ECONOMIA – Carajás

 

Siderurgia está de volta

Vale vai garantir matéria-prima e facilitar o escoamento

 

Quase duas décadas depois de ter deixado de lado o Programa Grande Carajás (PGC), que previa, até o ano 2000, produção anual de 3,5 milhões de toneladas de ferro-gusa e 10 milhões de toneladas de aço em siderúrgicas instaladas ao longo da Estrada de Ferro de Carajás (EFC), a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) voltou a apostar na expansão do pólo siderúrgico. A exemplo do PGC, a empresa não deve participar de nenhum empreendimento como sócia, mas com oferta de logística de transportes – ferrovia e porto – às usinas interessadas em instalar-se no Distrito Industrial de Marabá.

Em pelo menos um episódio, o da Siderúrgica Carajás, a Vale deixou claro que, pelo menos na Amazônia Ocidental, não deseja ter participação acionária em usinas siderúrgicas.

Mas, além de garantir o abastecimento de minério de ferro e facilidades e o escoamento pela EFC e pelo porto de Ponta da Madeira, em São Luís (MA), a Vale lançou edital para contratação de serviços de consultoria nas áreas do meio ambiente, tecnologia e aproveitamento econômico de carvão vegetal. E vai usar, junto ao Banco Mundial, um dos seus maiores capitais – a credibilidade – para trazer recursos para a área de produção de carvão.

A expansão do pólo de ferrogusa marabaense é um dos compromissos assumidos durante o fórum de alternativas econômicas para o município, organizado recentemente pela Prefeitura local e a Vale. É também uma forma de compensação à não-definição do local onde será instalada a metalúrgica que vai ser abastecida com o cobre da jazida do Salobo, localizada em Carajás, em subsolo marabaense.

Os diretores da Vale na região temem que a compensação seja interpretada como um presente de grego. A indústria de ferro-gusa, considerada de baixo valor agregado, é malvista pelos ambientalistas e entidades de defesa dos direitos da criança. Ciente disso, a Vale vai ajuda-las a encontrar soluções ao carvoejamento tradicional, feito a partir do uso de mata nativa e resíduos de serrarias.

A Carajás Metais é a primeira empresa do setor a atender ao chamamento da Vale, que deseja elevar a produção anual de gusa de Marabá de 250 mil para 1 milhão de toneladas. Atualmente, as duas siderúrgicas do município, a Simara e a Cosipar, tem capacidade instalada, respectivamente, de 80 mil e de 170 mil toneladas. O terceiro alto-forno da Cosipar entrará em operação no segundo semestre, aumentando para 280 mil toneladas sua capacidade.

Ex-funcionário da Vale, o engenheiro metalúrgico Raul Rolim é um dos sócios da Carajás Metais. É também o consultor contratado pela Vale para atrair empresas de gusa ao Pará. Até agora, segundo informa, sete empresas o procuraram. Entre elas, a Metalúrgica Marabá (Abaram), a Ferro Gusa do Maranhão (Fergumar) e a Siderúrgica Pará. “Outras quatro empresas estão interessadas em vir, mas ainda não posso divulgar os nomes”.

A se confirmar o projeto delineado pela CVRD para a expansão do pólo de gusa da cidade que já é o principal pólo econômico do sul do Pará, Rolim acredita que os empreendimentos independentes do sistema Norte – siderúrgicos do Pará e do Maranhão localizadas ao longo da EFC – vão chegar ao ano 2000 exportando mais gusa do que as independentes do sistema Sul, formado por Minas Gerais e Espírito Santo.

Em 1997, a produção brasileira de gusa foi de 23,7 milhões de toneladas. As usinas integradas, que também produzem aço, responderam por cerca de 19 milhões de toneladas. As independentes, não têm aciarias, produziram 4,7 milhões de toneladas, de acordo com dados do Sindicato da Industria de Ferro de Minas Gerais (Sindiferro).

Desse total das independentes, 2,6 milhões de toneladas foram exportados, participando o sistema Sul com 1,7 milhão de toneladas. De acordo com o consultor da Vale, a tendência é de que o sistema Norte mantenha ou aumente a sua participação como exportação de ferro-gusa, uma vez que não há nenhuma aciaria na Amazônia.

Já as usinas do sistema Sul devem voltar-se mais para o abastecimento de aciarias e fundições de empresas do Centro-Sul que não produzem todo o gusa de que necessitam. Isso fica mais visível no caso de Minas Gerais: dos 3,4 milhões de toneladas de gusa produzidas pelas usinas independentes minerais, quase 60% destinaram-se a aciarias nacionais. No caso do Pará e Maranhão, nada menos do que 99% da produção foram para o mercado norte americano.