PEIXE-BOI AMAZÔNICO PODE SER EXTINTO

 

(O Estado de São Paulo - 28.11.00 - página A15)

 

Risco foi constatado por pesquisadores em expedição de 71 dias pela Amazônia

 

Sandra Sato

 

BRASÍLIA - Depois de 71 dias de expedição no Amazonas, pesquisadores do Centro de Mamíferos Aquáticos (CAM) concluíram que o peixe-boi amazônico corre risco de extinção. Com  carne vermelha diferente da de outros peixes, o animal tem peso médio de 300 quilos e é alvo de caça diária - apesar de proibida - pela população ribeirinha. Os habitantes da região cozinham a carne na banha do peixe, processo chamado de mixira e que conserva o produto até um ano.

O método empregado pelos pescadores impõe ao peixe uma MORTE DEMORADA E POR ASFIXIA. Primeiro, ele é atingido por um arpão. Tenta fugir, mas pacientemente o pescador espera que ele se canse e suba à superfície em busca de ar. Nesse momento, o pescador coloca um torno (pedaço de madeira de 10 centímetros em formato de cone) nas narinas do animal. Outra opção é bater com um cassetete nas narinas até que elas sangrem e inchem, impedindo a respiração.

"O peixe-boi agoniza de 30 minutos a uma hora, antes de morrer", informa a bióloga Fábia de Oliveira Luna, que participou da expedição por 236 comunidades à beira dos Rios Solimões, Purus, Negro, Amazonas e Madeira. Em alguns povoados ela chegou a ouvir de um caçador a promessa de que deixaria de correr atrás do peixe-boi porque "a morte dele era muito triste". Outros habitantes não demonstravam interesse em mudar de hábito, nem diante do argumento de que o peixe pode sumir. "O que Deus dá, não acaba", retrucavam.

 

Temporada - A pesca fica mais fácil no período de seca, que se estende de julho a dezembro  na região, porque os peixes-boi se refugiam nos lagos formados com as vazantes dos rios.

Os pesquisadores do CAM, subordinado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), teme que o animal tenha o mesmo destino do peixe-boi marinho - hoje reduzido a 400 exemplares na costa brasileira.

O gerente do centro aquático, Régis Lima, lembra que o peixe-boi marinho enfrentou processo semelhante ao vivido atualmente pelo peixe-boi amazônico. "A caça é diária e ocorre em toda a região."

Segundo a bióloga Fábia, no início do século, o couro do peixe-boi marinho era aproveitado para produção de correias de máquinas industriais e a gordura, para iluminar vias públicas.

O ciclo de reprodução é demorado, o peixe-boi tem novo filhote após intervalo de três anos: são 13 meses de gestação e mais de um ano de amamentação. "Dificulta a sustentação da espécie diante de tanta pressão", diz.

 

Fiscais - Para Lima, a solução será transformar os pescadores em guias que levem turistas para ver o peixe-boi, como ocorre em Barra de Mamanguape (PB). Nesse local, filhas de pescadores fabricam bonecos de peixe-boi que são vendidos e têm selo de segurança do Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro). Mas enquanto a exploração turística do peixe-boi não se transformar em fonte de renda para os pescadores, diz o gerente, o jeito é aumentar a fiscalização.