INSTITUTOS - IBAMA         

 

 Na mira dos satélites

 

O monitoramento por satélite já permite controlar as atividades clandestinas dos homens nas profundezas da floresta. Já dá para chegar aos lugares mais escondidos da Amazônia através de radares e sensores aerotransportados que, ligados a um satélite, oferecem imagens nítidas dos prejuízos que os homens provocam na natureza. No Brasil, o equilíbrio ecodinâmico da floresta tropical está ameaçado por várias atividades humanas. Entre elas três principais: desmatamento, incêndios florestais e queimadas. Tudo isso poder se monitorado através de satélites e a posterior verificação no campo. É exatamente isso que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) quer fazer através de um projeto de sensoriamento remoto, no dentro do Programa Piloto para a proteção das Florestas Tropicais no Brasil.

 

 

Colonialismo atinge também a tecnologia

 

“O problema que se enfrenta na Amazônia é a falta de metodologia no trabalho com as informações sobre a própria região, como no caso do sensoriamento remoto (recepção de imagens transmitidas regularmente por um satélite), que é uma ciência nova”. Quem afirma isso é o coordenador do centro de Hidroclimatologia e Sensoriamento Remoto da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, Evaldo Guilherme Martins César. É por isso que as informações sobre focos de incêndioutilizadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e recursos Naturais Renováveis (Ibama) no combate às queimadas são fornecidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que por sua vez, as obtém através de imagens transmitidas pelo satélite Noaa.

Os paulistas estão melhor informados sobre os problemas que atingem a Amazônia do que os amazônidas.

Evaldo Cezar afirma que isso acontece porque o Inpe e possui equipamento e pessoal para trabalhar com as imagens  do Noaa, condições que não existem no Centro mantido pela Sudam. Para Cezar, a maior dificuldade não é o equipamento, mas a qualificação da mão-de-obra. Outro detalhe citado pôr ele é a falta de estudos de sensoriamento voltados especificamente para a Amazônia – a “metodologia” a que se refere.

Isso acontece, não pôr incompetência dos profissionais paraenses, mas principalmente pelo fato de o sensoriamento remoto ser uma ciência bastante nova.

Diferença – o coordenador do Centro cita a diferença entre as informações disponíveis sobre São Paulo e a Amazônia: “é mais fácil você fazer sensoriamento remoto sobre o volume de água do Rio Tietê, pôr exemplo, uma vez que a metodologia para isso, do que para o Rio Amazonas, que tem um volume de água maior, o que já é uma grande diferença. Para você Ter uma idéia da necessidade de aprofundamento dos estudos nessa área, eu só conheço uma pessoa, no Brasil, que trabalha com balanço hídrico ( informações diversas sobre características de rios ) além de mim: um pesquisador do Rio Grande do Sul.

Apesar de trabalhar com informações de três satélites ( os norte americanos GOES e Landsat e o francês SPOT ), o Centro só recebe dados através de sensoriamento remoto do satélite GOES, que está 36 mil quilômetros de distância do planeta, em quanto Landsat e o SPOT estão numa órbita situada a 820 quilômetros da Terra. Do Landsat e do SPOT, o centro recebe fitas com dados para a elaboração de balanços hídricos.

Tecnologia – o Centro de Hidroclimatologia surgiu em maio de 1977, com a finalidade de executar o Projeto de Hidrologia e Climatologia da Amazônia, ou seja, fazer coleta, organização e interpretação de informações relacionadas à bacia hidrográfica e às variações climáticas nos mais diversos pontos da região amazônica. A partir de 1979, o Centro passou a utilizar o sistema de telemetria ( informações fornecidas pôr satélite através de fitas ), introduzindo o uso desse recurso no estudo das peculiaridades da região. O último recurso tecnológico adotado pelo Centro foi i sistema de sensoriamento remoto em setembro de 1987.

É pôr isso que o fato de o sensoriamento remoto ser uma ciência bastante nova – passou ser utilizada em 1972, com o lançamento do satélite Landsat, aliado a exist6encia de poucos pesquisadores brasileiros, e principalmente paraenses, nessa área, faz com que “toda a informação sobre a Amazônia esteja em São Paulo” – mais uma prova do colonialismo de São Paulo sobre a Amazônia, especialmente considerando-se que “o paraense até hoje não percebeu a import6ancia do domínio da informação a seu respeito, permitindo, ao mesmo tempo, a sua própria exploração e o surgimento das já conhecidas idéias feitas sobre a região, que quase nunca correspondem à realidade, como é o caso da expressão pulmão do mundo”.

Centralização – o monopólio da informação fornecida pôr satélite não é um problema enfrentado apenas pelos amazônidas, pois os demais países da América do Sul estão em situação bem pior: todas as informações sobre a parte meridional do continente americano estão centralizadas numa estação localizada na cidade de Cuiabá, no estado do Mato Grosso. De acordo com a avaliação feita pôr Evaldo Cezar, a estação de Cuiabá concentra 90% das informações disponíveis, em termos de satélite, sobre toda a América do Sul. Os 10% restantes são justamente as informações relativas à região amazônica, divididas entre a Sudam e o Inpe.        

  

 

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Um Modelo                                                                      

 

Com orçamento inicial de US$17 milhões, o projeto de monitoramento do IBAMA procura contribuir para a redução das taxas atuais de desmatamento, incêndios e queimadas, inicialmente na Amazônia. Esse projeto foi concebido para abordar as causas, processos e conseqüências do fogo, através do monitoramento e controle, assim como o uso de tecnologia de combate a incêndios e do uso sustentável da floresta. Seu enfoque é amplo: apontar, definir e desenvolver um sistema operacional permanente para integrar a ação de diferentes instituição federais, estaduais, municipais e privadas. Tudo isso administrado por comitês regionais e locais, que deverão estar mais próximos dos problemas. O IBAMA vai testar o uso de Aviões de Controle Remoto, capazes de transportar câmeras de vídeo e radar. Esses aviões têm autonomia de até 40 horas de vôo, podem operar em altitudes de 25 mil a 40 mil pés, sendo pilotados por rádio a uma distância de até três mil quilômetros. O uso desse tipo de tecnologia deverá reduzir o custo para a fiscalização, além de diminuir o risco de acidentes. No futuro será possível a aplicação de um projeto parecido da América do Sul, um sistema único e integrado de sensoriamento remoto que controle os desmatamentos e queimadas. Essa tecnologia vai permitir o diagnóstico preciso para a formulação de políticas públicas de proteção às florestas tropicais e outros recursos naturais. Essa estrutura vai ajudar na compatibilização de metodologias utilizadas por vários países e até entre organismos de  um mesmo país. Outro ponto importante será a criação de um banco de dados com informações que hoje estão dispersas. Isso vai facilitar os fluxos de informação entre as diversas agências responsáveis pelo monitoramento e controle ambiental em todos os países envolvidos. 

 

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Texto Flagrante via satélite            

 

O desmatamento da Amazônia sempre foi uma vergonha nacional sem rosto. Há duas décadas, quando satélites começaram a cruzar o espaço acima das árvores e fotografar, a cada quinze dias, o panorama da floresta, se sabe que a Amazônia está sendo devorada em grandes nacos. O ritmo da destruição flagrada pelas fotos mostra que por ano, em média, desaparece a cobertura vegetal de uma área equivalente a metade do Estado de Alagoas. São medições muito precisas e inquestionáveis. O levantamento feito do espaço, porém nunca pôde responder à perguntar crucial: quem são os responsáveis pelos focos de destruição? Na semana passada, pela primeira vez desde que a devastação sistemática da província ecológica mais rica do planeta começou a tirar o sono do mundo, as autoridades brasileiras puderam localizar os culpados. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis já tem em mãos o nome dos dez maiores desmatadores do ano passado. "De agora em diante será possível identificar e responsabilizar individualmente os grande agressores da floresta", diz Rodolfo Lobo, chefe do Departamento Nacional de Fiscalização do Ibama. Para fazer esse cadastro dos destruidores da mata, o Ibama teve de cruzar dados de diversas fontes. Foi uma operação em três fases. Na primeira, o Centro de Sensoriamento do órgão analisou as fotos do satélite Landsat e identificou nelas as áreas desmatadas com mais de 1 000 hectares, equivalentes a 1 200 campos de futebol. Como não tiveram acesso integral aos levantamentos mais antigos, os técnicos se fixaram sobre as glebas desmatadas mais recentemente, entre 1997 e 1998. O tamanho de 1 000 hectares foi escolhido porque todo desmatamento dessa dimensão ou maior só pode ser feito com um relatório de impacto no meio ambiente, Rima. A segunda etapa foi sobrepor as fotos do satélite aos mapas locais das regiões onde foram encontradas as áreas desmatadas. Isso permitiu saber em que município estão localizadas as fazendas. A terceira e última foi a fase mais complexa. Com as imagens e mapas na mão os técnicos do Ibama foram a campo descobrir os fazendeiros responsáveis pelo corte ilegal de árvores. A partir dos dados de latitude e longitude das áreas desmatadas, fornecidos pelo cruzamento das fotos de satélite com os mapa locais, os fiscais foram para o corpo- a- corpo. Essa última etapa do levantamento foi acompanhada pelos repórteres de Veja. Equipados com GPS, instrumentos de navegação via satélite, os fiscais checaram cada um dos pontos indicados pelas coordenadas geográficas das fotos feitas do espaço. Só assim foi possível descobrir o nome das fazendas e de seus proprietários.