ECOLOGIA – Comentário Geral  

 

A ÁGUA, FONTE DA VIDA

 Vida e água estão tão intimamente relacionadas que os cientistas não conseguem conceber uma sem a existência da outra. Pesquisas espaciais que buscam sinais de vida, passada ou presente, são conduzidas no sentido de detectar primeiramente traços de existência de água.

 Para os cientistas, a vida no nosso Planeta se originou na água e, na opinião de muitos, pela ação descontrolada da água, pela poluição ou por sua escassez, poderá se extinguir.
 Mas afinal como nós, seres humanos, tratamos a água, esse elemento que é fundamental para a nossa existência?
 Vamos, inicialmente, nos situar no problema:

 De imediato, nos defrontamos com uma curiosa coincidência: a proporção de água existente no corpo humano é igual a proporção de água existente na Terra, ou seja, aproximadamente 71%.
 O homem pode passar, talvez, até um mês sem ingerir alimentos, mas se ficar mais de três dias sem beber água poderá morrer.
 Observando a imensidão dos mares, os caudalosos rios, os lençóis freáticos e a chuva que cai constantemente, somos levados à falsa interpretação de que a água é um recurso abundante e inesgotável que está sempre à nossa disposição. Doce ilusão! Vejamos como a água se distribui no nosso Planeta.


 Yuri Gagarin, primeiro homem a avistar a Terra do espaço, disse que ela era azul. E realmente ela é azul porque 2/3 de sua superfície são dominados pelos oceanos que somados a água em forma sólida das geleiras dos polos, mais as águas existentes nos aquíferos do subsolo, mais as águas dos rios e lagos e a existente na atmosfera, chegamos a cerca de 1,5 bilhão de
 quilômetros cúbicos de água, ou seja, aproximadamente 75% da superfície terrestre é constituída de água e os restantes 25% são ocupados pelos continentes e terras.

 Novamente a primeira impressão é de abundância e eterna disponibilidade. Ledo engano, pois 97,3% da água existente é salgada, portanto imprópria para o consumo humano e apenas 2,7% é de água doce. E tem mais ainda: cerca de 77% da água doce se encontra em lugares praticamente inacessíveis em forma
 de gelo nas calotas polares e aproximadamente 22% se trata de água subterrânea, sobrando menos de 1% para as águas da atmosfera, rios e lagos.

 Para facilitar a visualização, tomemos como exemplo uma garrafa com um litro e meio de água. Mantida a mesma proporção da água doce existente na Terra, a parte correspondente da garrafa eqüivaleria a apenas uma simples gota.

 Imaginemos a Terra há 2000 anos. A população correspondia a apenas 3% da população atual, mas a disponibilidade de água permaneceu exatamente a mesma ao longo do tempo. Com o crescimento populacional, o consumo de água a partir do século XX triplicou e com a urbanização e o progresso material o consumo médio de água por habitante foi ampliado em cerca de 50%. Pela primeira vez o homem se deparou com o problema da escassez, mas, inexplicavelmente, continuou a desperdiçar o precioso líquido.

 E não bastasse o desperdício, com o advento da urbanização e da industrialização, começou a contaminação da pouca água disponível. 1,1 bilhão de pessoas já não tem acesso a água limpa. Nos países em desenvolvimento 95% dos esgotos e 70% dos rejeitos industriais são despejados em cursos d'água, sem receber nenhum tratamento prévio numa proporção que eqüivale a 10 litros de água inutilizada para cada 1 litro consumido, ou seja, 1000 litros de água utilizada acabam por gerar 10.000 litros de água poluída.

 80 países do mundo já enfrentam problemas de abastecimento e segundo a ONU, em 2050, 4,2 bilhões de pessoas (quase a metade da população mundial) estarão vivendo em países que não poderão garantir a quota diária de 50l/pessoa, para satisfazer suas necessidades básicas.

 Atualmente, a humanidade utiliza 54% das reservas de água doce existente. A ONU estima que com o aceleramento do consumo previsto para os países que estão em desenvolvimento, este percentual pode chegar a 90% já em 2025.

O Brasil, dentro deste cenário, apresenta uma situação aparentemente confortável. Cálculos dão conta de que nosso país possui de 12 a 13% de toda
 água doce disponível no mundo. Um percentual que é maior que o verificado na África, Europa e Oceania. Mas o nosso principal problema é que os nossos grandes mananciais, ou seja 70%, estão localizados na região amazônica, bem distante dos grandes centros consumidores. Os restantes 30% distribuem-se desigualmente pelo país, mas tem que atender 93% da nossa população.
 Toda esta inestimável preciosidade representada pela água mereceria, com certeza, um tratamento condizente com sua importância para a vida orgânica. Mas não é bem isto que acontece. A Água, dom da vida, graças a ação do homem, se tornou, paradoxalmente, uma das maiores assassinas do mundo. Dados de ambientalistas estimam que 25 mil pessoas morrem todos os dias ao beber água poluída. Dizem ainda que 80% de todas as mortes verificadas nos
países em desenvolvimento têm um elo flagrante com a poluição das águas. A contaminação se processa através de esgotos urbanos e emissões industriais, com produtos que são dificilmente biodegradáveis. Muitas substâncias são altamente tóxicas, como os fenóis, pesticidas, plastificantes e nitratos potencialmente cancerígenos encontrados nos fertilizantes utilizados na agricultura. Esses nitratos infiltram-se na terra e, com as chuvas, são levados para os rios, lagos e lençóis freáticos, além de se envolverem na cadeia alimentar.

 Neste cenário não muito animador, o que se pergunta é o que pode ser feito. Técnicos do mundo inteiro são unânimes em afirmar que antes de mais nada é preciso conscientizar as comunidades para um trabalho conjunto com as empresas e os governos. Primeiramente há a necessidade de se evitar o desperdício. Detectar, controlar e interromper os processos poluidores seria o segundo passo e, então, utilizar a criatividade para obter novas formas de captação, controle e distribuição da água.

 Evitar o desperdício é tarefa de cada um de nós e começa na nossa casa, no trabalho, no clube, etc. Aqui vale a máxima holística: "Pense globalmente e aja localmente". Pense nisso ao lavar as mãos, tomar banho, dar a descarga, lavar o carro, irrigar o jardim...

 Investimentos em saneamento básico e usinas de tratamento d'água, além da aplicação de pesadas multas para industrias poluidoras (com a arrecadação revertendo para projetos ambientalistas) poderão aliviar bastante o problema da contaminação, recuperando rios , a exemplo do Tâmisa na Inglaterra, que estão quase mortos.

 Muitos países desenvolvidos reaproveitam a água dos esgotos que é tratada e reciclada. No Japão, 80% de toda água destinada a industria é reutilizada. Na Índia, poços cavados nos quintais recolhem água da chuva, minimizando os problemas da escassez e colaborando para a salvação dos lençóis freáticos.

 A água vem se tornando um produto caro em muitos países que optaram cobrar pelo uso bruto, ou seja, taxar aquela água que é captada sem tratamento diretamente de lagos, rios e represas. Mas na maioria dos países, inclusive no Brasil, costuma-se cobrar apenas pelo consumo da água tratada.

 Idéias que dependem de avanços tecnológicos, como a dessanilização da água do mar e derretimento das grandes geleiras, estão sendo cada vez mais postas em prática, embora possuam, por enquanto, custo proibitivo.

 Outros fatores como o efeito estufa, que ao aumentar a temperatura média da Terra vem causando o derretimento de geleiras e aumentando o nível dos oceanos, têm contribuído para a diminuição do estoque de água doce. Isto sem falar no desmatamento acelerado que, juntamente com outras fatores têm provocado alterações climáticas, gerando um sistema desigual de chuvas, com tempestades torrenciais em certas áreas e secas em outras.

 A água salgada dos oceanos também vem sofrendo com a insensatez dos homens. Dependemos dos mares em vários fatores como o alimentar, econômico e climático, mas a poluição também avança neste setor com os continentes despejando lixo, detritos, substâncias corrosivas, além das emanações tóxicas do lixo atmosférico. A pesca mundial atingiu seu limite biológico
e algumas espécies já estão sendo ameaçadas. A consciência dos homens também já está despertando para mais este recurso tido com abundante e inesgotável e que agora já conta com a possibilidade da escassez.

 Todas estas agressões ao meio ambiente, esta falta de visão futura e descomprometimento com as gerações que hão de vir, e esta confiabilidade exagerada nos recursos pseudamente inesgotáveis do Planeta, poderão levar não, como muitos pensam, ao fim da Terra, que já passou por muitos cataclismos e agressões e se auto regulou retornando ao estado de equilíbrio, mas sim a uma dramática situação para a sobrevivência da humanidade.

 Que a água não se torne motivo de guerras, como o petróleo, e que cada um cumpra a sua parte, pois como disse, em 1854, o chefe índio Seattle "a terra não pertence ao homem; o homem pertence a terra... tudo que acontecer com a terra acontecerá com os filhos da terra" pois "o homem e a terra são da mesma matéria".

 

Cacique dá aula de Educação Ambiental

 

A carta do cacique Seattle é famosa. Foi endereçada ao ex-presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Pierce, como resposta à sua proposta para comprar as terras dos Peles Vermelhas. Mais do que uma resposta, ela é um documento histórico que revela o pensamento, o sentimento e a cultura da tribo duwamish. De uma beleza poética singular, a carta apresenta duas concepções de natureza etnicamente conflitantes. Uma pertence ao povo duwamish e a outra concepção, ao chefe branco americano. Apesar de quase um século e meio de existência, o documento escrito em 1854 tem sobrevivido a inúmeras versões. Mas continua atual.

 

DO CACIQUE AO PRESIDENTE

1855

 

Esta carta foi escrita, em 1855, por um índio norte-americano, de nome Seattle, cacique da tribo Duwamish, para o então
Presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce.

 

"O Grande Chefe de Washington mandou dizer que
deseja comprar a nossa terra. O Grande Chefe assegurou-nos também de sua amizade e
benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa da nossa amizade.
Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O Grande Chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz, com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas - elas nuca empalidecem.
Como podes comprar ou vender o céu, o calor
da terra? Tal idéia nos é estranha.
Se não somos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los?
Cada torrão desta terra é sagrado para meu
povo. Cada folha reluzente de pinheiro,
cada praia arenosa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as
recordações do homem vermelho.
O homem branco esquece a sua terra natal, quando, depois de morto vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são
nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são
nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos das campinas, o calor que emana do corpo de um mustang, o homem - todos pertencem à mesma família. 
Portanto quando o Grande Chefe de Washington
manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O Grande Chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus
filhos. Portanto vamos considerar a tua oferta de comprar 
nossa terra. Mas não vai ser fácil, não. Porque esta
terra é para nós sagrada.

Esta água brilhante que corre nos rios e
regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendemos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos
que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações
da vida de meu povo. O rumorejar da água é a voz do pai
de meu pai. Os rios são irmãos, eles apagam nossa sede.
Os rios transportam nossas cargas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar
e ensinar a teus filhos que os rios são
irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos
rios a afabilidade que darias a um irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mais sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele
vai embora. Deixa para trás os túmulos
de seus antepassados e nem se importa.
Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa.
Ficam esquecidos a sepultura
de seu pai e o direito de seus filhos
à herança. Ele trata sua mão - a terra, e seu irmão - o céu, 
como coisas que podem ser
compradas, saqueadas, vendidas como
ovelha ou miçanga cintilante.

Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás 
apenas um deserto:
Não sei. Nossos modos diferem dos
teus. A vista de tuas cidades causa tormento
aos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho
um selvagem que de nada entende.
Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se
possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por
ser eu um selvagem que nada compreende.
O barulho parece insultar os ouvidos.
E que vida é aquela se um homem não pode ouvir
a voz solitária do curiango ou de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo?
Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento,
purificado por uma chuva do meio-dia,
ou recendendo o pinheiro.
O ar é precioso para o homem vermelho, porque
todas as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem. O homem
branco parece não perceber o ar que respira.
Como um moribundo em prolongada agonia, ele é
insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós,
que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso
bisavô o seu primeiro sopro de vida,
também recebe seu último suspiro. E se te vendermos a nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir
saborear o vento, adoçado coma fragrância
das flores campestres.

Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar a nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: O homem branco deve
tratar os animais desta terra como se
fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que possa
ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem
e não compreendo como um fumegante cavalo de
ferro possa ser mais importante do que
o bisão que nós, os índios, matamos apenas
para o sustento de nossa vida.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto
acontece aos animais logo acontece ao homem.
Tudo está relacionado entre si. 
Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo
de teus pés são as cinzas de nossos
antepassados. Para que tenham respeito ao país,
conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra fere os filhos da terra.
Se os homens cospem no chão, cospem
sobre eles próprios. De uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem, é o homem que pertence à terra.
Disto temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os
filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama de vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo que ele fizer à trama, a si próprio fará.

ECOLOGIA

 

O Século XXI será o último

 

A civilização desaparecerá no século XXI se não for construído um sistema de valores que tenha por base o respeito à natureza e ao próximo, segundo o célebre ambientalista Maurice Strong, ex-secretario-geral da Cúpula da Terra de 1992, realizada no Rio de Janeiro, Strong, que hoje ocupa o cargo de reitor da Universidade da Paz, conversou com exclusividade com o TERRAMÉRICA.

 

A saúde do planeta melhora ou piora?

Agora estamos pior do que antes das conferências mundiais em Estocolmo e Rio de Janeiro. Em Estocolmo perdemos a inocência. Antes, contaminávamos o Meio Ambiente sem perceber. No Rio, compreendemos muito melhor. Firmamos convenções sobre mudança climática, sobre biodiversidade. O que aconteceu desde então? A população duplicou, a economia mundial quintuplicou. Portanto, o impacto ambiental aumentou. É como o câncer: às vezes parece um simples resfriado. Se não interpretarmos bem os sintomas nem tratarmos a tempo, invade todo o organismo. Desde Estocolmo e Rio desenvolvemos a tecnologia para minimizar o prejuízo. Agora, temos os meios, mas nos falta motivação. Nos falta um sistema de valores morais e éticos. Os governos deveriam ser o instrumento mais importante para expressar esses valores. Porém, a base é formada pelas pessoas. Não confio nos governos. Sei que não me cabe dize-lo, mas os governantes não estão atuando como líderes.