FOLCLORE

 

Boi – Bumbá, Carimbo, Batuque, Festa de São Tiago, Encontro de Tambores, Zimba, Marabaixo

FOLCLORE

 

Bumba - Meu - Boi

O Auto Amazônico da Ressurreição

 

Todos os anos, nos dias 28,29 e 30 Junho, o Festival do Boi - Bumbá sacode a cidade amazonense de Parintins, o espetáculo transcende os limites de grandes festa popular para constituir um grande rito de resgate da alma primitiva brasileira, que o boi, na verdade, representa.

 

O BUMBA-MEU-BOI ERA PARTE DE UMA ESTRATÉGIA PARA A CONVERSÃO DOS NEGROS E DOS ÍNDIOS.

 

Motivo para tanto agito? É a paixão regional: o duelo entre os bumbás caprichoso e Garantido, que, nos dias 28,29 e 30 de junho, se defrontam na arena do Centro Cultural e Desportivo Amazonino  Mendes, o popular Bumbódromo de Parintins. Durante três noites consecutivas, mais de 50 mil espectadores de distribuem na tribuna de honra, camarotes, cadeiras numeradas, arquibancada do povo, sem arredar pé até alta  madrugada. Delírio puro. Tanto na platéia - rigorosamente dividida entre os partidários do Boi Caprichoso, de cores azul e branca e o Boi Garantido, de cores vermelha e branca - quanto sobre a arena onde ambos, alternadamente, realizam sua festa-ritual. Tudo tem tamanho gigante: cada bumbá é formado por três mil componentes, chamados bricantes. Cada grupo desfila por cerca de três horas, sempre ao som da Marujada de Guerra (abateria do Caprichoso), ou da Batucada (a do Garantido), com cerca de 600 músicos cada. Paulinho Faria é o puxador das toadas do Boi Garantido, e Gil é o puxador do caprichoso. Vale notar que, diversamente dos sambas das escolas, a base rítmica das toadas, do boi-bumbá não é africana, e sim indígena. As "galeras", como são conhecidas as torcidas organizadas dos dois boi, ornamentam seus redutos no Bumbódromo com muita criatividade, usando bandeirinhas, balões, fitas, painéis luminosos, lanternas e tudo que a imaginação permitir. Ao entrar na arena, cada boi-bumbá é recebido com estrondosa salva de fogos de artifício, e o grito de guerra da platéia ecoa diante do silêncio sepulcral da "galera" contrária. E, na medida em que o desfile evolui, com a entrada de milhares de personagens índios, brancos e negros, a dançar e a cantar aos som da música hipnótica das toadas, em meio a cenografias de tirar o fôlego, vivem-se momentos de verdadeiro frenesi. O enredo básico dos dois bumbás é sempre o mesmo, interpretado em todas as suas variações possíveis. Ele veio do Maranhão no início do século, com a migração nordestina para a Amazônia durante o ciclo da borracha. A história relata a saga de um peão, o negro Pai Francisco, que matou o boi favorito do seu patrão para atender o desejo de sua  mulher grávida, a Mãe Catirina, que queria comer a língua do boi. O patrão descobre e manda prender Pai Francisco com a ajuda dos índios. Depois de muito sofrimento, Pai Francisco e salvo pelo Padre e pelo Pajé, que juntos - um com a força da sua fé, o outro com o poder da sua magia - conseguem a façanha de ressuscitar o boi. Do enredo fazem parte dezenas de outros personagens, como Dona Maria e a Sinhazinha (a mulher e a filha do fazendeiro), os negros Cazumbá e Mãe Guiomá (amigos de Francisco e Catarina), o Feitor, o Diretor dos Índios, os Doutores Curador, Canhaça, Palma Nego e Curabem, o Tuaxaua (cacique), a cunhã Poranga (moça bonita) a Rainha do Folclore. Na Amazônia, o mito do boi foi enriquecido com lendas do folclore e da mitologia indígena. Agora participam e interferem na história um sem-número de criaturas fantásticas como o boiúna (cobra-grande) , o boto (golfinho mítico), o boitará (cobra de fogo), anhangá (espectro do mundo subterrâneo), mapinguari (animal fabuloso, semelhante a um homem gigante, mas com uma enorme boca na barriga), bem como divindades do panteão amazônico, caso de Guaracy (o Sol), Jaci (a Lua), Tupà (o deus do raio) ou a Iara (sereia de água doce). Todos esses elementos interagem no rito popular do boi-bumbá de Parintins, transformando por três noites a arena do Bumbó-dromo num imenso teatro-laboratório al-Químico, onde se processa, em forma de espetáculo, uma evolução da alma sincrética brasileira. Como nasceu o boi-bumba? No Brasil, ele apareceu na cultura agrária do Nordeste colonial, onde existe até hoje com o nome genérico de bumba-meu-boi, e é interpretado por alguns autores como a expressão de uma busca de afirmação de identidade dos grupos que sobreviviam na  sociedade de então na condição de dominados (índios e negros). Luiz da Câmara Cascudo, mestre do folclore brasileiro, diz que seu criador é o negro que "desejava reviver as folganças que trouxe de sua terra distante, para distender os músculos e afogar as mágoas do cativeiro... Os indígenas logo simpatizaram com a brincadeira, foram conquistados por ela e passaram a representa-la, incorporando-lhe também suas características". Conselho de Arte do Boi-Bumbá Caprichoso, desenvolvendo por seu lado uma idéia interessante. Para ele, o auto do boi, nome primitivo do bumba- meu- boi, fazia parte de uma estratégia dos missionários católicos europeus com vistas à conversão dos negros e dos índios. Diz Assayag: "Duas preocupações são evidentes no auto do boi: a conversão e a ressurreição. Dois conceitos eminentemente trazidos para o Brasil Colônia pelos missionários jesuítas no bojo de sua catequese. A Península Ibérica- Portugal e Espanha - Havia repelido os mouros (de religião muçulmana), povos oriundos do Oriente Médio e norte da África, após vários séculos de ocupação. Havia um temor generalizado a tudo que não fosse cristão, e nesse raciocínio se enquadravam 'os politeístas negros africanos' e 'os idólatras indígenas brasileiros' - ambos pagãos. Tudo era válido para que aceitassem o batismo, se convertessem, se 'salvassem' e abandonassem as práticas não-cristãs'. Nessa linha de raciocínio, com vistas à  catequese, a cultura branca cristã pôs em ato um artifício didático altamente eficiente: o teatro, como forma de aprendizado associativo. Um teatro alegre, musical e dançante, e convincente por se basear em histórias fáceis do próprio cotidiano daquela gente simples. Foi transplantado para cá o teatro religioso europeu - o teatro dos milagres, os autos dos mistérios e os  autos da paixão, como eram chamados na Europa medieval. Um teatro religioso que, na Europa, começou dentro das catedrais, representado por monges e padres. E que depois ganhou as ruas com pessoas do povo participando das encenações. Dramas sacro que aconteciam na forma de festivais ou de procissões, como aquelas que até hoje se realizam nas ruas de Servilha, na Semana Santa, ou em muitas cidades do sul da Itália e do interior da França e Portugal. No Brasil colonial, esses teatros foram adaptados para as línguas locais dos negros e dos Índios, e pouco a pouco deram origem a exuberantes tradições folclóricas análogas ao bumba- meu- boi, como a congada (bailado praticado principalmente em Minas Gerais e Goiás, cujo enredo é uma verdadeira guerra santa entre os cristão comandados por Carlos Magno, colocado como o Rei Congo, e os mouros, liderados pelo gigante sarraceno Ferrabrás); o reizado (festa popular que assinala o ciclo do Natal e do Dia de Reis); o moçambique (bailado do centro, sudeste e sul brasileiro que, embora de  nome africano, tem origem européia). O moçambique é dançado em louvor a São Benedito, e termina com a sua ascensão ao céu, num exemplo de santificação. Como diz Assayag, "São Benedito, preto na cor e nome, era italiano da Ilha da Sicília. Como ele, não poderia haver melhor exemplo para os escravos. Franciscana, chamado por seus colegas de santo mouro, era humilde, piedoso e prudente - a própria dedicação em pessoas. Analfabeto, filho de negros escravos etíopes, era a prova viva de que os pagãos negros poderiam ser alçados ao céu, desde que se convertessem ao catolicismo". De tal forma, a conversão ao catolicismo aparece em quase todos os folguedos introduzidos na época e dançados essencialmente por negros, índios e mamelucos. O enredo era sempre o mesmo: a luta do bem contra o mal. O bem era representado pela nova ordem religiosa, e o mal, por tudo o que não se enquadrasse nesse conceito. A conquista final era o batismo do nativo, que acabava (ao menos à vista dos missionários) por aceitar a conversão. Certo, é muito possível que a história do boi tenha servido aos propósitos de catequese dos jesuítas coloniais. Mas, imerso na vibração quente do boi- bumba de Parintins, capaz de arrastar toda aquela massa de gente a um fenômeno catártico parecido, creio eu, aos grandes espetáculos do teatro grego antigo, eu me perguntava se seria só isso. Essa paixão pelo boi não estaria, talvez, relacionada a algo ainda mais profundo, diretamente emanado do inconsciente pessoal e coletivo daquelas pessoas?

O BUMBA-MEU- BOI ERA PARTE DE UMA ESTRATÉGIA PARA A CONVERSÃO DOS NEGROS E DOS ÍNDIOS.

 

 

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Onde o boi reina

 

Nas noites de 28, 29 e 30 de junho, alegorias montadas com ferro, madeira, papelão, plástico, isopor, sementes e penas transformam o boi, esse pacato coadjuvante dos humanos, na maior figura folclórica da Amazônia. Parintins, 420 quilômetros a leste de Manaus descendo o grande rio, na ilha de Tupinambarana, quase divisa com o Pará, pinta-se de azul e vermelho, respectivamente as cores dos boi-bumbás Caprichoso e Garantido, agremiações que contam com mais de 3 mil membros cada. É uma disputa que racha ao meio a cidade com quase 100 mil habitantes. Uma rivalidade que atrai mais de 50 mil espectadores e faz alguns casais mais fanáticos dormirem em camas separadas durante o festival.

O Caprichoso, considerado o boi da “elite”, vem com uma estrela na testa, enquanto que o Garantido, o boi do “povão”, traz o coração entre os olhos. Todo ano, cada bumbá cria um enredo para contar a história de Pai Francisco, capataz de uma fazenda no Nordeste, que para satisfazer o desejo de sua mulher grávida, Mãe Catarina, mata o melhor boi do patrão e arranca-lhe a língua. O patrão, furioso, quer matar o capataz, cuja única saída é ressucitar o boi. Em uma festa herdada dos grandes nordestinos, que chegaram durante o Ciclo da Borracha os amazonenses acabaram por fundir tradições para resgatar e valorizar a cultura indígena. O Festival acrescenta, com detalhes as lendas e a mitologia indígena da região do Baixo Amazonas. Para isso, foram acrescidos personagens como a cunha-poranga (moça bonita) e os taxuanas (chefes tribais). A dança e a indumentária são inspiradas nos rituais das tribos das Amazônia.

Até as noites de festa, que atraem cada vez mais visitantes do sul do Brasil e do exterior, são vários meses de trabalho em galpões tão humildes quanto calorentos. O desfile poderia ser comparado ao de qualquer escola de samba de primeiro grupo, se não caracterizasse uma ofensa aos apaixonados pelo praticamente toda a população amazonense. As toadas-enredo são sucessos de exportação musical do Estado, tocadas ininterruptamente nas rádios, residências, restaurantes, bares, gaiolas – barcos de passeio – e onde mais se puder imaginar. Tanto fervor fez até a poderosa Coca-Cola, patrocinadora do evento em 95, recuar e pedir autorização à matriz, em Atlanta, para mudar a cor de sua logomarca. Motivo: no Caprichoso não entra vermelho.

O fanatismo quase religioso das duas torcidas causa inveja a flamenguistas e corintianos. Conta-se que a origem da rivalidade começou em 1913, quando o repentista Emídio Vieira se apaixonou pela mulher do rival de viola Lindolfo Monteverde. Vieira fez o desafio: “Este ano se cuide que vou caprichar no meu boi”. Monteverde deu o troco: “Pois capriche no seu que eu garanto o meu”. A briga acabou entrando para o folclore da cidade. Até hoje, quem é adepto de um boi, sequer fala o nome do outro, se referindo a ele simplemente como “o contrário”. Só se veste de azul quem é Caprichoso, e de vermelho, quem é Garantido.

É um Bumbódromo – uma espécie de arena com capacidade para 40 mil pessoas, ao som das toadas, que acontece o embate. E é importante ficar atento, pois as personagens que representam a lenda do boi-bumbá podem surgir de qualquer lugar: do meio das arquibancadas, pendurados em cabos de aço ou pela porta de entrada. A torcida, dividida, se envolve na coreografia com dezenas de passos de seu boi do coração, tornando o espetáculo ainda mais grandioso e contando pontos na apuração. O ápice é a representação da morte do boi.

Para arrecadar fundos para a festa são realizadas apresentações no Sambódromo de Manaus. Mais recursos são obtidos junto aos patrocinadores. Os bois Garantido e Caprichoso ficaram tão famosos que já encerraram o Festival de Jazz de Montreux, em 1994.

 

 

Festival Folclórico de Parintins

De 28 a 30 de junho.

Local: Bumbódromo de Parintins.

Informações: 633-2850.

Manaus-Parintins: 16 horas de barco na ida, 29 a 30 horas na volta; uma hora de avião.

 

Parintins: Fotos (click aqui)

 

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Mandingueiras

 

Chamadas de bruxas por muitos, essas mulheres vivem de misturar ervas, perfumes e pedaços de animais, criando “poções mágicas”.

Para as mandingueiras, qualquer problema tem solução. Os preparativos são indicados para resolver vários problemas como traição, solidão, atrair bons negócios, espantar mau-olhado e curar doenças.

Para encontra-las, basta ir até o mercado Ver-o-Peso. Na maioria das vezes, elas convidam os possíveis clientes a conhecer o poder das ervas amazônicas. Segundo elas, para conquistar um amor devem ser usadas as folhas de chama, chega-te-a-mim ou agarradinho-a-ti. Já para trazer o amor de volta emprega-se as folhas de amor-perdido, vai-e-volta ou carrapatinho. Nos negócios a solução é o atrativo da jibóia, um vidro de perfume que vem acompanhado de um pedaço da cobra. Além das ervas, existem os banhos prontos, misturas especiais que evitam olho-gordo e outros males. Elas garantem que os compostos resolvem, mas há quem prefira considera-las apenas figuras folclóricas.