambos os modos de subsistência e os combinam de maneira apropriada às suas condições políticas, demográficas e ambientais. Da caça e coleta provem a diversidade da dieta composta de 80 a 90% da mandioca cultivada. Como veremos, porém, nos capítulos a seguir, esta dependência não é universal. Em algumas áreas, com solos melhores, várias sociedades têm o milho e o feijão como cultígenos mais importantes do que a mandioca.

Geralmente, grupos indígenas amazônicos combinam o cultivo de plantas domesticadas com a caça-e-coleta. Em casos raros ocorreu especialização de técnicas de subsistência, como é o caso dos makus, que trocam proteína animal proveniente da caça por produtos cultivados pelos seus vizinhos tukanos (Milton 1984a). O mutualismo representado por tal processo poderia ter ocorrido com mais freqüência antes de 1500, quando as distâncias entre as sociedades eram menores devido às maiores populações e existiam maior especialização na forma de sistemas hierarquizados, controle territorial e direito ao uso de recursos do meio ambiente.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

Os primeiros exploradores e as tentativas de colonização

A atração da Amazônia

 

O que primeiro atraiu exploradores para a Amazônia as lendas sobre riquezas minerais; depois a simples busca de conhecimento, ou  interesse científico; o nobre ideal de defendê-la contra os que estão destruindo. É bem conhecida a atração inescrupulosa pelo ouro que caracterizava os conquistadores portugueses e espanhóis e que os levou - principalmente aos últimos - a cometer atrocidade com os nativos sul-americanos, destruindo algumas das mais importantes civilizações jamais existentes em todo o mundo, como a dos astecas, no México e a dos incas, no Peru.

Eles iniciaram, assim, um processo predatório que, em nosso país, veio a tornar-se uma tradição responsável, em pelo pouco caso com que é tratada a natureza pelos que se dedicam, ainda hoje às atividades extrativistas.

Nota-se nos povos latino-americanos, em particular, uma quase total ausência de consciência ambiental, isto é, de uma percepção de que o homem deve agir respeitosamente para com as coisas naturais.

A natureza, no seu conjunto, representante o maior patrimônio da humanidade não só pela sua utilidade prática, mas pela beleza, pelo extraordinário equilíbrio e pelo que representa em termos de processo e "artifícios" de sobrevivência

Tais recursos são originados ao longo de muito milhões de anos em conseqüência de um número infinito de "ensaios"

e de muitas tentativas frustradas. Alguns desses recursos a ciência, a muito custo e a duras penas, vem conseguindo reproduzir apenas parcialmente. Esse desprezo predatório em relação  aos nossos recursos naturais em  parte é devido à exuberância de nossos ecossistemas, dando a impressão de que são inesgotáveis. Entretanto o índio, de quem deveríamos preservar a herança cultural, como a mais legitima, é profundamente reverente para com a natureza. O instinto predatório, isto é, a motivação para destruir mais do que nos é necessário consumir, herdamo-lo, em parte, dos colonizadores e, em parte, adotamo-lo, atualmente, sob pressão do jugo econômico internacional, mais predatório do que poderia ser qualquer iniciativa nacional ou local.

 

A lenda do El Dorado

 

A grande mola propulsora à conquista de territórios, ao desbravamento do oceanos e à aventura em perigosas florestas tropicais foi, sem dúvida, a procura do ouro, de pedras preciosas e de algumas essências raras, tais como o pau - brasil, a canela e especiarias. Os irmãos espanhóis Pizarro, após destruírem o grande Império Inca apossando -se de todo o ouro ali acumulado, estenderam sua cobiça para além da cordilheira dos Andes, em direção ao Leste, impressionados pelas lendas a respeito do El Dorado, país de fabulosas riquezas, localizado junto a um imenso lago. Tal país era habitado pelas amazonas, tribo guerreira, constituída somente de mulheres, exímias cavaleiras, ferozes atiradoras de flechas, verdadeiras dianas caçadoras que assaltavam e dominavam todas as outras tribos com que se defrontavam, na busca de homens para seus esposos temporários (de cuja prole matavam todos os filhos de sexo masculino), ou na defesa de suas riquezas. Já no último ano do século XV, o famoso aventureiro espanhol Vicente Yáñez Pinzón andara por estas terras, percorrendo as costas do norte brasileiro e chegando a um grande mar de águas doces (a embocadura do Amazonas) ao qual denominou Santa Maria de la Mar Dulce. Desde então, essa embocadura fora visitada por alguns outros navegadores, tornando-se uma espécie de "pista" para o oculto acesso ao El Dorado, já com a denominação do Rio Grande la Mar Dulce ou ainda rio Marañon, e algumas expedições foram formadas, tentando atingir, por essa rota, a região fabulosa. Em 1541 Gonçalo Pizarro, governador de Quito, Equador, associou - se ao capitão Francisco de Orellana para, partindo da cordilheira, seguir a pé acompanhado o trajeto dos rios formadores do Amazonas, em direção ao Leste, em busca do ouro e da canela. Após uma marcha infrutífera de 70 dias, e diante da grande dificuldade em obter alimentos, Pizarro e Orellana decidiram separar - se. O primeiro retornou a Quito, enquanto Orellana resolveu prosseguir pelo grande rio de los Omáguas, hoje rio Napo, em uma embarcação construída por seus homens. Era acompanhado de 55 soldados e dois frades, um dos quais, Frei Gaspar de Carvajal, relatou mais tarde toda a viagem, em uma crônica que se tornou de grande importância histórica, embora entremeada de muitas alusões fantasiosas, a respeito dos ataques à expedição pelas terríveis amazonas, brancas e altas, cada uma lutando como 10 guerreiros índios, algumas das quais teriam sido mortas pelos soldados da expedição. Por causa delas, o grande rio em que navegavam recebeu a denominação de rio das Amazonas. Os radicais gregos que dão origem à palavra amazonas significa sem seio, originando-se de um crença muita antiga em mulheres guerreiras que extirpavam o seio direito para melhor manejarem o arco. Segundo alguns, essa lenda teria sido originado do fato de os índios Tapajós levarem, em suas batalhas, mulheres guerreias, de combatividade, nas linhas de frente. Na verdade a lenda das Amazonas é européia, originada no mar do Norte.

Ao cabo de 8 meses de viagens pelo rio, durante os quais ocorreram incidentes de toda ordem, a expedição de Orelha  chegou ao mar, completo assim, pela primeira vez, o trajeto integral desde a cordilheira até o Atlântico e dando a conhecer ao mundo uma informação um tanto mística e pouco detalhada sobre a natureza da região, o trajeto e acidentes do grande rio. A falta de conhecimento sobre essa natureza sobre a maneira de se beneficiar de seus recursos, bem como a ausência de aldeias indígenas em longos de seu trajeto, fizeram com que os homens de expedição sofressem as agruras da fome, tendo que recorrer ao expediente- segundo relata Frei Carvajal- de comer cintos e sapatos de couro depois de longamente fervidos com ervas! Apesar, porém, da boa acolhido que lhes proporcionaram os índios, oferecendo-lhes peixes e caças, conta a crônica que Orellana mandou incendiar muitas de suas casa, alvejando e enforcando aqueles que não fugiram. Com tudo isso, porém, Orellana não logrou encontrar o El Dourado e suas riquezas fabulosas, tendo de contentar - se com as árvores de canela que encontra logo no início da expedição, embora de forma esparsa em meio às inúmeras outras espécies de plantas, como é característico do ambiente amazônico. As descrição de Frei sobre a natureza da região são pobres em detalhes, referindo-se muito mais ao mais ao comportamento e às dificuldades sofridas pelos expedicionário do que às características e peculiaridades do ambiente natural. Mesmo assim, o relato é enriquecer por algumas descrição originais- embora lacônicas- como a que se refere à descoberta do gigantesco rio Negro e do encontro das águas, em que águas brancas e negras correm por mais de "20"léguas", seguindo juntas, sem se misturar.

Outra expedição que, partindo do Peru, pretendia as lendárias riquezas, noticiadas , desta vez, por índios tupis que haviam subido o rio em companhia de exploradores portugueses, foi a de  Pedro de Ursúa, de 1560 a 1561, acompanhado de Fernando de Gusmán e Lope de Aguirre. Traídos por este último, em um motim a bordo, Ursúa e Gusmán foram assassinados durante a viagem. Segundo alguns relatos, a expedição teria atingido o Atlântico, para depois subir o rio Negro chegando ao rio Orenosco através do canal natural de Cassiquiare; segundo outros, o Orenoco foi alcançado pelo litoral, a partir do estuário do Amazonas. O fato é que Lope de Aguirre chegou à costa da Venezuela, onde foi morto ao tentar conquistar algumas ilhas da região. Franceses e ingleses estiveram, também, na Amazônia, à procura do El Dorado. O mais famoso deste últimos foi o aristocrata e cientista, sir Walter Raleigh, favorito da rainha Elizabeth (mas depois por James I), que foi o excêntrico introdutor de alguns costumes ameríndios nas altas sociedades européias, como por exemplo o uso do cachimbo e do tabaco. Irlandeses e holandeses tentaram, também, conquistar e explorar a Amazônia iniciando mesmo algumas atividades comerciais e instalando postos militares entre os rios Oiapoque e Tapajós, sempre às margens do Amazonas e seus afluentes, inclusive o Xingu e o Tocantins, mas também, na costa. Essas primeiras tentativas comerciais exploravam, sobretudo, madeiras, sementes oleaginosas e corantes como o urucu, plantações de tabaco e cana- de- açúcar, chegando a fabricar açúcar, e aguardente, a exportar carnes salgados de peixes-boi e iniciado a introdução de escravos africanos .Vê-se assim que, aos poucos, a da conquista do El Dourado foi sendo substituída pelo objetivo mais realista de exploração de essência nativas, como a salsaparrilha, a canela, o urucu, o anil a baunilha, inúmeras espécies de madeiras e, por fim o próprio solo para a agricultura.

 

Novas expedições exploratórias

 

Cem anos após a viagem de Orelha, uma outra famosa expedição foi organizada, desta vez pelo general português Pedro Teixeira, que vivia no Grão Pará, em 1637. Esta foi a primeira expedição a subir no rio, de Belém até Quito, para depois retornar pelo mesmo caminho. Por essa época, o rio Amazonas desde sua embocadura até a altura de Santarém, na confluência com o rio Tapajós, já era bem conhecido, contando inclusive com algumas fortalezas construídas por holandeses e por ingleses. O próprio Pedro Teixeira já havia percorrido anteriormente a região, inclusive o rio Tapajós, a fim de dar combate aos intrusos bem como para capturar escravos entre os índios. Conhecer que era da região e de suas dificuldades, organizou, pois, uma excursão bem equipada, com 37 grandes canoas e 2.000 pessoas. Na viagem de regresso, do Peru a Belém, a expedição contou com a presença do padre Cristobal de Acuña, designado pelo vice-Rei do Peru para acompanhar Pedro Teixeira, e que foi o escrivão da viagem, fazendo uma descrição minuciosa de todo o trajeto do relato o com medições surpreendente exatas, que fazem do relato o "primeiro estudo científico - natural da Amazônia", segundo o autorizado parecer de Harald Sioli, um dos cientistas internacionais que melhor conhecem a região, na atualidade. As descrições de Acuña não se limitem ao próprio curso do Amazonas, mas se estendem a seus afluentes, mencionando inclusive o famoso canal de cassiquiare, mais tarde descrito pelo naturalista Humboldt, que fez a ligação entre o alto rio Negro e as raízes do rio Orenosco, na Venezuela, unindo, de maneira curiosa, duas grandes bacias hidrográficas! Além disso, o espírito observador de padre Cristobal ressalta alguns aspectos peculiares e extremamente importantes da ecologia amazônica, como o da fertilização anual dos terrenos baixos da várzea, pela inundação periódica. Descreve, com incrível veracidade, a pesca pelos índios, as espécies curiosas como o peixe- boi, o peixe-elétrico, as tartarugas. Finalmente, um resultado importante dessa expedição foi a elaboração do primeiro mapa da Amazônia, provavelmente desenhado pelo capitão Bento da Costa, piloto da frota fluvial de Pedro Teixeira. Sioli chama a atenção para o fato, muito importante, de todos os expedicionários de até então terem olhado a Amazônia com o olhar e a atitude típicos da civilização européia herdada à civilização grega, isto é, não como participantes ou integrantes da natureza, mas como se esta existisse apenas para o uso, desejo e necessidades do homem, isto é, para ser explorada. Mais grave que isso - acrescenta o famoso naturalista alemão - é que essa mentalidade continua a prevalecer hoje, com denominação de desenvolvimento, procurado levar a terras e a povos longínquos supostos benefícios que, na verdade, só prejudicam a natureza e destroem culturas humanas sui generis. Mesmo nas descrições tão ricas e minuciosas de Acuña, transparece, nitidamente, o interesse primordial da exploração do ouro e riquezas biológicas e o espírito da conquista que até hoje move as pessoas e os governos em direção à Amazônia. A par dessas incursões pelo rio, várias missões jesuíticas se aventuraram a internar-se nas selvas, em busca de contato com os índios, procurando convertê - los ao cristianismo nem sempre de forma muito reverente para com sua própria cultura original. Alguns desses abnegados - todos certamente imbuídos de imenso espírito de sacrifício e do nobre ideal de salvar almas - realizaram, simultaneamente com a missão espiritual, trabalho de grande importância para o conhecimento dos povos, costumes e idiomas indígenas, bem como de aspectos geográficos e ecológicos. O mais importante desses depoimentos foi o do padre Samuel Fritz, que viveu 42 anos nas regiões do rio Marañon (Amazônia espanhola)  e que escreveu suas observações no período de 1689 a 1691. O baiano Alexandre Rodrigues Ferreira, um século depois de Fritz, escreveu também uma importante obra geográfica e antropológica, baseado em suas próprias observações.

 

Expedições científicas

 

Mas a exploração científica, em um sentido mais moderno da expressão, ocorreu primeiramente com Alexander Von Humboldt.. Humboldt é considerado um dos maiores sábios do século XVIII e um dos maiores naturalistas de todos os tempos. Incansável viajante, em busca de conhecimentos novos no terreno quer da botânica quer da geografia, da astronomia ou da antropologia, esteve na América Tropical no período de 1799 a 1804 quando, em companhia de Aimé Bonpland, explorou várias partes da Amazônia, especialmente na Venezuela, percorrendo e descrevendo minuciosamente o famoso canal de Cassiquiare, de ligação com a bacia do Orenoco. Humboldt encontrou dificuldades e séries restrições de ordem política, em sua exploração das terras brasileiras, razão pela qual deteve - se muito mais na Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e Cuba. A grande colônia portuguesa, na época, mantinha um regime de economia fechada, situação que só foi alterada com a abertura dos portos, em 1808, pro D. João VI. Além disso, a própria Coroa portuguesa se achava, agora, interessada em explorar as riquezas amazônicas, como o demonstram as várias expedições que percorreram o território. Assim, o Conde de Linhares, ministro das colônias do Reino, suspeitando que o grande naturalista estivesse viajando como espião da Coroa espanhola, emitiu ordens severas no sentido de não permitir a entrada de sua expedição em terras brasileiras. Assim mesmo, os resultados das investigações de Humboldt tiveram, para a ciência mundial, significado extraordinário. Além de Ter demonstrado, de forma insofismável, a ligação entre as duas grandes bacias, o cientistas realizou várias outras importantes determinações geográficas e coletou uma enorme quantidade de material que lhe serviu de base para estudos fundamentais de botânica que realizou durante o resto da sua longa vida.

Talvez a maior contribuição desses estudos tenha sido a criação, firmemente estabelecida, da geobotânica, ou fitogeografia, ciência que procura relacionar as características e as variações de espécies de vegetais com as condições geográficas de onde elas procedem. Foi ele, também, o descobridor do modo como os índios preparavam o curare, com o que eivavam suas mortíferas flechas, a partir de uma planta amazônica, e que hoje tem largo emprego medicinal. Finalmente, foi ainda Humboldt quem criou a denominação Hiléia, para a vegetação típica dessa imensa região.

Após Humboldt, a Amazônia foi visitada por uma sucessão de cientistas que ficaram famosos pelas descobertas aqui realizadas ou pelas idéias que a hiléia inspirou e que, mais tarde, foram desenvolvidas em seus países de origem. A Amazônia tem, assim, constituído não só um grande convite à ousadia do explorador, mas também um desafio à argúcia imaginativa do cientista e uma fonte inesgotável de idéias e de comparações extremamente férteis. Paraíso para os se dedicam tão somente às coleções e descrições de espécies, ela é, por outro lado, uma imenso, complexo e interminável quebra-cabeças para aqueles que, não satisfeitos apenas em organizar seus álbuns e catálogos, consideram essa infinita variabilidade como um fenômeno a ser explorado e procuram, como Humboldt, descobrir “as leis que estabelecem as ligações ao longo de uma infinidade de fatos isolados”.

Um episódio corriqueiro, sem qualquer importância relacionada, a princípio, com a Amazônia, veio, entretanto, constituir fator grandemente significativo para o conhecimento científico da região.

O contrato de casamento da príncipe Dom Pedro de Portugal (que viria a ser o imperador Pedro I do Brasil) com a princesa Dona Leopoldina da Áustria constituiu motivo de grandes comemorações e demonstrações de aliança e “boa vontade” entre as nações. Entre essas manifestações, uma das mais significativas para o nosso país foi, sem dúvida, a organização de uma comitiva de naturalistas europeus entre os quais se destacava o nome de Von Martius, o famoso botânico que aqui permaneceu, na companhia do zoólogo Von Spix, no período de 1817 a 1820, principalmente na região amazônica. Além do livro deixado pelos dois cientistas, intitulado Viagem pelo Brasil, em 3 volumes, dos quais quase a metade é dedicada ao estudo das regiões do Norte, Martius (ao contrário de Spix, que faleceu jovem, apenas 6 anos depois de haver retornado à Europa) realizou imensa obra baseada no material coletado nessa famosa expedição. Entre outros trabalhos, destacam-se os 3 volumes sobre Novos Gêneros e Espécies de Plantas do Brasil, a História Natural das Palmeiras (também em 3 volumes), e, principalmente, o mapa fitogeográfico do Brasil, dividindo o país em 5 províncias naturais a que denominou: Naides, ou sistema amazônico; Hamadryades, a região das caatingas; Dryades, as florestas atlânticas; Oreades, o cerrado e Napaeae, aos pinheirais de araucárias e campo da região Sul. Martius , como grande sábio que era, não se restringiu às descrições botânicas, mas, estendeu-se, igualmente, sobre plantas medicinais, geobotânica, zoologia e, inclusive, sobre as línguas e os costumes indígenas. Sua principal obra, a Flora Brasiliensis constitui, ainda hoje, a obra de referência de toda a botânica sistemática brasileira, à qual dedicou 66 anos de sua vida, contando com a colaboração de 65 botânicos de diversos países. São 40 grandes volumes, contendo a descrição de 20.000 espécies de plantas brasileiras. No dizer do botânico de São Paulo, prof. Mario G. Ferri, “nenhum outro país pode orgulhar-se de possuir trabalho de tamanha envergadura sobre sua flora”.

 

Outras expedições científicas

 

Em 1848 vieram para a Amazônia dois outros ilustres cientistas: Alfred Russel Wallace e Henry Walter Bates, ambos ingleses. O primeiro viria a destacar-se mundialmente, dez anos mais tarde, como o “co-descobridor” do principio da seleção natural como o mecanismo explicativo para a evolução biológica, apresentando-o, juntamente com Charles Darwin, em memorável sessão da Linnean Society da Inglaterra, em julho de 1858. Quanto a Bates, em onze anos de explorações no interior da Amazônia, reuniu a maior coleção de animais – principalmente insetos – jamais conseguida por uma só pessoa naquela região, no dizer de H. Sioli. Tornaram-se clássicas e muito repetidas suas observações e ilustrações sobre muitos de nossos animais típicos – como as saúvas, por exemplo – e também sobre os costumes dos nossos povos indígenas. Os dois cientistas permaneceram juntos, em suas explorações, por cerca de dois anos, nas regiões do baixo Amazonas. Em 1850 separaram-se: Wallace subiu o rio Negro, enquanto que Bates seguiu o Solimões até as fronteiras com o Peru. Finalmente, Wallace regressou à Inglaterra em 1852. Em seu regresso à Europa, Wallace sofreu um naufrágio, motivado por incêndio a bordo, conseguindo salvar-se em barco a remo no qual permaneceu – junto com companheiros de viagem – por dez dias ao sabor do Atlântico, até ser resgatado por um cargueiro, sofrendo as agruras da fome e da sede e a perda de todo o material científico coletado, com exceção de algumas anotações e esboços.

Outro grande naturalista – o suíço Aganiz – teve sua atenção dirigida à Amazônia em conseqüência de um episódio fortuito.

A morte prematura de Von Spix obrigara Martius a procurar, no mundo científico, zoólogos competentes e dedicados que fossem capazes de enfrentar eficientemente a gigantesca tarefa de classificar o enorme volume de espécimes animais coletado na Amazônia. Para a identificação das espécies de peixes a escolha de Martius recaiu, curiosamente, no jovem zoólogo suíço, de apenas 19 anos de idade que, de bom grado, aceitou a enorme responsabilidade. Louis Agassiz, que mais tarde se transferiria para o Estados Unidos , veio a tornar-se um dos mais eminentes mestres de zoologia do século passado. Na mesma época em que classificava os peixes brasileiros de Spix, Agassiz dedicou-se à tarefa de identificar peixes fósseis de águas doces de toda a Europa, recolhidos pelo museu de Munique e por várias outras instituições científicas, tornando-se colaborador do famoso paleontólogo Cuvier – o criador da anatomia comparada, que possibilitou o estudo científico dos fosséis – que lhe legou, antes de morrer, suas preciosas coleções e anotações sobre peixes extintos. Em 1846 Louis Agassis, já famoso mundialmente, não só como zoólogo mas também como paleontólogo, sobretudo por suas importantes descobertas sobre os movimentos das geleiras e a existência de períodos glaciários que teriam coberto grande parte dos continentes hoje habitados, transferiu-se para os Estados Unidos, tornando-se professor da cadeira de Zoologia em Haward.

Em 1865 o imperador do Brasil, D. Pedro II, profundamente interessado no desenvolvimento científico do Império e impressionado, tanto pela reputação de Agassiz quanto pela sua obra sobre os Peixes do Brasil, dirigiu-lhe um convite para visitar este país e aprofundar os conhecimentos sobre sua fauna. Agassiz esteve aqui por mais de um ano, tendo consumido cerca de 8 meses na Amazônia, onde subiu o grande rio até as fronteiras com o Peru. Coletou e identificou, nessa oportunidade, mais de 300 espécies de peixes, triplicando o número até então conhecido. Afirmava que nenhum museu da Europa possuía tão grande número de espécies procedentes de um só rio!

Seria muito longa, realmente, a lista dos cientistas que aqui estiveram, desde então , atraídos pela infindável oportunidade de adquirir novos conhecimentos, quer no terreno biológico, quer geológico, quer antropológico. Cabe destacar, entretanto, a personalidade do ilustre naturalista alemão, Harald Sioli, que há mais de 40 anos dedica o melhor de si ao conhecimento da ecologia amazônica. Sioli, atualmente diretor emérito da mais importante instituição científica mundial devotada aos estudos de ecologia tropical – o Instituto Max Plank de Limnologia, em Plön – iniciou suas pesquisas na Amazônia no começo dos anos 40. Durante a Segunda Guerra, foi feito prisioneiro, por ser alemão, e mantido em campo de concentração em Tomé-Açu, no Pará, a 150 quilômetros de Belém, durante 3 anos! O fato, entretanto, não contribuiu para esmorecer o ardoroso interesse científico do grande pesquisador pela região amazônica, que continua sendo seu objeto de estudo até hoje.

Em 1957 Sioli retornou à Alemanha para assumir a direção do Instituto Max Plank, continuando, entretanto, a vir ao Brasil todos os anos, tendo se tornado uma espécie de “preceptor científico” do antigo Museu Goeldi, de Belém, e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – já o famoso INPA - , para cuja organização ele muito contribuiu. No dizer de sua discípula Roswitha Schmid, de Munique, em 1982: Sioli, a par de sua enorme contribuição aos conhecimentos da limnologia, ou seja, do estudo das águas amazônicas, “testemunhou as modificações, reviravoltas, destruição, isto é, o chamado desbravamento e desenvolvimento” desta singular porção de terra. Em defesa da sobrevivência da mesma, partiu para a luta fazendo conferências por toda parte, como também publicações e, pessoalmente, junto ao governo em Brasília. Ainda hoje, o septuagenário “velho factótum da Amazônia” não viaja de avião ou navio de luxo, ou mesmo num carro de luxo movido a álcool, com ar condicionado, pela Transamazônica; mas com caboclos, de ônibus ou caminhão. Sua “cama de luxo” é a rede...

 

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

Uma importante fonte de informações sobre a história da Amazônia está praticamente esquecida em Alges, cidade próxima a Lisboa, no Arquivo Histórico Ultramarino. São cerca de 50 mil documentos, referentes ao período que vai do início do século 17 às primeiras décadas dos Oitocentos.

Apesar do prejuízos para um patrimônio incalculavelmente valioso, porque composto de vida, a ocupação da Amazônia continua, de forma predatória e irresponsável, enquanto os cientistas permanecem imobilizados pela falta de recursos para o trabalho básico de pesquisa. “O modelo de ocupação do espaço natural, no mundo, não mudou muito. O que mudou foi a tecnologia disponível para ocupar”, comenta Dante Martins Teixeira. Os números preliminares do Censo 91 indicam que a população de Rondônia, um dos estados mais desmatamentos, foi multiplicada por 10 desde 1970. Os resultados da ocupação sem planejamento são claros: em janeiro de 78, Rondônia havia perdido 1,9% de sua cobertura florestal; em agosto de 90, o percentual chegava a 14,8%. No mesmo período (janeiro de 78/agosto de 90), a taxa de desmatamento na Amazônia Legal foi de 9,6%. Esses números não incluem as áreas inundadas por barragens de usinas hidrelétricas. É duvidoso que tal destruição tenha beneficiado as camadas mais pobres da população, mas é certo que bens naturais preciosos se perderam. Alguns, para sempre.

Mitos, mistificações, mentiras e projetos megalomaníacos marcam também a história recente da Amazônia. Em 23 de dezembro de 1941, o jornal O Globo anunciava: “Recuperação econômica do nosso El Dorado”. O subtítulo completava: “1942 marcará o início real do saneamento da Amazônia. “Hoje, a epidemia de cólera na Região Norte e a ocorrência de várias outras doenças, entre as quais se destaca a malária, mostram que não se saneou coisa nenhuma.

Mas a Amazônia sempre estimulou grandes vôos, vários dos quais terminaram em memoráveis desastres, com grandes perdas de vidas e de dinheiro. Um exemplo clássico é a ferrovia Madeira-Mamoré, com 366 quilômetros de comprimento. Concluída em 1912, custou entre US$ 15 milhões e US$ 30 milhões (comentava-se que seus dormentes eram de ouro) e a vida de 6 mil dos 20 mil operários que trabalharam na sua construção. Foi desativada em 1972.

A Amazônia seduziu também o magnata americano Henry Ford, que, na década de 20, imaginou abastecer o mundo com a borracha produzida na região. Entusiasmo não faltou. “Voltam-se as vistas para nossa borracha”, anunciou, em manchete, a primeira edição de O Globo de 25 de julho de 1925, comentando a visita que Ford faria (mas não fez) ao Pará. No entanto, Ford não deixou por menos: criou uma cidade, a Fordilândia, perto de Santarém. Dois fatores transformaram o projeto em um grande fracasso: a descoberta do processo de fabricação da borracha sintética, a partir do petróleo, e o mal das folhas, uma doença que arrasou a plantação de seringueiras de Ford. O homem que criou a indústria automobilística foi derrotado pela Amazônia e o projeto, que iniciou em 1928, foi vendido ao governo federal em 1946, por Cr$ 5 milhões (valor da época). Em 30 de junho de 1983, O Globo publicava reportagem com o título “Fordilândia : o projeto faraônico de 1928 é, até hoje, problema social.

Na região os equívocos dão prejuízos de proporções amazônicas. Mas a lição não foi aprendida, porque não se pode ou porque não se quis. Em 30 de agosto de 1970, o Jornal do Brasil publicou reportagem que, repetindo velhas promessas, tinha a seguinte abertura: A conquista da Amazônia começa terça-feira. Nesse dia, as máquinas da firma empreiteira José Mendes Júnior iniciarão o desmatamento do primeiro trecho da Rodovia Transamazônica, entre Estreito, no Maranhão, e Marabá, no Pará. “Uma das boas intenções do governo militar de então era estimular a fixação de nordestinos ao longo do eixo da Transamazônica, a estrada de integração hoje transformada num retalho de caminhos mais ou menos trafegáveis. Em 3 de outubro de 1991, O Globo informava que o governo federal estava decidido a gastar Cr$ 2 bilhões para recuperar 950 dos 1.470 quilômetros da rodovia, que, como anunciou, em 11 de janeiro de 1971 o então ministro dos Transportes, Mário Andreazza, deveria ligar João Pessoa à fronteira do Peru ainda em dezembro de 1972.

Nos tempos do milagre brasileiro, outro americano ganhou destaque na imprensa: Daniel Keith Ludwig, mais um empresário que daria com os burros nas águas profundas da Amazônia. Lembrando o alemão Fitzcarraldo, que, conta a lenda, fez um barco atravessar montanhas para montar uma ópera com Enrico Caruso em Iquitos (Peru), Ludwig trouxe do Japão uma fábrica de celulose flutuante. A fábrica faria parte do empreendimento que, segundo o Jornal do Brasil de 14 de março de 1973, reunia “a maior fazenda do mundo, o maior projeto de reflorestamento de que se tem notícia até hoje, a primeira experiência de humanização e homogeneização da floresta tropical e, em poucos anos, as maiores plantações de arroz e dendê e pastagens para gado”. O “império da Amazônia”, como foi chamado na mesma reportagem, acabou vendido para brasileiros e só em 1991 veio a dar lucros, com a produção de celulose e caulim, mineral abundante nas terras do Jarí, também usado na indústria de papel.

Estes são poucos, mas significativos exemplos, dos efeitos da intervenção inconseqüente na Amazônia. Explorar a região exige um conhecimento prévio, que evite as tragédias econômicas e as ecológicas, como a que hoje ocorre em Tucuruí, onde os mosquitos estão expulsando a população humana. A Amazônia, mais uma vez, mostra que é perigoso mexer naquilo que não se conhece.

 

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

Há surpresas na área de Arqueologia: a pesquisadora Anne Roosevelt gerou grande polêmica, ao afirmar que, nas proximidades de Santarém, viveu um povo de alto grau de civilização. Anne é bisneta do ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, que explorou a Amazônia em 1913, junto com o marechal Rondon. Roosevelt é hoje o nome do Rio da Dúvida, um dos formadores do Aripuaña, afluente do Madeira. A tese de Anne Roosevelt acrescenta mais ingrediente de mistério à lendária história da região das amazonas.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

História: Documentos antigos

 

48 mil documentos importantes sobre a antiga história da Amazônia (início do século XVII até início do século XVIII), estão no Arquivo Histórico Ultramarino, na cidade portuguesa de Alges, próximo a Lisboa.

 

História: Economia

 

A ferrovia Madeira-Mamoré, com 366 km de extensão, concluída em 1.912, custou do governo brasileiro entre U$ 15 milhões e U$ 30 milhões, empregando 20 mil pessoas, 6 mil perderam a vida durante a construção. Em 1.972, foi DESATIVADA.

Em 25 de julho de 1.925, o jornal O Globo, anunciou a vinda de Henry Ford ao Pará. Não veio, mas em 1.928 criou uma cidade, a Fordilândia, próximo a Santarém, hoje Belterra, cuja finalidade seria continuar a borracha para abastecer o mundo. Porém, a descoberta do processo de fabricação da borracha sintética utilizando sub produto do petróleo e uma doença que dizimou a plantação de seringueiras de Ford, inviabilizaram seu projeto.

Em 1.946 o Governo brasileiro adquiriu o projeto por Cr$ 5 milhões (valor da época). Hoje está desativado.

Daniel Keith Ludwig, empresário norte americano, tentou construir um império econômico sobre o arrojado Projeto Jarí, reflorestando uma grande área com pinos para celulose, chegando a importar uma fábrica de celulose do Japão montada sobre um navio que a transportou até o local, para industrializar o maior projeto de reflorestamento que se tinha notícia, dentro da maior fazenda do mundo (inicialmente pleiteou junto do governo do Estado do Pará perto de 2.500.000 ha), sendo chamado na época (1973) de o “Império da Amazônia”, acabou vendido para brasileiros e somente 1991 veio apresentar lucros, produzindo celulose e caulim, minério abundante na região, utilizado na indústria de papel.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA - Acre     

 

Até o início do século 20 o Acre pertencia à Bolívia. Porém, desde o princípio do século 19, grande parte de sua população era de brasileiros que exploravam seringais e que e que, na prática, acabaram criando um território independente. Em 1899, os bolivianos tentaram assegurar o controle da área, mas o brasileiros se revoltaram. Em 17 de novembro de 1903, com a assinatura do tratado de Petrópolis, o Brasil recebeu a posse definitiva da região em troca de terras do Mato Grosso, do pagamento de 2 milhões de libras esterlinas e do compromisso de construir a estrada de ferro Madeira-Marmoré. O Acre foi então integrado ao Brasil como território, dividido em três departamentos. Em 1920 unificando e, em 15 de junho de 1962, elevando à categoria de Estado.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA - Amapá     

 

A origem do Amapá foi concedida a Portugal pelo tratado de Tordesilha e entregue a Bento Manuel Parente com o nome de capitania da Costa do Cabo Norte em 1637, a região sofreu invasões de ingleses e holandeses, expulsos pelos  portugueses. No século 18 a França reivindicou a posse da área. O Tratado de Utrecht, de 1713, estabeleceu os limites entre os Brasil e a Guiana Francesa, que não foram respeitados pelos franceses. Para enfrentar as freqüentes invasões francesas, de 1764 a 1782, foi construída na vila de Macapá a maior fortaleza do Brasil-Colônia: a fortaleza  de São José de Macapá. A descoberta do ouro e a valorização da borracha no mercado internacional, durante o século 19, promoveram o povoamento do Amapá e acirraram as disputas territoriais, mas em 1° de maio de 1900, a comissão de Arbitragem de Genebra concedeu a posse do território ao Brasil, incorporado ao Pará com o nome de Araguai.  Em 1943 tornou-se território federal batizado como Amapá. A descoberta de ricas jazidas de manganês na Serra do Navio, em 1945, revolucionou a economia local. Em 5 de outubro de 1998 foi elevado à categoria de estado.

 

HISTÓRIA DA AMAZONIA – Amazonas  

 

Pelo tratado de Tordesilhas, a região Amazônica pertencia à Espanha. No entanto, desde o começo do século 16 foi invadida pelos portugueses. As disputas com a Espanha terminaram em 750, com o  Tratado de Madri, que deu a Portugal a posse definitiva da área. Em 1755 foi criada a capitania de São José do Rio Negro que, com a volta em 1832 exigiu sua autonomia, finalmente concedida em 1850. A exploração da borracha, no início do século 19, levou a riqueza para a região, mas a decadência econômica veio em seguida, com a concorrência dos produtores de borracha do Oriente. O Estado retomou seu crescimento a partir de 1950, graças aos incentivos fiscais. Em 1967 foi criada a Zona Franca de Manaus, que trouxe a industrialização.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA - Amazonas     

 

Amazonas

 

Pouca gente, muita água

 

No Amazônia, a presença do homem quase não se reflete na paisagem. Ela se manifesta principalmente nas pequenas clareira abertas nas margens dos rios e separadas umas das outras por centenas de quilômetros. Essas clareiras normalmente abrigam umas poucas fazendas, com algumas dezenas de habitantes. Mas é também na margem dos rios - e às vezes até mesmo sobre os rios, em casas flutuantes - que se erguem as cidades. São cidades minúsculas, com poucos milhares de habitantes, que mesmo assim abrigam, juntamente com Manaus, 60% da população de Estado. As principais cidades amazonenses, fora a capital, são Manacapuru, Itacoatiara, Parintins, Coari e Careiro. Até 1930, a economia amazonense baseou-se no extração da borracha, mas como essa indústria torna-se francamente deficitária, o Governo estadual projetou , no início da década de 80, a implantação de 50 000 hectares de seringais de cultivo, visando à produção de 15 000 t anuais, só nesses campos. Apesar  de sofrer concorrência da borracha sintética, a borracha natural ainda é exportada. Para obtê-la, os seringueiros  seguem, ainda hoje,  o mesmo processo utilizado no século XIX: andam pela selva, fazendo cortes na casca da seringueira e amarrando um pequeno canesco na árvore, para recolher a seiva (látex) que escorreu dos cortes. O látex é depois enrolado em torno de um bastão a fumaça de uma fogueira de lenha ("defumação"), obtendo-se "bolas" de borracha de até  40 kg de peso. Essa borracha é então vendida aos seringalistas (donos das terras onde estão os seringais), que a revendem aos exportadores. Outras atividades muito importante é a extração dos recursos florestais: madeiras, castanha-do-pará, piaçava, guaraná etc. O principal produto da agricultura, desenvolvida nas vázeas (sobretudo na desembocadura do rio Purus), é a juta (fibra têxtil), introduzida pelos japoneses em 1930. O Estado do Amazonas é o maior produtor brasileiro de juta (20 000 t em 1986). Destacam-se ainda na área  da agricultura a mandioca (957 027 t em 1986) o cacau (1 150 t) e a pimenta-do-reino (55 t). A pecuária (420 940 bovinos e 177 425 suínos em 1985) enfrenta um problema bastante sério: o gado pode ser criados nas várzeas, mas na cheia deve ser transportado para a terra seca, onde quase não há pastos. Assim, a melhor e mais abundante fonte de proteína - tanto para alimentar a população como para fins de exportação - é a pesca das espécies fartas e variadas que habitam os rios amazônicos: pirarucu, tucunaré etc.

 

HISTORIA DA AMAZÔNIA   

 

Historia do Amazonas 

 

Quando o Brasil foi descoberto, o Amazonas pertencia aos espanhóis,  por causa do Tratado de Tordesilhas (que praticamente cortava o país ao meio no sentido vertical, dando a posse das terras a oeste para a Espanha e a leste para Portugal). Mas desde o século XVII os portugueses começaram a adentrar  pela região. Em 1669 , Francisco da Mota Falcão ergueu, no local onde hoje se encontra Manaus, o forte de São José do Rio Negro. As disputas com a Espanha pela posse da região terminaram em 1750, com assinatura do Tratado de Madri, que fixou os limites do Brasil a oeste de Tordesilhas. Até a utilização da borracha (que foi descoberta no Amazonas em 1720 pelo missionário carmelita frei Manuel da Esperança e se tornou economicamente importante na metade do século XIX, quando o norte-americano Charles Goodyear inventou o processo de vulcanização, permitindo o uso da borracha em pneus de automóveis, correias de máquinas etc.), a economia do Amazonas se baseava na extração de madeiras, cacau e especiarias.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

História do Pará

 

Estado regido pelas águas, o Pará se caracteriza por sua intrincada rede de rios, dominada pelo Amazonas. Rico em reservas minerais, o Pará entrou na década de 80 com duas grandes metas: desenvolver o Projeto Grande Carajás (ferro, cobre, manganês, bauxita, níquel e ouro), de que faz parte a hidrelétrica de Tucuruí, e o Projeto Jari (gado, caulim, madeira e papel).

O Estado do Pará, verdadeiro mundo de águas e florestas, ocupa uma superfície de 1.253.165 km². Sua população está distribuída, na sua maior parte, em 87 municípios, dos quais os principais são : Belém (capital do Estado, situada no rio Pará, braço sul da foz do rio Amazonas), Santarém (às margens do Tapajós) e Conceição do Araguaia (às margens do Araguaia). Belém é a mais importante cidade da região Norte do País. É através de seu porto que se escoam as riquezas da Amazônia (madeira, frutas, minérios etc.). A cidade possui diversas indústrias (metalúrgicas, tecelagens, fábricas de sapatos e de móveis etc.). O principal mercado de Belém é o Ver-o-Peso, ao lado do porto. Lá se vendem os produtos típicos da Amazônia - frutos como o cupuaçu (marrom, com cerca de 20 cm de diâmetro, próprio para fazer sucos e compotas; seu sabor é parecido com o da jaca), taperebá (pequeno fruto amarelo, de sabor agridoce, usado para fazer doces e sucos), açaí (pequenos frutos roxo, extraído da palmeira de que se obtém o palmito; serve para fazer sucos e licor), pupunha (pequenos frutos avermelhado extraído de uma palmeira; é cozido com sal, fazendo parte do café da manhã dos caboclos), jambo (vermelho, de sabor agridoce), sapoti (marrom, com gosto de caqui), graviola, manga, castanha-do-pará etc. No Ver-o-Peso pode-se comprar também uma infinidade de ervas da medicina caseira. E saborear os pratos de uma das mais famosas cozinhas típicas do Brasil - a do Norte, baseada no peixe e na mandioca : pato no tucupi (molho de mandioca temperado com jambu, uma erva picante), tacacá (sopa de mandioca com jambu e camarão seco), maniçoba (creme de folhas de mandioca com carne, servido com arroz) etc. Outra das grandes atrações de Belém é o Museu Emílio Goeldi, que possui uma importante coleção de cerâmica précabralina ( de culturas indígenas, como as de Marajó, Trombetas e Santarém, que existiam na Amazônia antes da chegada de Cabral, no século XV. O museu tem também zoológico e um jardim botânico, com animais e plantas da Amazônia. Mas a principal atração da cidade é a procissão do Círio de Nazaré, que se realiza no segundo Domingo de outubro e reúne milhares de pessoas.

 

O barco é o meio de transporte 

 

Para ir a Belém fazer compras ou vender produtos (peixes, frutas da selva etc.) a população dos vilarejos do interior (geralmente mestiços de brancos com índios) utiliza canoas e barcos a motor ("gaiolinhas"). Para viagens mais longas, partem do porto de Belém imensas "gaiolas" (barcaças a motor com dois andares, providas de cabines - 1.° classe - e suportes para redes de dormir, no convés - 2.° classe). Essas embarcações é que fazem a ligação com Manaus, no Amazonas

(cinco dias de viagem). Belém está ligada a Brasília pela rodovia Belém - Brasília, e ao Nordeste pela BR - 316. A rodovia Transamazônica, partindo da cidade de Rio Branco, no Acre, corta o sul do Pará. Fora essas grandes rodovias, a principal via de locomoção da população do Pará são os rios - verdadeiras estradas de água. Afinal, o Estado é dominado pelas águas. Por ele passam o rio Amazonas e inúmeros de seus afluentes, como o Tapajós e o Xingu, na margem direita; e o Jari, o Paru, o Trombetas e o Nhamundá, na margem esquerda. Nos vilarejos do interior, situados às margens dos rios ou ilhas, as crianças usam canoas par irem à escola.

 

As riquezas do Pará 

 

Os principais produtos da economia paraense são os agrícolas: juta, mandioca, arroz etc. Além disso, a floresta equatorial oferece uma infinidade de madeira de lei e vários produtos naturais: castaha-do-pará, cravo, cacau, baunilha, salsaparrilha, noz-do-pará (pixurim) etc. Em 1985, o Pará produziu 3 888 t de borracha natural (extraída das seringueiras nativas), o equivalente a 11% da produção brasileira. A pecuária paraense está concentrada nos municípios de Santarém, Oriximiná, Alenquer e Monte Alegre, e sobretudo nos campos de Marajó, totalizando 3 485 368 cabeças de gado em 1985. O Pará também é rico em minérios. A serra dos Carajás, por exemplos, tem uma serva de minério de ferro calculada em 18 bilhões de toneladas, além de cobre (1 bilhão de toneladas), manganês (56 milhões de toneladas), bauxita, níquel e ouro. O Estado ainda possui reservas de cassiterita , calcário, chumbo, diamante, caulim, carvão e cromo. Em 1980, o Governo federal começou a implantar um projeto de exploração do minério de ferro, que recebeu o nome de Projeto Grande Carajás. Com a finalidade de fornecer energia para o projeto, o Governo deu início, em 1987, à construção da hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins, a 300 km de Belém. Desde 1979, através do Projeto Jari (na divisa dos municípios de Almeirim, no norte do Pará, e Mazagão, no Amapá) e da mineração Rio do Norte (no município de Oriximiná), o Estado está produzido caulim e bauxita. O Projeto Jari, aliás, tem uma longa história: começou na década de 60, quando o empresário norte-americano Daniel Ludwig comprou na região uma área de 1 600 000 há ( isto é, 16 000 km², o que corresponde a quinze vezes o antigo Estado da Guanabara). Contando com incentivos do Governo brasileiro, Ludwig começou a explorar os minérios da região de caulim (um tipo de argila) e agropecuários: plantação de árvores para corte, arroz, criação de búfalos etc. Em 1982, o Projeto Jari foi nacionalizado, e vendido a empresários brasileiros. Em fevereiro de 1980, começava uma enlouquecida corrida ao ouro descoberto em Serra Pelada, no sul do Pará. Em poucos meses, aquelas jazidas de aluvião já tinham produzido 1 500 kg do minério. E, no médio Amazonas, a Petrobrás localizou uma das maiores bacias de sal-gema do mundo, que se estende de Monte Alegre até o Estado do Amazonas.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA        

 

História do Pará

 

A conquista do "grande mar"

 

A história do Pará começa com a vinda de uma expedição comandada pelo capitão português Francisco Caldeira de Castelo Branco, que recebera a incumbência de fundar uma nova capitania na região abandonada pelos franceses ( que foram expulsos por tropas portuguesas), conhecida como França Equinocial (que incluía também as terras do Maranhão). Assim, depois de costear o litoral entre São Luís e a foz do Tocantins, Castelo Branco fundou, em janeiro de 1616, o forte do Presépio, que daria origem á cidade de Nossa Senhora de Belém, núcleo da nova capitania do Grão-Pará, Esse nome foi tirado parcialmente do tupi pa'ra ("mar"): denominação que os índios davam ao braço direito do rio Amazonas, que se alarga muito ao confluir com Tocantins. Daí o nome da capitania: Grão-Pará ("grande mar"). Belém funcionou durante trinta anos como centro avançado da civilização ibérica (Portugal e Espanha estavam unificados desde 1580), em luta com os invasores franceses, holandeses e ingleses.  A partir de meados do século XVII, a economia paraense firmou-se com a exportação de cana-de-açúcar, algodão, café (introduzido na região - e no Brasil - em 1727, por Francisco de Melo Palheta, que trouxe mudas das Guiana Francesa) e cacau. A escassez de mão-de-obra, no entanto, gerava graves conflitos entre os jesuítas e os colonos, na disputa pela utilização do trabalho indígena. Em julho de 1661, um desses conflitos terminou com a prisão e expulsão do padre português Antônio Vieira (famoso pela qualidade literária de seus sermões) e de vários outros jesuítas. No século XIX, Belém já apresentava aspecto de grande centro urbano, beneficiando-se do esplendor do "ciclo da borracha", também obtida na região. São testemunhos desse período imponentes edifícios, como o Teatro da Paz.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

Resgate do Passado

 

Com 248 anos de história, fortaleza é restaurada para ser centro cultural

 

A  Fortaleza de São José de Macapá, símbolo do expansionismo português, está passando por um processo de restauração e revitalização. Do período colonial ao Brasil Império, o prédio foi ocupado e utilizado por pelotões das guardas portuguesas e Imperial, atendendo a interesses estratégicos. A  partir de 1889, entretanto, com a proclamação da republica, a fortaleza perdeu sua função principal e entrou em processo de total abandono. Isso possibilitou a ocorrência de saques de diversos objetos - entre eles, artefatos de guerra, canhões, pedras e tijolos. No início deste século, a marinha do Brasil instalou um farol no edifício para facilitar a navegação na região. A pesar disso, o período de abandono se prolongou até 1945, quando o  comando da Guarda Territorial, do recém criado Território Federal do Amapá, instalou-se nas dependências do edifício. Nessa ocasião, foram realizadas algumas obras no telhado e trocadas janelas, portas, madeiras e portões, mas com reutilização de peças originais, como fechaduras e dobradiças. Com a ocupação da Guarda Federal, a fortaleza teve sua importância reconhecida, e em 22 de março de 1955 foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico (Ipnhan). A partir de 1955, enquanto o governo construía uma colônia arredores da cidade de Macapá, a fortaleza foi utilizada provisoriamente como hospedagem à cidade e como cadeia pública. Posterior foi ocupada pela Imprensa Oficial, pelo Exército e pelo Museu Territorial. No período em que abrigou o museu, diversas comemorações foram realizadas no espaço interno, mas a partir de 1964, diante do regime de força instituído pelos militares, a fortaleza voltou a ser usada como cadeia, agora para presos políticos. Nos anos subseqüentes, o prédio foi ocupado pelo Pelotão da Banda de Música da Polícia Militar. Em 1989 foi feito projeto de restauração e revitalização, proposto pelo governo territorial, mas as obras só foram iniciadas  em julho de 1997. O projeto, orçado em R$ 2 milhões, foi dividido em duas fases: a primeira, de restauração da parte interna, ou seja, da área envolvida pela muralha. "Nessa fase foram reestruturados os sistemas de drenagem de água, esgotos e energia", diz Ana Célia Gomes Rodrigues, diretora da fortaleza. Num segundo momento serão restauradas área em volta da edificação, com trabalhos de terraplenagem, restauração do piso e troca da grama.  Na reforma serão preservadas as características originais do prédio, com a utilização de produtos artesanais, segundo Roseane Norat, uma das arquitetas encarregadas da restauração do espaço. "O revestimento do piso, por exemplo, será feito com cerca artesanal, produzida com óleo de linhaça", diz a restauradora. Estão previstos ainda estudos arqueológicos dos sítios encontrados durante a reforma e a instalação de um novo sistema de iluminação numa terceira fase de revitalização. Depois disso, a fortaleza vai servir de espaço para exposições, comemorações cívicas e reuniões. Cerca de 90 % dos R$ 2 milhões destinados à primeira e à Segunda fase da reestruturação foram investidos pelo governo do Estado do Amapá, que tem incentivado a cultura regional e no ano passado construiu o Centro de Cultura Negra, onde, entre outras atividades, são realizados encontros com participação da comunidade afro-brasileira.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

 

Desde quando a Amazônia foi descoberta, logo em seguida ao Brasil, ela tem sido alvo da cobiça internacional. Já a partir de 1500 as primeiras expedições começaram a percorrer os rios amazônicos na tentativa de conhecer, explorar e colonizar a região. De acordo com documentos da época, só os espanhóis fizeram 22 expedições à Amazônia; os ingleses, 8; os franceses, 7; os holandeses, 5 e os portugueses, 3. Apesar do número menor de investidas, coube aos portugueses o domínio da região a partir de 1616, com a construção do forte do Presépio, em Belém do Pará. Os espanhóis se contentaram com a América do Sul, menos o Brasil, a América Central e parte da América do Norte e os ingleses, holandeses e franceses, que dividiram entre si a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa.

 

Os militares estão presentes há séculos

 

Hoje, 500 anos depois das primeiras investidas, o número de países interessados na Amazônia aumentou. Se no século XVI os exploradores buscavam descobrir as riquezas da região, os exploradores de hoje já sabem quais são essas riquezas da região e onde exatamente elas estão. Das drogas do sertão, ouro e prata daquela época à biodiversidade e minérios radioativos de hoje, nesse final de século a Amazônia consegue aparecer ainda mais atraente do que nunca ao mostrar para o mundo ser possuidora de uma riqueza até então menosprezada tanto pelos países pobres quanto pelos ricos: a água potável.

No Brasil, se a grande parte de sua população e muitos dos seus governantes desconhecem a região amazônica e suas riquezas, uma minoria, mas uma minoria atuante, está preocupada há séculos em protegê-la contra ambição estrangeira, atualmente preservando-a e explorando-a racionalmente: os milhares. À primeira vista a atuação dos militares na Amazônia quase não é notada, mas é que estrategicamente eles trabalham em silêncio. Desde 1616, com a construção do forte do Presépio em Belém do Pará, até 1780, com a construção do forte Nosso Sra. de Nazareth de Alcobaça, também no Pará, a presença militar é constante na região. Durante os séculos XVII e XVIII foram construídos 26 fortes na Amazônia, além dos destacamentos colocados em posições e áreas estratégicas mais recentemente. Os fortes foram sendo construídos a cada nova ameaça de invasão estrangeira e até hoje alguns permanecem como base do Exército, importantes na vigília das fronteiras, mas sem conseguir evitar totalmente que os estrangeiros as transponham em sua imensidão á procura das riquezas amazônicas. Dais surgiu a necessidade de dar uma atenção melhor para a região, tendo as fronteiras sido escolhidas como prioritárias.

 

HISTÓRIA DA AMAZÔNIA – Literaturas

 

Livro: O NOVO ÉDEN

 

A fauna da Amazônia Brasileiro nos Relatos de Viagens e Cronistas, desde a Descoberta do Rio Amazonas por Pinzón (1.500) até o Tratado de Santo Ildefonso (1777).

Contém documentos históricos.

 

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E-mail: webmaster@museu-goeldi.br