FANTÁSTICOS – Floresta

 

Recordes da Amazônia

 

Maior floresta tropical do mundo, com 7 milhões de quilômetros quadrados. A parte brasileira da floresta tem 4 milhões de quilômetros quadrados.

 

Mais de 200 espécies diferentes de árvores por hectare.

 

 

Raio-X da Amazônia

 

Apenas 1/5 das florestas do planeta continuam intocadas. Dos remanescentes florestais, aproximadamente 1/3 está concentrada na Amazônia.

 

A área total de Floresta Amazônica (mais de 6 milhões Km ²) tem quase o tamanho da Austrália, é maior do que a Europa Ocidental e quase tão grande quanto os EUA.

A floresta está presente em 9 países: Bolívia, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Suriname, Guiana Francesa, Guiana e Brasil.

 

 

 

Amazônia Magia e Realidade

A grande floresta esconde mistérios e riquezas que desafiam a imaginação mais delirante

 

“O que existe lá? – indagava ele, apontante. – Mato, pântano e selva impenetrável. Quem sabe ela pode ocultar? E para o sul? Uma vastidão de florestas pantanosas onde nenhum homem branco já passou. O desconhecido nos assedia por todos os lados. Além de estreitas linhas do rio, quem sabe? Quem é capaz de dizer o que será possível numa região como esta? Por que o velho Challenger não pode estar certo?”

Quem assim fala é Lorde John Roxton, personagem do romance O Mundo Perdido, de Sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Homes. O velho Challenger é o professor que afirma ter descoberto um mundo onde ainda vivem dinossauros e seres quase-humanos. Essa terra sonhada por Conan Doyle fica no Brasil. Mais precisamente, é o Monte Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana, cujas formações rochosas de aspecto curioso, que lembram gigantescos lagartos, causaram fortíssima impressão no inglês Everard Im Thurn, que o escalou em 1884.

Os relatos de Im Thurn inspiraram o livro de Conan Doyle, escrito em 1912, sete anos depois de Albert Einstein ter formulado a Teoria quântica, de Max Planck, era conhecida há 12 anos e o homem já voava em aparelhos mais pesados que o ar desde 1906. Mas havia lugar, na Amazônia misteriosa e quase inacessível, para os monstros e hominídeos que Conan Doyle criava na Inglaterra. Afinal, a Amazônia é, ela própria , um mito, desde seu nome.

É possível, e mesmo provável, que Francisco Orellana tenha inventado o conto dos amazonas com a intenção de valorizar a façanha, nada desprezível, de ter descido o grande rio desde as cabeceiras de seus formadores até a foz, numa viagem iniciada em fevereiro de 1541 e encerrada em agosto de 1542. Conta-se, porém, que o famoso conquistador, de forma nada leal e heróica, havia abandonado a maior parte de seus companheiros.

Entre os que ficaram para trás estava Gonçalo Pizarro, o chefe da expedição espanhola que buscava o mítico país do El Dorado, governado por um monarca que costumava untar o corpo de óleo, ao qual grudava ouro em pó. Começava, assim, envolta em mitos – senão em mistificação – a história moderna da Amazônia.

Entende-se, porém, que a grandiosidade dos rios e das florestas despertasse nos exploradores sentimentos místicos. O psicanalista e psiquiatra Leopoldo Frota – por dever de ofício, um intérprete dos mitos e das fantasias – conta que, em 1979, quando ainda estudante de Medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em Parintins (AM) ganhou de um índio um colar cujas contas eram figuras de animais. Quem usasse o colar, disse-lhe o índio, estaria protegido pelos espíritos da mata e nenhum mal lhe aconteceria. Embora não compartilhasse a crença daquele lhe dera o presente, Leopoldo efetivamente sentiu-se mais seguro ao encontrar na floresta, porque aquele objeto lhe servia como um elo de integração ao ambiente – hostil aos olhos do habitante da cidade, mas não para quem vive nele e reconhece sua força viva, que pode (por que não?) identificar com espíritos e deuses.

A lenda das amazonas teve vida longa e foi assunto de discussões por mais de três séculos. Em 1855, o poeta Gonçalves Dias publicaria um artigo sobre a existência ou não da tribo de mulheres na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A persistência dos mitos, de qualquer forma, seria justificada pelos obstáculos à exploração de uma região de tais proporções que nela cabem todos os sonhos de grandeza (ou a grandeza de todos os sonhos, o que for maior). Ironicamente, a Amazônia viria a confirmar alguns dos mitos – tornado-se, assim, ainda mais um pouco mítica.

O El Dourado não fica na Amazônia. Ela, tem-se aprendido, é um El Dorado. Sua riqueza não se concentra em um reino, mas espalha-se sob e sobre a terra, na sua intrincada teia de rios e nas variadas fisionomias de sua vegetação. Na forma de minerais, como o ouro e também o estanho, alumínio, ferro, manganês e prata, entre outros, essa riqueza já foi, em boa parte, medida e avaliada. Falta, porém, conhecer e atribuir o devido valor ao imenso patrimônio genético – isto é, em última instância, patrimônio de vida – dos diversos ecossistemas amazônicos.

 

 

Floresta Amazônica

 

Conhecida como hiléia, é a maior floresta tropical do mundo, com uma área aproximada de 5,5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 60% estão em território brasileiro, nos estados do Acre, do Amazonas, do Pará, de Mato Grosso e do Maranhão. O restante se divide entre as Guianas, o Suriname, a Venezuela, a Colômbia, o Equador, o Peru e a Bolívia. Sujeitas ao clima equatorial, extremamente úmido e com chuvas abundantes, suas matas se dividem em três tipos principais: o igapó, parte da floresta permanentemente inundada, cujo símbolo é a vitória-régia; a várzea, atingida por inundações periódicas e rica em seringueiras, jatobás e palmeiras; e a mata de terra firme, que corresponde às partes mais elevadas, onde as árvores alcançam até 60 metros de altura. O entrelaçamento de suas copas, em algumas regiões, impede quase totalmente a passagem de luz, o que torna seu interior muito úmido, escuro e pouco ventilado. A floresta Amazônica, que já foi famosa pela extração de látex e de castanha-do-pará e pela cultura do guaraná, hoje é vista pelo mundo como o maior reservatório de diversidade biológica do planeta. Das 100 mil espécies de plantas existentes em toda a América Latina, 30 mil estão na região. Ali há mais de 2,5 mil espécies de árvores, além de uma fauna riquíssima. A Amazônia abriga também a maior bacia hidrográfica do mundo, com extensão aproximada de 6 milhões de quilômetros quadrados. Seu principal rio, o Amazonas, ao desaguar no oceano Atlântico, lança cerca de 175 milhões de litros de água por segundo, o equivalente a 20% da vazão conjunta de todos os rios da Terra. A floresta registra atualmente uma pedra de 13,31% da sua área de mata original, estimada em 30996.000 quilômetros quadrados, em virtude da exploração econômica predatória das frentes de expansão agrícolas e das madeiras. Vivem na região, hoje, 17 milhões de pessoas, empregadas nas empresas de exploração agrícola e madeira ou no extrativismo, atividade que garante a subsistência das comunidades nativas e indígenas.

 

 

Floresta Amazônica

 

A Amazônia Central abriga o maior complexo hídricofluvial da Terra, com cerca de 7 milhões de km², sendo uma região de dimensões continentais. A hiéia brasileira com cerca de 3,3 milhões de km² sobrepõe-se, em grande parte, à área da bacia hidrográfica do Rio Amazonas e caracteriza-se  por abrigar riqueza biológica, com enorme diversidade de flora e fauna. É considerada uma das últimas reservas florestais do planeta.

 

 

O Domínio da Floresta

 

Entrar no mundo exuberante, mas ao mesmo tempo cheio de mistério e surpresas da vegetação do Pará é começar uma aventura por uma parte considerável da Floresta Amazônica, um verdadeiro santuário para botânicos, ecologistas e outros estudiosos da natureza. Quem embarcar nessa viagem vai deparar- se com uma cobertura vegetal diversificada, que inclui desde as florestas equatoriais e cerrados, até os campos, que reinam na monumental Ilha do Marajó. Não podemos falar da cobertura vegetal paraense sem mencionarmos, primeiramente, a Floresta Amazônica, considerada a "mais rica floresta pluvial equatorial do mundo", tanto em extensão como e, variedade de espécies vegetais e animais. A grande floresta, segundo o pesquisador William Rodrigues, é também chamada de hiléia, "do grupo Hylaea, a zona de selvas". Hiléia Amazônia foi a denomina- catalogados. No entanto, apesar de toda essa diversidade, apenas no estuário do Rio Amazonas, no Estado do Pará, são encontradas duas espécies dominantes na vegetação local: as palmeiras do buriti(Mauritia flexuosa) e do açaí(Euterpe oleracea), conforme ressalta o pesquisador William Rodrigues na publicação "Amazônia, Fauna e Flora". Para conhecer toda a riqueza da vegetação amazônica, na parte pertencente ao Estado do Pará, vamos começar uma longa viagem, que nos levará a matas fechadas e campos alagados. Nosso roteiro começa mostrando os quatro tipos de florestas existentes no território paraense, que são a Ombrófila Densa, Ombrófila Aberta , Estacional Decidual e Estacional Semidecidual.  Na Floresta Ombrófila Densa vamos encontrar as matas de terra firme, de várzea e de igapó. A mata de terra firme, que faz parte da região mais quente e úmida do Brasil, está presente em quase todo o Estado, numa área  de clima marcado pelas chuvas, registrando um índice pluviométrico superior a 2.300 mm ao ano e com temperatura oscilando entre 22º e 25ºC. Nesse tipo de mata ficamos diante de árvores de grande porte, que grande porte, que variam de 25 a 50 m de altura, as quais se subdividem em quatro tipos: aquelas chamadas árvores emergentes, que se destacam na cobertura vegetal por sua altura, acima do nível das outras espécies; as árvores que formam a cobertura uniforme, que têm praticamente a mesma altura; a chamada submata, com as árvores de menor porte; e os arbustos e ervas. Mas a diversidade da mata de terra firme não pára por aí. Avançando no roteiro vamos encontrar ainda as depressões, chamadas de "terras baixas", onde as árvores de grande porte, com densas copas e troncos altos e retos, verdadeiro "gigantes da floresta", como o angelim, a maçaranduba, a castanheira- do-  pará, a seringueira e o piquiá nos deixam simplesmente fascinados. Esses "gigantes" formam um mundo fechado, onde a luz solar praticamente não chega a atingir o solo. Daí a umidade constate. Prosseguindo nossa caminhada, chegaremos às planícies ao longo do Rio Amazonas e de seus grandes afluentes, onde estão as matas de várzea (inundadas periodicamente) e as matas de igapó (sempre debaixo d'água). Por ficarem próximas ao Rio Amazonas, as matas de várzea são propícias às espécies menos frondosas, como ucuúba, andiroba, anani, palmeira do açaí e  buritirana. Na região de várzea da Ilha de Marajó destacam- se em altura as espécies leguminosas, como o jutaí- açu e a faveira. Nas margens dos furos também encontramos várias espécies de seringueiras. Ao atingirmos a mata de igapó no deparamos com espécies de nomes exóticos, como a seringa- itaúba, a andirobinha ou cabeça- de- cutia, a palmeira marajá e a sororoca ou bananeira- brava. Chegamos ao final da primeira etapa da nossa viagem pela vegetação paraense.   

 

Esboço de Vegetação

 

Saindo da imensidão da Floresta Densa, vamos entrar na Floresta Ombrófia Aberta,  

Caracterizada por um pequeno período seco(que vai de dois a três meses), e uma temperatura média acima de 22ºC. Aqui, a maioria das espécies ainda é oriunda da Floresta Densa, mas as copas das árvores geralmente não ficam tão próximas uma das outras, o que permite a passagem dos raios solares. Na Floresta Aberta também há quatro subtipos marcantes: florestas com palmeiras, com cipós, com bambu e com sororoca. No Pará, encontramos a floresta com palmeiras na região do médio Xingu- Tapajós, onde predomina a palmeira do babaçú, e ainda a leste desses dois rios. Nossa aventura pela mata nos leva ao Sul do Estado, onde a primeira parada é na floresta com cipós. Aqui encontramos árvores com cerca de 20 m nas áreas mais planas, cobertas por cipós mais grossos, chamados de lianas. Nas áreas mais elevadas estão as árvores com cerca de 25 m, algumas cobertas pelo enorme cipoal. Nessa floresta, concentrada principalmente no trecho da Transamazônica que vai do município de Marabá até o Rio Xingu, esbarramos em muitos ipês- amarelos, mandioqueiras e matamatás, além do cipó- de - leite e do cipó- cruz. Do cipoal passamos para a floresta com bambu, que ocorre em clareiras, margens de igarapés e caminhos  de seringueiros, onde a incidência de luz é maior. Nesse subtipo, predominam a fava- de- espinho, o taperebá e o axixá. Respire fundo e vamos adiante, porque ainda há muita coisa a se descoberta e admirada. À Sudeste do Pará ao longo do médio Rio Xingu, e nos municípios de Benevides e Santa Isabel, encontramos a floresta com sororoca. Esse tipo ocupa o solo dos locais onde há queda natural de árvores e nas clareiras abertas pela ação do homem. As espécies mais comuns são a mandioqueira escamosa, o pau- mulato, o tamaquaré e o cedro. Nossa aventura nos leva agora ao Norte, Sul e Leste do Pará, área dominada pela Floresta Estacional Semidecidual. Encontrada geralmente nas regiões onde o período de chuvas abundantes é seguido por quatro a seis meses de seca, com uma temperatura média em torno de 22º C. A principal característica desse tipo de floresta é a perda simultânea das folhas, que atinge até 50% da cobertura vegetal, para que as espécies se adaptem às mudanças climáticas. Nos pontos mais úmidos são encontradas as palmeiras tucumã e inajá. Além dessas espécies, apresentam o louro- amarelo e o pau marfim. A maioria das árvores dessa floresta, nas partes baixas dos relevos planos, tem troncos retos, copas pequenas e ficam ligeiramente espaçadas, o que garante a entrada da luz do sol. Entre as árvores características, que variam de 20 a 35 m de altura, estão o breu- manga e a copaíba. Nossa última parada, no caminho das florestas paraenses, é a Floresta Estacional Decidual, encontrada na área da Serra do Cachimbo, no Sul do Pará. Essa floresta tem uma peculiaridade: mais da metade de sua cobertura vegetal perde as folhas nos períodos de seca, geralmente de junho a setembro. Entre suas espécies mais freqüentes estão o jatobá, as perobas e o tento. Porém, não vá pensando que a vegetação do Pará se resume a esses quatro tipos marcantes de floresta. No Estado são encontradas ainda savanas (áreas também chamadas de cerrados) e vegetação litorânea, que são tipos de cobertura vegetal classificados como não florestais. As savanas ocorrem em regiões onde o período seco se estende de quatro a seis meses. No Norte do Pará, encontramos a savana de Tiriós. Quanto à vegetação litorânea, vamos conhecê- la nas áreas com influência marinha(as restingas) e nas áreas com influência fluvial encontramos os campos mistos e alagávéis e os campos de várzea. As áreas com influência marinha ficam ao longo do litoral, recebendo influência direta do Oceano e abrangendo as faixas com praias, dunas e outra formações litorâneas. Na costa do Pará, Principalmente no trecho que vai de Salinópolis ao Norte da Ilha de Marajó, as praias são originárias das Areias Quartzosas Marinhas, com areias brancas e dunas cobertas por vegetação arbustica , como o ajuru. Nas áreas com influência fluviomarinha encontramos árvores que se adaptam aos estuários dos rios, desde que estes tenham areias, água salobra e o movimento de vazante das marés. Já os mangues estão presentes na costa Nordeste da Ilha de Marajó, na Região do Salgado e ainda na Ilha de Mosqueiro. Além da espécie Rhyzophora(muito comum na formação dos mangues), a vegetação apresenta as aningas. As palmeiras do açaí e buriti determinam a transição das áreas de mangue para as áreas influência apenas fluvial. As áreas com influência fluvial permanecem alagadas quase todo o ano. Vamos encontrá- las ao longo do médio e baixo. Amazonas e de alguns afluentes, e no Arquipélago de Marajó. A vegetação dessas áreas é formada por gramíneas e plantas aquáticas de folhagem larga, como o aguapé e o mururé; por arbustos como a aninga; por palmeiras, principalmente a buritirana e a pupunhana; e por espécies arbóreas, nos locais onde o período de inundação é menor. Na imensidão do Arquipélago de Marajó estão ainda os campos pouco alagados, com áreas baixas e permanentemente inundados, e outras mais altas, os chamados "tesos", que não sofrem inundação. Mas tanto nos campos baixos como nos tesos, florescem plantas forrageiras, que servem de alimento ao gado, como o capim- açu, o capim rasteiro, a malva e a canarana rasteira. Nos campos baixos, que ficam inundados durante vários meses, estão as melhores pastagens da ilha. Neles florescem gramíneas consideradas boas forrageiras, como a barba- de- bode, a canarana de folha miúda e o piri. Os campos cobertos de gramíneas se alteram com as áreas sempre inundadas, onde uma das espécies vegetais mais comuns é o conhecimento mururé. Encontramos áreas de várzea também nos municípios de Almeirim, Cametá, Faro, Santarém e Porto de Moz. Nossa aventura termina na região Nordeste da Ilha de Marajó, onde há uma área chamada "mondonga”, formada por terrenos pantanosos. O mondongo apresenta aningas e uma vegetação mais densa que nos outros campos marajoaras. Á área de campos de várzeas, do baixo Amazonas e dos campos do Marajó, constituem tradicionais regiões de pecuária extensiva (tradicional).

 

Florestas Nacionais        

 

Pacote não ampliou preservação na Amazônia

 

As sete novas florestas nacionais (Flonas) criados na Amazônia por decreto presidencial, no  dia 2 de fevereiro de 1998, não acrescentaram um só hectare à área de matas protegidas na região. A criação das Flonas faz parte do “pacote verde” lançado pelo governo Fernando Henrique Cardoso como reação aos altos índices de desmatamento na Amazônia registrado em 95 e 96.

A acusação é do Instituto Sócio-Ambiental (ISA), organização com sede em São Paulo e especializada em questões amazônicas. Para obter a superfície compreendida pelas novas Flonas, de 2,62 milhões de hectares, o governo lançou mão de áreas militares - já protegidas da exploração predatória - e do perímetro do Projeto Carajás, que compreende as atividades de mineração da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD).

João Paulo Capobianco, secretário-executivo do ISA, diz que o governo está vendendo a idéia de que, numa só canetada, está contendo a devastação em uma área pouco menor do que a do Estado de Alagoas (2,79 milhões de ha). Segundo Capobianco, a medida dá ao governo a possibilidade de comemorar o índice de 10% de florestas protegidas na Amazônia.

Essa meta foi assumida em carta enviada pelo embaixador brasileiro em Londres, Rubens Barbosa, ao príncipe Philip, presidente emérito do WWF (World Wildlife Fund for Nature), dias antes da visita do presidente Fernando Henrique Cardoso à Inglaterra em novembro de 1997. O compromisso foi uma resposta à campanha lançda pela WWF para conseguir a preservação de 10% das florestas mundiais.

Segundo Capobianco, além de compreender uma área inferior à desmatada na Amazônia num único ano, o de 95 (2,9 milhões de hectares), a criação das novas Flonas não traz justificativas técnicas que mostrem aumento da produção florestal sustentada.

“Os critérios para se criar uma Flona nada têm haver com os usados para a instalação de uma área militar”, diz Capobianco.

Segundo os técnicos do ISA, um exemplo dessa falta de critérios foi a definição dos limites da Floresta Nacional de Itacaiúnas, no Pará. Segundo a checagem do ISA, a Itacaiúnas, vizinha do Projeto Carajás, tem 65% de sua área, um naco de 84 mil hectares, coincidindo com parte de uma Flona criada em 1989, a Tapirapé-Aquiri. O restante de Itacaiúnas se confunde com a antiga gleba militar Aquiri.

“É o primeiro caso de floresta de dois andares que se tem notícia”, diz Capobianco.

No caso da Floresta Nacional de Carajás, o governo escolheu exatamente os limites da área de concessão de direito de uso da CVRD. A concessão estava suspensa por liminar concedida em 19 de abril de 97 pelo ministro Marco Aurélio Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), numa ação movida por um grupo de parlamentares contrários à privatização da CVRD.

Com a criação da Flona, o governo afastou o risco de ter de submeter à votação no Congresso a concessão da área de Carajás à CVRD. O decreto que criou a Flona traz três artigos, um parágrafo e dois incisos destinados a evitar qualquer solução de continuidade nas atividades de mineração, pesquisa e transporte da CVRD.

Essas salvaguardas, em princípio, se chocam com o próprio texto do decreto n° 1.298, de 27 de outubro de 94, que regulamentou a figura das Flonas. O inciso 2 do artigo 6 diz: “É vedado o armazenamento, ainda que provisório, de lixo, detritos e outros materiais que possam causar degradação ambiental, nas dependências das Flonas”. Fica difícil imaginar essa proibição prevalecer no maior complexo de mineração do país.

As críticas do ISA vão ser levadas nessa segunda-feira a uma reunião do Grupo de Trabalho de Florestas (GT-Florestas) com a direção do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) da qual participam várias entidades ambientalistas.

Ibama vê gasto menor 

O diretor de Recursos Naturais Renováveis do Ibama, Paulo Benincá, diz que a escolha de áreas do Exército para a criação das Flonas tem a vantagem de não exigir gastos do governo com desapropriações.

Segundo ele, as áreas escolhidas têm alto potencial de produção florestal e da proximidade de grandes rios, o que facilita o transporte de madeira.

A meta do governo, segundo Benincá, é atingir uma rede de 40 milhões de hectares com Flonas. Essas áreas seriam suficientes, segundo o Ibama, para atender a demanda interna e externa de produtos florestais, especialmente madeira. “A idéia das Flonas é justamente a produção dentro de regras que assegurem a preservação da floresta ao longo do tempo”.

Benincá reconheceu que um dos objetivos da criação da Floresta Nacional de Carajás foi a regularização da concessão da área para a Vale. Segundo ele, a medida permite também o desenvolvimento de produção florestal de Amazônia.

“Criamos um complexo de Flonas de 700 mil hectares no entorno do Projeto Carajás, com transporte e oferta de energia. Além disso, teremos a parceria financeira e técnica da CVRD para desenvolvermos projetos ambientais”.

Benincá nega que haja superposição da Flona Itacaiúnas com a Tapirapé-Aquiri. Ele assegura que as duas Flonas são limítrofes.

 

Desmatamento

 

A Amazônia

 

A bacia do Amazonas perfaz cerca de 7 milhões de km2, incluindo a bacia dos rios Tocantins e Araguaia. A floresta Amazônica ou hiléia, com uma extensão de aproximadamente 5,5 milhões de km2,

sobrepõe-se em grande parte à área da bacia hidrográfica, estendendo-se para além de seus limites ao norte, mas não abrangendo grande pane das cabeceiras dos rios Araguaia e Tocantins, no Planalto Central brasileiro. Cerca de 60% da hiléia (3,3 milhões de km2) encontra-se no Brasil, distribuindo-se o restante pela Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. A chamada Amazônia Legal brasileira abrange os estados do Amazonas, Amapá, Acre, Mato Grosso, oeste do Maranhão, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, com uma superfície de aproximadamente 5 milhões de km2, ou seja, 60 % do território nacional. Inclui 1,9 milhão de km2 de florestas densas (38% da região), 1, 8 milhão de km2 de florestas não-densas (36% da região) e 700 mil km2 de vegetação aberta, como cerrados e campos naturais (14 % região). Os 600 mil km2 restantes (12% da região) são ocupados por áreas antropizadas, de vegetação secundária e atividades agropecuárias.

As florestas tropicais úmidas no mundo, que se distribuem na América do Sul e Central, África e Ásia, estão hoje reduzidas a 60 % dos 14 milhões de km2 de sua extensão original. A Amazônia brasileira

compreende cerca de 40% das florestas tropicais remanescentes do planeta.

As florestas úmidas da Amazônia são caracterizadas por sua grande biodiversidade, que abrange tanto a riqueza de ecossistemas quanto de espécies e de diversidade genética dentro de uma mesma espécie. Tem sido observado um elevado grau de endemismo da espécies de aves lagartos borboletas e vegetais de diferentes famílias. Enquanto na floresta Amazônica se conhecem mais de 2.500 espécies de árvores, nas florestas temperadas de toda a França existem em tomo de 50 espécies.

Essa comparação pode tomar-se mais tangível quando se observa que em 1 hectare da floresta Amazônica encontram-se de 100 a 300 espécies de árvores, dependendo do sítio e do diâmetro mínimo de caule escolhido como limite inferior para a amostragem.

Apesar da elevada produtividade primária natural das florestas tropicais úmidas, esses ecossistemas são bastante frágeis, uma vez que sua produtividade e estabilidade ao longo do tempo dependem de processos de reciclagem dos nutrientes, cuja eficiência está relacionada com a biodiversidade e complexidade estrutural da própria floresta.

Na Amazônia encontram-se diversos tipos de rios quanto à qualidade de suas águas e sua geomorfologia. Os principais são os rios de água preta, a exemplo do rio Negro, os rios de água clara, como o rio  Tapajós, e os rios de água barrenta (chamados de água branca na região), que têm no sistema Solimões e Amazonas seu principal exemplo.

Resta considerar ainda que a população da Amazônia é de 16, 7 milhões, aí incluídos 170 mil índios, e que seu patrimônio natural e cultural deve ser respeitado e valorizado, assim como o de todos os segmentos das populações tradicionais da região.

As décadas de 1960/1970 marcaram o início dos chamados grandes projetos, apoiados pela implantação das agências de desenvolvimento regional. Um amplo levantamento de recursos naturais de toda a Amazônia Legal, com ênfase em minérios e madeira (Projeto RADAM), foi realizado com o uso de imagens de radar. Grandes obras de infra-estrutura, como as rodovias Belém-Brasília e Cuiabá-Porto Velho, bem como a melhoria geral das telecomunicações e dos transportes aéreos no pais, aproximaram a região dos centros de decisão política.

 

Desmatamento

 

Todos os projetos de grande porte e muitos de porte pequeno ou médio - como a garimpagem de ouro - têm- se revelado como fortemente impactantes. No entanto, é importante diferenciar esses projetos quanto a suas escalas e distribuição espacial. Estradas de ferro ou rodovias permitem a propagação linear dos desmatamentos por longas distâncias. A destruição da floresta pela implantação de projetos agropecuários, além de acompanhar os eixos rodoviários, tende a difundir-se por estradas vicinais sobre extensas áreas.

Alguns impactos ambientais, no entanto, reincidem a cada passo da ocupação, sendo os passos mais importantes o desmatamento e a queimada, que acompanham a criação de usinas hidrelétricas, a expansão da mineração, a agropecuária, as rodovias e a colonização inadequada. Constituem também importantes impactos a extinção de espécies e da diversidade genética, o desperdício de recursos madeireiros e outros produtos florestais, a compactação e erosão do solo, as modificações do microclima e do ciclo hidrológico local, com a degradação da malha hídrica  (por garimpo) e a contribuição para o aumento do " efeito estufa".

O valor econômico imediato da floresta é erroneamente apresentado como menor do que o valor de usos alternativos do solo. Essa diferença é, inclusive, artificialmente aumentada por mecanismos fiscal

inadequados, a exemplo do Imposto Territorial Rural, maior pata áreas florestadas, uma vez que a derrubada é considerada uma benfeitoria, ou a exemplo dos incentivos fiscais concedidos até recentemente para projetos agropecuários em áreas de florestas densas.

Em 1990 foi iniciado um trabalho intensivo de revisão dos dados publicados sobre áreas e taxas de desmatamento na Amazônia. A partir de imagens do satélite, os cálculos foram refeitos, obtendo-se os

seguintes valores decrescentes:

 

. As taxas de desmatamento foram em média de 21 mil km2 por ano para a década de 1978 a 1988.

. Para o ano de 1989, a taxa de desmatamento foi de 18 mil km2.

. Para o ano de 1990, a taxa de desmatamento foi de 14 mil km2.

Relacionando-se a extensão das áreas desmatadas com à cobertura original, ficam evidentes o avanço do desmatamento nos estados do Maranhão e Tocantins e a concentração do desmatamento em áreas específicas do Pará e Mato Grosso, onde o impacto sobre a floresta é muito maior do que a porcentagem em nível estadual indicaria.

 

       

 

As aparentes Contradições do Sistema Amazônico

 

Dada a falta de luz,no interior da mata, as grandes árvores praticamente não possuem ramagens intermediárias ao longo do extenso caule. Árvores gigantescas, como a que produz a castanha do Pará, o jataí- açu, o açacu, e muitíssimas outras possuem seus ramos e folhas somente junto á extremidade superior, erguendo seus imensos caules de forma quase retilínea em busca dos raios solares. Curiosamente, ao contrário do que seria de se esperar, suas raízes são, proporcionalmente, muito curtas! Esse particular tem, aliás, sido causa de acidentes nas grandes obras que exigem desmatamentos na região. É que, dada a sua pequena base de sustentação e de fixação ao solo, as árvores descomunais da floresta amazônica escoram-se, umas ás outras, pelas suas copas e ramagens. Perdendo o apoio das árvores que as rodeiam, elas vêm abaixo quando menos se espera, como pedras de dominó, algumas vezes causando o ferimento e até a morte de operários e engenheiros da obra, como ocorreu mais de uma vez ao longo da Transamazônica!

Como explicar tamanha desproporção?

As duas mais importantes funções do chamado sistema radicular, isto é, o conjunto de raízes de qualquer planta, além da sustentação, são: a obtenção de água e a absorção de nutrientes, ou seja, de alguns elementos minerais essenciais ao crescimento e a todo o metabolismo da árvore. Água e sais minerais, em conjunto, formam a seiva bruta que, subindo pelo caule, através de vasos lenhosos até as folhas, vai constituir matéria-prima fundamental à elaboração do alimento orgânico que é sintetizado pela clorofila, através do conhecido processo de fotossíntese.

Ora, a água, no solo amazônico, é extremamente abundante, uma vez que este, em geral, se acha constantemente encharcado com as chuvas quase permanentes, não havendo necessidade de que as raízes perfurem grandes profundidades à procura do lençol freático, solo saturado de água. Em terrenos temporariamente secos, como os do cerrado, onde as chuvas anualmente faltam durante cerca de seis ou sete meses, o nível do lençol freático baixa durante o inverno a profundidades muito grandes, obrigando as plantas, por meio de suas raízes, a seguir à sua procura. Assim, certas plantas como a Andira, típica desses ambientes, mesmo quando possuem menos de 1 metro de altura, são dotadas de raízes que atingem 10 e até 15 metros de comprimento, para obtenção de água necessária.

Quanto aos sais nutrientes, estes são extremamente escassos nos solos amazônicos, encontrando-se, em geral, em maior abundância em uma fina camada superficial que não ultrapassa os 20 ou 30 centímetros. Como dissemos anteriormente, ao contrário do que se é levado a supor pela simples observação da sua riqueza vegetal, os solos da Amazônia são extremamente pobres, reduzindo-se a sua fertilidade a uma delgada e frágil capa de húmus à flor da terra. Abaixo disso, encontramos dezenas ou mesmo centenas de metros de areia estéril!

Já em 1903 o cientista alemão Katzer, realizando pela primeira vez análises químicas de rios, córregos e poços da Amazônia, mostrara-se surpreso com a incrível pureza das águas da região. Pesquisas sistemáticas realizadas a partir de 1950, principalmente por Sioli, vieram confirmar os resultados de Katzer, demonstrando que “a maior parte das águas amazônicas são tão puras quimicamente que podem ser comparadas à água destilada de qualidade inferior ou praticamente iguais à água de chuva”. As exceções a essa regra são, naturalmente,  as regiões férteis das várzeas que, como já dissemos, recebem nutrientes provenientes dos Andes e do Escudo Guiano a cada período de cheias, e alguns pontos isolados de constituição mineralógica particular. Análises de solo praticadas mais ou menos no mesma época dos trabalhos de Sioli, pelo agrônomo Felisberto Camargo e outros, levaram, finalmente, à constatação dessa perturbadora verdade: os solos da Amazônia são estéreis, inférteis; sua função, em relação ás árvores é quase exclusivamente de sustentação física!

A aparente incoerência de uma vegetação tão rica florescendo sobre substrato tão pobre somente pode ser explicada por uma perfeita economia na qual não existem praticamente perdas: os elementos nutrientes são aqui comparáveis a um “capital de giro” do sistema fundamental para o andamento do processo, mas que não pode ser gasto. Efetivamente, observa-se na floresta uma perfeita reciclagem dos elementos garantindo seu total e eficaz aproveitamento por todas as partes das plantas (e dos animais que delas se alimentam) e completa restituição ao solo por decomposição das folhas e tecidos mortos.

Mais uma vez se deve salientar aqui a importância do comportamento em conjunto dos vários elementos desse complexo sistema, a saber: plantas, animais, chuvas, luz, calor, solo, microrganismos, como partes ou engrenagens de uma mesma máquina em contínuo movimento. Nenhum deles pode faltar ou ser modificado sob pena de todo o conjunto entrar em colapso!

A alta eficiência desse sistema, no aproveitamento dos nutrientes, pode ser bem constatada pela rapidez com que os elementos são absorvidos pela planta. As raízes absorventes, muito ramificadas principalmente nos primeiros 20 a 40 cm da superfície não podem contar- como acontece em outros sistemas vegetais- com um grande reservatório de nutrientes no solo; isso porque, sendo as chuvas muito intensas e contínuas e o solo arenoso muito permeável, os elementos nutritivos seriam rapidamente lixiviados, isto é, dissolvidos e transportados por infiltração para locais profundos, inacessíveis às raízes. Assim sendo, os nutrientes têm que ser absorvidos logo que atingem o solo. Em parte isso é conseguido diretamente da água da chuva que cai sobre as árvores, lavando-as e transportando para baixo toda a sorte de resíduos e excrementos de pássaros, insetos, e outros animais que povoam as folhas e ramos da planta. Quanto às folhas, dejetos e todo material vegetal ou animal que cai ao solo, tudo isto é decomposto e transformado, com incrível rapidez, em um húmus gelatinoso capaz de manter, durante algum tempo, os nutrientes resultantes da decomposição, junto ao solo superficial, residindo à lixiviação.

 

 

A importância dos organismos microscópicos

 

Em todos esses processos há a participação indispensável de uma riquíssima população de microrganismos do solo, desde bactérias até vermes e pequenos artrópodos (animais que possuem pernas articuladas, como os insetos, as aranhas etc.), cada qual com uma função específica em relação à totalidade do processo. A decomposição de matéria orgânica animal e vegetal é realizada por bactérias e fungos que literalmente pulverizam, dissolvem e transformam-na em produtos assimiláveis.

Especial importância tem sido dada, atualmente, às chamadas micorrizas, fungos geralmente microscópicos e filamentosos que se desenvolvem em conexão simbiótica com as raízes das árvores. Esses fungos não só participam do processo de solubilização e metabolização do fósforo (e às vezes do nitrogênio) indispensáveis às plantas, mas, também, formam uma extensa rede filamentosa que aumenta em muito a área de absorção do sistema radicular, junto á superfície, elevando a eficiência na obtenção das soluções nutritivas. Alguns desses fungos formam filamentos microscópicos conectando diretamente o interior das células das raízes com folhas em decomposição de modo a constituir verdadeiras pontes para transporte de fósforo destas para aquelas.

Importantes estudos sobre o papel desempenhado pelas micorrizas como também por diversos outros elementos da microflora e microfauna do solo vêm sendo desenvolvidos pelo INPA, em Manaus. É fácil prever-se que a prática, cada vez mais comum, de queimar-se de forma incontrolada a floresta, como processo prévio de preparo para o futuro cultivo, deve ser altamente danosa para esses micro-habitantes tão necessários ao desenvolvimento normal da vegetação. Da mesma forma, a aplicação indiscriminada de agroquímicos, tais como inseticidas e herbicidas, pode exercer efeitos tóxicos nocivos sobre esses microrganismos.

Sioli menciona experiências recentemente realizadas na Amazônia pelo cientista W. Franken, que consistiram em analisar e comparar quimicamente as águas de chuva caídas diretamente, as águas que gotejavam das folhas, as águas subterrâneas. Os resultados demonstraram que, enquanto as águas de chuva colhidas diretamente eram quimicamente puras (como se podia esperar em uma região em que ainda não há poluição atmosférica),as águas que gotejavam as folhas ou escorriam pela árvore eram ricas em matérias de nutrientes de decomposição muito variável de árvore para árvore. A água do solo,  entretanto, era quase tão pura quanto a da chuva direta. Isso prova que a complexa rede de raízes e micorrizas age, efetivamente, “como um filtro altamente eficiente na retenção imediata de todos os compostos em solução, os quais são re-introduzidos em seguida nas próprias árvores sem perdas para as águas subterrâneas, córregos e rios o que representaria, afinal, uma perda contínua da terra para o oceano”.

Não se deve esquecer, por outro lado, dos fatores físicos que, associados aos biológicos, concorrem para o perfeito funcionamento desse complexo e único sistema. A temperatura, por exemplo, constituí um fator indispensável para que seja mantida em alto ritmo essa proliferação incrível e alta eficiência metabólica dos organismos dos solo- principalmente fungos- que promovem a decomposição da matéria orgânica. Tal eficiência seria totalmente improvável, por exemplo, em um país europeu ou qualquer outra região de clima temperado ou frio em que, durante boa parte do ano, o solo chega a congelar-se reduzindo ou anulando por completo a atividade microbiana.

 

 

A alimentação dos peixes

 

As reduzidas quantidades de nutrientes que são levadas aos rios poderiam, por outro lado, levar-nos a uma nova série  de interrogações. Se os nutrientes são indispensáveis, como elementos básicos, à alimentação dos vegetais aquáticos (algas) que, por sua vez, formam a base de toda a cadeia de alimentação que vai até aos peixes, répteis, aves e mamíferos aquáticos, como se explica que os rios amazônicos possuam tamanha profusão desses animais?

É preciso lembrar, em primeiro lugar, que, embora os rios não recebam, praticamente, contribuições em sais minerais das terras  firmes, eles transportam quantidades consideráveis desses elementos provenientes de suas origens, na cordilheira dos Andes ou do Planalto das Guianas, inclusive depositando, anualmente, parte desses materiais, na forma de sedimentos férteis, nas regiões de várzea. Nessas regiões baixas, inundadas todos os anos, cresce uma vegetação diversa daquela das terras firmes, com uma economia também diferente, uma vez que dispõe de renovação anual das matérias nutritivas trazidas pelos próprio rio. Essas matas inundáveis, os igapós, constituem, por sua vez, fonte de alimentação para toda a rica fauna dos rios.

Nas épocas de enchente, toda a imensa área formada pelos igapós, que antes se encontrava a seco e, portanto, forrada de folhas, galhos secos e outros produtos naturais da mata, é inundada pelas águas, permanecendo semi-submersa por um período de vários meses. As árvores, adaptadas à imersão parcial ou total, continuavam vivas, produzindo suas folhas, flores e frutos, que passam a constituir alimento para todos os peixes, os quais chegam a saltar fora d’água para apanha-los nos próprios ramos mais baixos. Além disso,todos aqueles resíduos vegetais  que foram depositados no solo durante o ano, agora submersos, sofrem rápida decomposição constituindo alimento orgânico para uma grande quantidade de pequenos animais, como vermes, larvas de insetos, crustáceos etc. que, por sua vez, constituem alimento dos peixes.

Há, pois, nas águas como nas terras, uma economia rigorosa na distribuição dos elementos químicos, de tal forma que eles produzam um máximo de atividade e crescimento biológico com um mínimo de perdas. Se assim não fosse, todo o ecossistema amazônico já teria deixado de existir há muito tempo, provavelmente transformado em um grande deserto estéril, pois esse espesso oceano vegetal esconde uma realidade inesperada: um solo extremamente infértil!

 

 

Relações entre o clima e o ecossistema

 

Numa região desértica, com vegetação rala, a evaporação pode ser muito maior que a transpiração. Porém, numa região de vegetação muito maior que a transpiração. Porém, numa região amazônica, a quantidade de água que passa do solo para a atmosfera, através da transpiração, é muito maior que por simples evaporização. E é facil perceber por que: como a eliminação de vapor de água é proporcional à superfície, é evidente que a soma das superfícies de todas as folhas de uma única árvore é muitas  vezes maior que a superfície do solo correspondente à projeção da copa dessa árvore, isto é, à superfície do chão ocupado pela árvore. Mesmo os lagos, com sua superfície livre, diretamente em contato com o ar, evaporam menos do que uma área igual, mas coberta de floresta! Na Amazônia a eliminação de água do solo chega a ser tão grande que as árvores fecham os estômatos ou aberturas de suas folhas por onde sai o vapor de água reduzindo muito ou mesmo cessando completamente a atividade fotossintética, nas horas mais quentes do dia, para que não haja completo secamento do solo superficial. Como os estômatos têm a dupla função de eliminar vapor de água e absorver gás carbônico para a fotossíntese, seu fechamento leva à quase interrupção da fotossíntese entre as 12 e as 18 horas de cada dia!

volume de água que cai na bacia Amazônica, na forma de chuvas, é de 12 trilhões de metros cúbicos por ano, enquanto o que escoa através dos rios em direção ao Amazonas e o mar é de 5,5 trilhões de metros cúbicos por ano. Os outros 6,5 trilhões são evaporados pela evapotranspiração, retornando diretamente à atmosfera. Por conseguinte, mais da metade do volume de água atmosférica que forma as chuvas, ali, tem sua origem na transpiração das plantas e evaporização direta. O resto é vapor proveniente do mar, trazido para o continente pelos ventos alísios. Como a grande maioria da água evaporada na mata é devida à transpiração vegetal, pode-se afirmar, como o fez Eneas Salati, ex-diretor do INPA, que pelo menos a metade do vapor formador de chuvas na região "é gerada pelas plantas que, atuando como bombas, retiram do solo a água e a transferem para a atmosfera na forma de vapor através da transpiração."

A grande lição que temos a extrair desses dados é a de que, na medida em que for sendo realizado o desmatamento da Amazônia, o volume da água disponível para formar chuvas irá sendo reduzido proporcionalmente. Como a própria floresta depende da umidade e das chuvas contínuas, o processo de transformação deverá ir se acelerando até o completo desaparecimento da mata e conseqüente transformação do clima semi-árido, capaz de sustentar, talvez, um ecossistema do tipo savana ou mesmo semidesértico. É evidente que tal alteração da umidade do ar poderá afetar o clima, inclusive, de regiões longínquas, de outros países, que recebem os benefícios da umidade gerada pela Amazônia.

 

 

Balanço Energético

 

As quantidades de energia que são recebidas, consumidas e devolvidas pelo ecossistema amazônico são, também, equilibradas entre si, de modo a podermos falar em um balanço energético do sistema como um todo. A energia proveniente do Sol atinge a Terra em duas formas principais: luz e calor que, no total, somam 420 calorias por centímetro quadrado por dia. Ambas essas formas de energia podem ser convertidas, uma na outra, ou ainda em outras formas tais como energia mecânica ou elétrica. Assim, por exemplo, os deslocamentos de ar provocados por diferenças de temperatura, isto é, diferenças no aquecimento de uma e outra parte da Terra, podem assumir intensidades colossais, na forma de tufões e tempestade, e são capazes de realizar trabalho mecânico movimentando moinhos de vento ou barcos a vela. Eventualmente, podem ser acumuladas grandes quantidades de energia nas nuvens que as descarregam em forma de eletricidade, constituindo raios, inclusive com emissão de luz e calor novamente.

Grande parte da energia luminosa recebida no ecossistema amazônico é utilizada na produção de biomassa, isto é, de massa vegetal e animal. A luz, absorvida pelo pigmento verde das plantas, a clorofila, é transformada em energia química capaz de converter o gás carbônico do ar na matéria vegetal que forma a própria massa vegetal da floresta e que, em parte, é consumida no sustento de animais. Há, pois, uma absorção de parte considerável de energia, acompanhada de uma absorção proporcional de gás carbônico. A energia e o carbono absorvidos ficam armazenados na forma de moléculas complexas de matéria orgânica, que compõem a biomassa, mas podem ser novamente devolvidos ao meio: cada vez que uma molécula de biomassa é destruída, reteve, armazenada. Isso se faz, continuamente, através do processo de respiração dos vegetais e dos animais (sempre que estes necessitam da energia para suas atividades) ou quando queimamos um simples pau de lenha para aquecer o fogão ou a fornalha de uma fábrica ou, ainda, quando ateamos fogo à mata. Em todos esses casos, recorde-se, haverá liberação de calor e de gás carbônico.

Dissemos que apenas parte da energia luminosa é consumida no processo de fotossíntese. Sim, porque outra parte permanece iluminando o dia e provocando os belos efeitos luminosos que são as imagens coloridas do ambiente , folhas, águas rochas, nuvens... É claro que a fotossíntese utiliza apenas a parte que mais “lhe interessa” da luz, isto é, a parte do espectro luminoso que é mais eficaz na fixação de carbono; as outras partes, os outros comprimentos de onda (como o verde, por exemplo) são devolvidos ao ambiente. Há, assim, uma absorção seletiva da luz e, conseqüentemente, uma modificação das características da luz ambiente. Boa parte das radiações mais quentes, que são as vermelhas e próximo do vermelho, é absorvida, o que concorre para uma redução do calor ambiente, ou um refrescamento do ar, característico dos ambientes florestais.

Finalmente, há, ainda, todo o excesso de radiações caloríficas que serão absorvidas pelo ambiente, causando a elevação de sua temperatura. O comportamento de diversas substâncias difere, também, com relação a essa absorção  de calor. Sabemos, por exemplo, que os corpos escuros se aquecem muito, pela absorção de radiações, enquanto os corpos brancos as refletem, aquecendo-se muito menos. Além disso, alguns materiais – como os metais, por exemplo – ao absorverem pequenas quantidades de calor têm sua temperatura rapidamente elevada, enquanto outros, como a água, precisam absorver quantidades muito grandes de calor para que sua temperatura se eleve um pouco. Por essa razão, a água – mesmo na forma de vapor, como existe em grande quantidade no ar da Amazônia – exerce um grande efeito amortecedor das variações de temperatura, impedindo que ela suba em demasia durante o dia ou que se reduza muito durante a noite.

Todo esse conjunto de fatores é igualmente importante na determinação do clima amazônico e da economia do calor na Amazônia. As plantas e animais da região – inclusive os peixes dos rios – são adaptados a uma temperatura raramente inferior a 19ºC durante a noite, ao passo que os seres de regiões secas, como por exemplo o deserto de Saara, têm que suportar temperaturas que durante o dia chegam a 40ºC e à noite baixam a 2 graus negativos. Como  a evaporização e a transpiração consomem, também, grandes quantidades de energia, pode-se dizer que os dois ciclos – o hídrico e o energético quando o outro é afetado. Só a transpiração vegetal, na Amazônia, consome de 50 a 60 por cento da energia solar incidente; por conseguinte, o desmatamento da Amazônia levaria a um superaquecimento do ar na região com essa parcela de energia que deixaria de ser utilizada.

 

 

Desmatamento e as alterações do solo amazônico

 

Outros efeitos do desmatamento concorrem, entretanto, para uma rápida deterioração do meio e alteração irreversível da fertilidade na Amazônia. A eliminação da sombra faz com que haja um excessivo aumento da temperatura dos solos. Esse aumento causa não só a rápida destruição do húmus e da flora de fungos e outros microorganismos que, como vimos, são indispensáveis à fertilização do solo, como pode aumentar muito a evaporização direta, causando a subida, por capilaridade, da umidade das regiões mais profundas do solo, carregadas de sais de ferro em solução. Esses sais de ferro, ao secarem, se depositam, originando o fenômeno da laterização ou formação de verdadeiros “ladrilhos”, impermeáveis, de terra aglutinada por sais de ferro.

A impermeabilização causada seja pela laterização, seja pela perda do húmus ( que é o elemento gelatinoso formador dos grumos, que dão ao solo uma textura mais “arejada”) faz com que haja redução da infiltração da água, com significativa elevação da parcela que escorre na forma de escoamento superficial. O aumento dessas águas de enxurradas se traduz, por outro lado, em aumento do transporte do solo arenoso para as regiões mais baixas e para os cursos d’água, formando grandes depósitos de areia branca, os areais, e entulhando ou assoreando os rios. Essa desagregação e transporte de solos é facilitada, por um lado, pela ausência das árvores que interceptam as gotas da chuva, diminuindo o impacto explosivo das gotas sobre o chão; por outro lado, pela própria ausência do húmus, material gelatinoso que normalmente retém os grãos de areia, dificultando seu deslocamento.

De acordo com o professor Salati, “já existem áreas na região Amazônica nas quais o comportamento diferencial de áreas com pastagens e com florestas pode ser observado. Um exemplo talvez seja a ilha de Marajó. As áreas cobertas com florestas possuem uma capitação melhor distribuída  durante o ano, com a mínima mensal da ordem de 80 mm. Já nas áreas cobertas com pastagem, precipitação cai a zero no período de estiagem. O total de precipitação das duas áreas é praticamente o mesmo. Observa-se ainda, nessa ilha, que as oscilações diárias de temperatura são maiores nas áreas de pastagem, indicando menor disponibilidade de água na atmosfera. Observa-se também que os cúmulos de formação local são menores as suas bases têm a maior altitude nas áreas de pastagem do que nas áreas de floresta”. E completa o mesmo autor: “A principal alteração prevista para o balanço hídrico, se um desmatamento em grande escala, sem reposição, for praticado, é a diminuição das precipitações pluviométricas. Como conseqüência imediata, rápidas mudanças serão introduzidas nas composições das estruturas biológicas do ecossistema, desde microorganismos até os grandes mamíferos – populações distintas em número e qualidade deverão ocupar os novos nichos ecológicos. Como conseqüência das alterações do regime de chuvas, haverá modificações nos níveis dos rios, o que introduzirá um desequilíbrio no atual sistema de reprodução, alimentação e crescimento dos peixes”.

 

 

Outros componentes importantes na atmosfera

 

É muito divulgada a noção errônea de que a Amazônia, graças a uma enorme produção de oxigênio por fotossíntese, representaria uma espécie de pulmão do mundo, fornecendo quantidade significativa de oxigênio para outra regiões do globo terrestre. Tal afirmação decorre, entretanto, de uma falta de compreensão do equilíbrio ecológico como um todo e da economia de elementos químicos em particular. A liberação de oxigênio no processo de fotossíntese é diretamente proporcional ao consumo de gás carbônico e, nos processos de respiração e decomposição, se dá o contrário: o consumo de oxigênio é diretamente proporcional à liberação de gás carbônico. Ora, em um ecossistema as duas reações devem realizar-se na mesma proporção, sob pena de haver cessamento do processo biológico por falta ou de gás carbônico para a fotossíntese ou de oxigênio para a respiração. Assim, a quantidade de oxigênio liberada pela fotossíntese deve, necessariamente, ser igual à que é consumida nas reações de respiração e decomposição no mesmo ecossistema, do contrário haveria falta de geração de gás carbônico e a atividade fotossintética acabaria prejudicada por essa falta!

 

Estudos que vêm sendo realizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE -, em colaboração coma a NASA, empresa aeroespacial dos Estados Unidos, desde 1986, estão demonstrando que as queimadas realizadas em larga escala na Amazônia, sobretudo nos meses correspondentes à estação seca, têm causando elevações da ordem de 10 vezes nas concentrações de monóxido de carbono, óxido de nitrogênio, ozônio e material particulado na atmosfera. Mesmo a distâncias de milhares de quilômetros dos locais em que se realizam as queimadas e ao nível do solo, as concentrações de material particulado no ar sofrem acréscimos de cerca de 300 por cento, atingindo níveis comparáveis aos encontrados nas grandes cidades.

 

 

Os produtos vegetais

 

Floresta tão exuberante e variada não poderia deixar de oferecer ao homem uma infinidade de produtos vegetais valiosos. Desde as espécies simplesmente decorativas, como a vitória-régia ou as orquídeas, até as madeiras de raras qualidades, os produtos medicinais, as matérias-primas, como a borracha, os alimentos preciosos, como a castanha-do-pará ou o guaraná e a infinita variedade dos frutos de inigualável sabor.

Comecemos pela vitória-régia que, desde que vista pela primeira vez, há quase dois séculos pelo homem civilizado, tornou-se um símbolo da hiléia amazônica, vindo a constituir o motivo principal dos cartões postais. Conta o escritor Gastão Cruls que em 1801 o naturalista espanhol, deparou com a vitória-régia e prostrou-se, de joelhos, na canoa em que ambos navegavam, para agradecer a Deus pela criação de tal maravilha! Suas folhas, com diâmetro de um metro e meio e até mais,  são circulares, flutuantes, e têm os bordos virados para cima à maneira de imensas “fôrmas para pizza”, protegidos por pecíolos imensos, armados de poderosos espinhos. As flores, muito grandes, possuem coloração que vai “do branco-aveludado, através de todas as gradações do rosa, até o púrpura-escuro, para voltar, no centro, a uma cor leitosa um tanto amarelada “, segundo a descrição do suíço Agassiz e sua esposa.

Esse autor chama a atenção para o modo como desabrocham as folhas ao mesmo tempo que emergem à tona d’água, já em seu tamanho definitivo. Elas se abrem, mais ou menos à maneira de um guarda-chuva, à medida que sobem à superfície. Aí, apoiadas, distendem-se pelo afastamento da trama de nervuras entre as quais o tecido foliáceo já se encontra formado, porém todo enrugado. O naturalista Wallace observa que, nas épocas de estio, com as águas baixas, as folhas são bem menores; à medida que as águas vão subindo, os pedúnculos vão se alongando e produzindo folhas cada vez maiores. Essas plantas são encontradas em toda a Amazônia, em áreas pantanosas ou enseadas de águas calmas e bem expostas ao Sol. Seus frutos, com o tamanho “de uma cabeça de criança”, contêm sementes negras que, moídas, oferecem farinha branca e saborosa.

O guaraná constitui uma outra especialidade amazônica, hoje cultivada em larga escala para a produção de refrigerantes. Dessa planta já foi dito, pela famosa gerontologista Ana Aslan, que se trata do gerovital brasileiro, por ser ela possuidora de princípios que fazem prolongar a vida humana.

Muito utilizada pelos nativos, principalmente dos Estados do Amazonas e Mato Grosso, pelas suas “propriedades estimulantes e depurativas do sangue”, seu uso – muito diluído, em forma de refrigerantes gasosos – levou os industriais a investirem muito no cultivo. Os primeiros a descreverem a planta foram os naturalistas Humboldt e Bonpland. Trata-se de um arbusto de hábito trepador, enroscando-se pelos troncos das árvores, atingindo alturas de até 10 metros. Cultivado apoiado em estacas, desenvolve-se muito menos e produz muito mais frutos. Frutifica em forma de cachos vermelhos contendo frutos de polpa carnosa, branca, comestível com uma mancha negra ao centro, o que faz com que se pareçam muito com olhos humanos. Suas sementes, do tamanho de ervilhas, possuem um revestimento avermelhado. Removida a polpa, as sementes são torradas em forno de barro e batidas para a remoção dos envoltórios avermelhados, para depois serem socadas em pilão, reduzindo-se a pó. Esse pó, misturado com água, forma uma pasta espessa, da qual são fabricados os pães de guaraná, secados e defumados por vários dias em fumeiras ou estufas. Na forma de pães, o guaraná é comercializado. Seu principal princípio ativo é a cafeína, além da teobromina e teofilina, estimulantes neuromusculares, diuréticos e dilatores das coronárias.

A castanha-do-pará ou tocari é produzida por uma das mais importantes árvores da Amazônia, atingindo cerca de 50 metros de altura e 4 metros de diâmetro, com tronco liso e escuro, de boa madeira, porém freqüentemente oca, nas árvores mais velhas. Seu fruto, o ouriço, é muito duro, com diâmetro de 15 a 20 centímetros, contendo até 20 ou mais castanhas cada um, e cai espontaneamente das árvores no período de janeiro a abril, ou seja, na época das chuvas. A castanha, além de saborosa, possui alto valor alimentício devido à presença de proteínas (16%), gorduras (69%) e sais minerais, além de vitaminas B1 e niacina. O óleo extraído das mesmas assemelha-se ao de oliva, sendo portanto muito saudável.

As castanhas são simplesmente coletadas do chão, em dias “sem vento” (por causa do perigo de caírem na cabeça dos catadores, o que representa sério risco de vida), retiradas dos ouriços e descascadas por processos rudimentares, o que causa muitas perdas devido ao desenvolvimento de fungos tóxicos, como o Aspergillus flavus, produtor da temível aflatoxina, o que reduz muito seu valor de exportação. Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha são seus principais compradores, consumindo-as principalmente nas festas natalinas. Esse mesmo fungo tóxico é encontrado com freqüência no amendoim, exigido tratamento especial.

Outros produtos vegetais importantes da região amazônica são o cacau e a  borracha. O cacau, introduzido no sul da Bahia há cerca de 200 anos, ali aclimatou-se muito bem, tornando-se seu principal produto de exportação. A produção da Bahia já foi maior do mundo, mas hoje ocupa a 3ª posição, depois de Gana e Nigéria. A borracha, de que já falamos, representou uma das grandes riquezas do Brasil no final do século passado e início do presente.

Djalma Batista apresenta uma longa lista de produtos típicos da Amazônia, classificando-os em: a) alimentos (já aqui comentados); b) condimentos, como as inúmeras variedades de pimentas nativas, baunilhas, pau-cravo (o “cravo” da América), a canela, o urucu (produtor de pigmentos vermelhos ou amarelos); c) remédios, como a salsaparrilha, muito exportada antigamente como depurativo e anti-reumático, mencionada por Júlio Verne, em seu livro A jangada, como sendo o principal produto de exportação da Amazônia, além da madeira; ipecacuanha ou poaia, copaíba, casca preciosa (a canela da Amazônia procurada por Pizzaro e Orellana), anil, quina, curare etc.; d) produtos aromáticos, como o louro-inhamuí, que produz o sassafrás, o cumaru, o pau-rosa, fixador de perfumes, hoje em extinção devida à grande procura e ação predatória etc.; e) alucinógenos, como a coca ou ipadu, o iagê, o paricá , o caapi, a virola; f) gomas, como o caucho, a borracha, a sorva, usada nas gomas de mascar (o famoso chiclete), a massaranduba, também produtora de goma de mascar e sobre a qual Wallace conta, maravilhado, da produção do “leite de massaranduba”, extraído por meio de entalhes praticados no caule da árvore e que, diluído em água, pode ser bebido com café, com chá ou como creme saboroso e nutritivo, os breus, a coquirana, a balata o caramuri, produtor de guta-percha etc.; g) estimulantes como o guaraná, a muirapuama, a catuaba, o xexuá etc.; h) fibras, como a juta, piaçava, malva, tucum etc.; i) diversos, o timbó, samaúma etc.

Finalmente, ele cita também uma centena de espécies fornecedoras de madeiras de boa qualidade para diversos fins e utilidades. Essa lista vem sendo aumentada dia a dia, sobretudo com as pesquisas desenvolvidas no laboratório de madeiras do INPA. Esse laboratório tem revelado propriedades e qualidades excepcionais e insuspeitas em várias árvores amazônicas ainda inteiramente desconhecidas dos mercados internacionais e mesmo nacionais.

 

 

A Floresta

 

"Na terra do povo ticuna tem lagos, igarapés, rios,igapós, paranás.

Tem árvores altas e baixas. Grossas e finas. Com âmago e sem âmago. (...)

Tem árvores amarelas, vermelhas e brancas, quando dão flor.

 A floresta parece um mapa com muitas linhas e cores. Mas não é para ser recortado."

 

"Se a gente olha de cima, parece tudo parado.

Mas por dentro é diferente.

A floresta está sempre em movimento.

Há uma vida dentro dela que se transforma sem parar.

Vem  o vento.

Vem a chuva.

Caem  as folhas.

E nascem novas folhas.

Das flores saem os frutos.

E os frutos são alimento.

Os pássaros deixam cair as sementes.

Das sementes nascem novas árvores.

E vem a noite.

Vem a lua.

E vêm as sombras, que multiplicam as árvores.

As luzes do vaga-lumes são estrelas na terra.

E com o sol vem o dia.

Esquenta a mata.

Ilumina as folhas.

Tudo tem cor e movimento". 

 

               (Trechos de "O Livro das Árvores")

 

 

 

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