CIÊNCIA – Pesquisa

 

Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ

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Região amazônica será pesquisada

 

 

Os raios das tempestades amazônicas estão sendo alvo de estudos no Brasil e nos Estados Unidos. Duas grandes campanhas de coleta de dados foram programadas para o verão de 1999. O Inpe, a USP e a Nasa instalaram um sistema de rastreamento de raios em Rondônia. O equipamento, com quatro sensores de leitura de solo, ficarão por três anos fazendo registro no local. O instituto brasileiro também está envolvido com as Universidades de Washington e do Colorado na busca de imagens aéreas dos relâmpagos. Câmeras de alta sensibilidade serão colocadas em balões e aviões que sobrevoarão os cúmulosnimbos. A intenção é conhecer detalhadamente a região do planeta com a maior incidência de relâmpagos e descobrir características particulares do fenômeno. Os vôos das câmeras foram programados para janeiro e março de 1999. "Futuramente poderemos estender essa pesquisa para outras regiões da Amazônia", disse o cientista do Inpe Osmar Pinto Júnior. Esse é o primeiro passo de um programa internacional que pretende pesquisar as descargas elétricas atmosféricas em todo o mundo. O Brasil estuda a possibilidade de instalar um sensor de raios em um dos satélites da Missão Espacial Completa Brasileira, Segundo Pinto, dessa forma será possível acompanhar os raios na faixa tropical da terra. (J.O.)

 

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Ingleses participam de pesquisa sobre flora brasileira

 

O ministério do Meio Ambiente do Brasil e o Kew Gardens de Londres vão realizar um projeto de cooperação técnica para dar condições aos cientistas brasileiros de fazer o inventário completo da biodiversidade do País. O Kew Gardens, o jardim botânico de Londres, fundado em 1713, é uma das mais tradicionais e competentes instituições de pesquisa botânica do mundo. A avaliação dos  especialistas do Kew Gardens, segundo Manoel Schirmer, consultor do Ministério do Meio Ambiente, é de que apenas 40% da fora brasileira é conhecida. O encontro de Schirmer e outros técnicos brasileiros com os especialistas ingleses ocorreu em Londres, onde está havendo uma intensa programação sobre a Amazônia e a questão ambiental . Em maio de 1998, foi realizado um seminário sobre oportunidades de investimento no setor de bioindústria da Amazônia, organizado pelo Embaixada brasileira, com a participação da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e do Ministério do Meio Ambiente. O encontro foi mais uma etapa de um périplo internacional sobre oportunidade de investimento no Brasil promovido pelo Ministério das Relações Exteriores. Desde maio, o evento já passou por Nova York, Atlanta, Los Angeles, Tóquio, Milão e Paris. A etapa londrina do "road show", voltada especificamente para o desenvolvimento da bioindústria e do ecoturismo na Amazônia, foi realizada simultaneamente à conferência "Amazônia 2000: Desenvolvimento, Meio Ambiente e Geopolítica", na Universidade de Londres, organizada pelo Instituto de Estudo Latino- Americanos. O projeto com o Kew Gardens  organizado até agosto, e um workshop em Brasília, segundo Wanderlei Mesias Costa, do Ministério do Meio Ambientem, que coordena a Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia (Probem). O projeto de cooperação técnica deve envolver basicamente treinamento e os custos devem ser o de viagens e 85 bolsas entre R$ 1 mil e R$ 4 mil mensais. O Probem faz parte da Segunda etapa (1999/2002) do programa Brasil em Ação, e seu principal objetivo é a pesquisa e o desenvolvimento da biotecnologia. O maior projeto do programa é a construção, em Manaus, do Centro Industrial de Biotecnologia da Amazônia, um complexo de laboratórios dedicado à pesquisa aplicada, transferência de tecnologia e prestação de serviços, incentivando as empresas a investirem nas áreas de produtos farmacêuticos, cosméticos, alimentos, inseticidas biológicos, enzimas, óleos, antioxidantes e corantes naturais e fragrâncias. O orçamento inicial do projeto é de US$ 60 milhões, a serem investidos em cinco anos. "Queremos mostrar a Amazônia que está tentando se construir para o próximo milênio, e que está surgindo ao lado da Amazônia das queimadas, do desmatamento e da exploração predatória, que ainda existe", disse Messias Costa, do Ministério do Meio Ambiente.

Fonte: Folha de São Paulo / 17 de outubro de 1998

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Brasil precisa de leis contra biopirataria, dizem especialistas

 

 

As coletas de material das florestas tropicais brasileiras para fins de pesquisa não têm sido feitas de acordo com a Convenção da Biodiversidade  das Nações Unidas, segundo a advogada britânica Kerry Tem Kate, da Agência de Biodiversidade do governo britânico. A afirmação da especialista, que também trabalha no jardim Botânico Real de Londres, no Reino Unido, foi feita em 16 de outubro de 1998 em São Paulo, no seminário "Acesso aos Recursos Biológicos - Aspectos Técnicos, Legais e Éticos". "O Brasil não tem lei de regulamentação de acesso e, no entanto, já cedeu grande coleções de seus recursos", afirmou a advogada, referido-se às espécies animais e vegetais que podem ser exploradas para a produção de fármacos. "Se esses (produtos) forem comercializados, o Brasil não terá legalmente como impedir", disse. No seminário, foram discutidas experiências de outros países com a exploração d seus recursos genéticos para fins de pesquisa por parte de entidades estrangeiras. O advogado britânico Charles Barber, do Instituto de Recursos Mundiais (WRI), ligado ao Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas, falou sobre a experiência das Filipinas na regulamentação do acesso à biodiversidade do país. A legislação filipina estabelece que toda substância de origem animal ou vegetal descoberta somente no seu território terá livre comércio no país, sem pagamento de royalties para a empresa que realizou a pesquisa. Também foi comentada a polêmica experiência da Costa Rica, que concedeu à empresa multinacional Merck o direito de acesso aos recursos genéticos do país. A companhia renovou pelo terceira vez com o governo costarriquenho o acordo, que prevê o acesso às pesquisas e o retorno financeiro de 10% sobre os lucros obtidos com a venda dos produtos. "Não fazemos bioprospecção (pesquisa sobre recursos as biodiversidade) por dinheiro. Esse é apenas um subproduto. O que queremos é conhecer nossa biodiversidade". Disse Nicolas Mateo, agrônomo do Ministério da Agricultura da Costa Rica. O Brasil ocupa o primeiro lugar no levantamento da organização não- governamental Conservation Internacional (CI), sobre os 17 países que abrigam cerca de 70% de todas as espécies conhecidas de mamíferos, pássaros, répteis, anfíbios e plantas do planeta. Das cerca de 250 mil espécies de plantas do mundo, 22% estão no país, que também possui o maior número de espécies de mamíferos (524), peixes de água doce (mais de 3.000) e insetos (entre 10 milhões e 15 milhões). Em agosto de 1998, o governo federal enviou ao Congresso Nacional projeto de emenda constitucional que define a biopirataria como crime e estabelece a obrigatoriedade de contratos para a repartição de lucros obtidos com a pesquisa e exploração do biodiversidade brasileira. 

 

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Os poderes da química combinatória

Pequenas empresas se juntam  a gigantes farmacêuticos para selecionar compostos químicos a partir de plantas

 

Tradicionalmente, homens e mulheres que descobrem novos medicamentos ficam com fama de nos legar a raspar do tacho. Ou de enterrar a cabeça na areia. Ou de deter-se em minúcias e perder a visão da tonalidade. Em decorrência disso, alguns dos medicamentos mais potentes e populares com que contamos foram desenvolvidos a partir de substâncias naturais. O Taxo e a aspirina, por exemplo, eram originalmente extratos de casca de árvore. E a penicilina e a ciclosporina (que interrompe a rejeição ao transplante de órgãos) vêm de fungos, tanto quanto a lovastatina, o principal medicamento mundial para reduzir o colesterol. No início desta década, no entanto, parecia que toda essa "botanização" poderia se tornar coisa do passado. Uma nova tecnologia chamada química combinatória parecia oferecer uma rica alternativa ao reino da natureza. A química combinatória permite que diversos grupos de substâncias químicas sejam aglutinados em diferentes combinações, criado até 40 mil composto individuais numa única experiência. Muitos pesquisadores acreditam que dessa maneira podem encontrar um universo de moléculas medicinalmente proveitosas, sem precisar sair do laboratório. Mas as modas mudam, e a descoberta de medicamentos é uma viagem de volta à natureza. Nos últimos dois anos, um grande número de pequenas companhia se colocou lado a lado com as principais empresas farmacêuticas para descobrir e selecionar compostos químicos derivados de centenas de milhares de plantas e microorganismos. O motivo, segundo Malcolm Morville, presidente da Phvtera (uma empresa de biotecnologia sediada em Worcester, Massachusets), é que o poder da química combinatória é limitado pela  imaginação dos químicos encarregados dessa tarefa e pela extensão das reações que são capazes de provocar. Em decorrência disso, seus produtos muitas vezes não passam nos testes de laboratório de função biológica. Por um lado, as moléculas da natureza já comprovaram seu valor no mais rigorosos de todos os programas de seleção: mais de 3,5 bilhões de anos de evolução. A Phytera e uma série de outras companhias estão usando a nova biotecnologia para obter mais da natureza do que salta à vista. Com sua canastra de truques científicos, a companhia já isolou dois compostos que parecem eficazes contra contaminações por vírus e fungos. Está agora voltando os olhos para distúrbios neurológicos e doenças cardíacas, depois de assinara acordos com uma empresa dinamarquesa, a Neuro Search, e com a americana Galileo. O problema essencial com que a Phytera se defronta é como desvendar a diversidade bioquímica de suas plantas com rapidez suficiente para acompanhar os modernos programas de desenvolvimento de medicamentos. A química combinatória desenvolveu-se em íntima colaboração com "a seleção em larga escala": testes de laboratório altamente automatizados, que em breve serão capazes de esquadrinhar até um milhão de compostos por semana (duas décadas atrás, uma companhia achava razoável conseguir uma análise bioquímica de 100 compostos por semana). A Phytera demostrou que está à altura do desfio de extrair e purificar compostos com a rapidez suficiente para alimentar a seleção em larga escala, pois pode prescindir da tradicional e um tanto desajeitada prática de processar plantas inteiras. Isso exige pô-las para secar, moê-las e depois extrair seus componentes químicos. Em vez disso, a empresa está trabalhando com células isoladas de plantas em tubos de ensaio. A coleção da Phytera (quase 5 mil espécies) está armazenada em frascos de vidros frio, e não em depósitos de vidros quente. Quando os cientistas da companhia encontram um composto interessante numa cultura, podem facilmente ir de volta ao congelador, descongelador uma amostra e desenvolver num turbo de ensaio mais algumas células da espécie relevante. Embora possa ser espinhosa a tarefa de reconstruir cestas condições de desenvolvimento, o grau de dificuldade não chega nem perto de tentar obter mais toneladas de uma planta exótica originária de uma longínqua região do planeta. As amostras de plantas podem ser muito caras - até 100 vezes mais onerosas que culturas em laboratório, segundo Jim Miller, do Missouri Botanical Gardens, em Saint Louis, EUA. E, atualmente, na esteira da Convenção sobre Diversidade Biológica assinada no Rio de Janeiro, em 1992, as empresas estão tendo que fazer muito mais promessas aos governos nacionais, e estão enfrentando muito mais oposição da parte deles, que compreensivelmente querem obter o melhor retorno dos países que lucrarão com a biotecnologia. Além do valor prático, trabalhar com células de plantas permite à Phytera usar um de seus recursos mais inteligentes. Como observa Morville, as plantas são mestres na química da rápida transformação. Devido ao fato de não poderem se afastar de um ambiente hostil, elas têm de se adaptar minuto a minuto às alterações de temperatura, luz e nutrientes. Algumas dessas adaptações envolvem a produção de novas substâncias bioquímicas que podem ter valor medicinal, mas nunca chegarão ao laboratório para testes se colhidas na época errada. Assim, antes de terem seus componentes químicos extraídos, as células de plantas da Phytera passam pelas piores condições possíveis. São assadas, resfriadas, infectadas, bombardeadas por hormônios, mergulhadas na escuridão e queimadas pela luz. O palpite do Dr. Morville parece estar rendendo frutos. O agente antifungo da Phytera, que a empresa denominou de sunilina, foi produzido apenas quando as culturas de células de uma planta comum forem infestadas por microorganismos tão virulentos quanto o levedo "Cândida" e o fungo "Aspergillus". Fora da célula e no tubo de ensaio, a sunilina mata uma ampla variedade de invasores fúngico. Em uma das experiências, por exemplo, a droga manteve vivos 80% dos camundongos infectados, enquanto todos os que receberam fluconazole, um dos principais medicamentos antifúngicos, morreram. A sunilina não é apenas mais eficaz do que o fluconaxole; ela age através de um mecanismo diferente. Isso a torna um acréscimo muito bem-vindo ao arsenal de medicamento, uma vez que muitos fungos causadores de doenças estão desenvolvendo resistência ao fluconazole e a outros medicamentos comuns que atuam aproximadamente da mesma maneira. A Phytera não foge completamente à química combinatória. Devido ao fato de a sunilina ser uma molécula um tanto incômoda de se trabalhar, os químicos da companhia a usaram como um andaime molecular e surgiram com 3 mil variações sobre o tema. Cerca de uma dúzia delas são tão eficazes quanto o original, com a vantagem de que podem se mostrar menos tóxicas em animais. A empresa também desenvolveu a técnica de sintetização da sunilina a partir do nada, de maneira a conseguir produzir grandes quantidades do medicamento para seus testes clínicos sem se dar ao trabalho de fazer culturas de células. A Phytera foi procurar moléculas em microorganismos marinhos também. A empresa tem vários milhares de espécies de bactérias e fungos das águas ao largo do Havaí e das Ilhas Virgens armazenadas com segurança em seu laboratório. Usando muitas das técnicas que funcionaram em plantas, ela isolou um novo composto chamado marinovir, obtido a partir de uma bactéria que vive nas águas que banham a Califórnia. A molécula, uma proteína pequena, é um poderoso medicamento antiherpes - pelo menos em animais de laboratório. A exemplo da sunilina, o marinovir parece funcionar de uma forma completamente diferente de outro medicamentos de seu gênero, com tudo o que isso implica para sua capacidade de derrotar vírus resistentes a medicamentos. Embora o mar seja uma grande fonte de substâncias farmacêuticas ainda desconhecidas, há muito a explorar em terra. Segundo Joe McDermott, diretor de pesquisa de uma companhia de biotecnologia da TerraGen, sediada em Vancouver, menos de 0,1% de todas as bactérias e fungos abundantes no solo foi efetivamente testado par fins de  extração de produtos químicos de valor medicinal. Isso porque as maneiras convencionais de se isolar esses compostos exigem o cultivo, em primeiro lugar, de grandes quantidades de micróbios. Mas a maioria dos microorganismos não aceitam de boa vontade a retirada do chão e o envio ao laboratório. Muitas vezes, eles se recusam obstinadamente a se reproduzir, o que significa que qualquer potencial medicinal mantém-se intocado. A TerraGen e Diversa, esta última trabalhando de forma independente, descobriram uma maneira de superar até a relutância reprodutiva dos mais renitentes micróbios. Mas os métodos das companhias se baseiam em retirar uma amostra do solo (que contém uma média de 4 a 5 mil espécies diferentes de microorganismos) e extrair todo o DNA delas. Depois eles introduzem rapidamente grandes porções desse DNA numa espécie de bactéria chamada "Streptomyces". Devido ao fato de elas agora conterem os genes de outros microorganismos, essas "Strptomyces" atuam como dublês de micróbios, produzindo grandes quantidades de elementos bioquímicos normalmente encontrados apenas nas espécies originais do solo. Assim, já que as "Streptomyces" individuais gostam de se reproduzir alucinadamente em placas de Petri, trata-se apenas de retirar as colônias que estão produzindo os elementos bioquímicos desejados e selecioná-las segundo sua atividade biológica. Usando sua versão da técnica, a TerraGen isolou cerca de 20 compostos potencialmente antibióticos dos solos nativos da British Columbia (Costa Oeste do Canadá). E a companhia também está examinando os líquens, que são uniões simbióticas entre fungos e algas. Alguns deles podem ser minas de ouro do ponto de vista médico, mas os liquens são notoriamente difíceis de desenvolver em laboratório. A tecnologia extratora de DNA da TerraGen contorna esse obstáculo, e já recuperou muitas moléculas até agora desconhecidas. Diferentemente da TerraGen, a Diversa extrai suas amostras de vários ambientes do mundo, entre as quais a mata atlântica da Costa Rica e as geleiras da Islândia. A companhia descobriu cerca de 100 moléculas novas, algumas das quais atuam no combate a bactérias. Os micróbios podem não ser tão vistosos quanto as plantas, mas são protegidos com o mesmo zelo. A Diversa assinou uma série de acordos com governos estrangeiros para usar seus solos, em troca de royalties, tecnologia e treinamento. Em março, no entanto, a empresa enfureceu muita gente perto de casa. Os manifestantes tomaram medidas legais para barrar um contato que ela assinou com America' s National Park Service. O acordo dá à Diverso acesso aos micróbios das nascentes termais do Parque de Yellowstone, e os manifestantes querem conhecer suas cláusulas. Embora a tecnologia seja boa para extrair mais compostos da natureza, está trazendo consigo boas doses de polêmicas          

 

 

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Azeite do Amapá

 

A indústria Francesa Provence Résine fechou uma parceria com a Colaja (Cooperativa Extrativista do Laranjal do Jari), costurada pelo governador do Amapá, o zootecnista João Alberto Capiberibe (PSB), para produzir azeite de castanha extraída da floresta amazônica de maneira ecologicamente correta, sem destruição.   Em agosto de 1998 enbarcou para a fábrica da Provence, em Montpellier, no interior da França, um lote de 15 toneladas da amêndoa desidratada para ser transformada em 7,5 toneladas de azeite. Para chegar à mesa dos consumidores europeus e brasileiros em três meses, inicialmente para testes de mercado. Se tudo der certo a Colaja e a Provence instalam uma fábrica no Amapá no regime de joint venture.

 

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Pesquisa biotecnológica na Amazônia

 

Tem início o estudo da biodiversidade com fins econômicos   

 

O governo federal lançou em 3 de novembro de 19970, em Manaus (AM), a pedra fundamental do Centro de Biotecnologia da Amazônia, que será construído numa área de 24 mil metros quadrados dentro da Zona Franca de Manaus (ZFM). O centro faz parte do Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia (Probem), do Ministério do Meio Ambiente (MMA), e tem orçamento previsto para os próximos cinco anos de US$ 55 milhões.

O Centro vai se concentrar em pesquisas de prospecção para o aproveitamento industrial de curto e médio prazos dos recursos biológicos ainda não explorados na região Amazônica. Os laboratórios especializados a serem construídos, nos próximos cinco anos, estarão voltados para pesquisas nas áreas de germoplasmas, biologia molecular, fitoquímica, venenos animais e de interação inseto- planta e inseto- inseto. Eles estão vinculados à Rede Nacional Associada de Laboratórios.

O vice-presidente Marco Maciel, que participou da solenidade de descerramento simbólico da pedra fundamental das obras do Centro, disse que um pólo de bioindústria da Amazônia chega em boa hora para conter a biopirataria na região. Não há números disponíveis sobre suas ocorrências, mas o governo acredita que ela é imensurável face à biodiversidade da região. De acordo com o MMA, a Amazônia representa pelo menos a metade de todas as espécies de organismos dos planeta, cujo total no mundo é estimado entre 5,0 e 30,0 milhões, das quais 1,5 milhão já classificadas.

O futuro pólo bioindustrial da Amazônia estará localizado dentro da Zona Franca de Manaus por questões estratégicas. A idéia do governo é de que, à medida que as pesquisas se desenvolvem, o empresariado nacional e internacional passe a investir nas novas vocações econômicas descobertas pelo Centro de Biotecnologia da Amazônia, tais como novos produtos farmacêuticos, bioinseticidas, enzimas de interesse biotecnológico, óleos essenciais, polimentos desagradáveis, anti-oxidantes, corantes naturais e aromatizantes.

Segundo o secretário de coordenação da Amazônia do MMA, José Seixas Lourenço, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), enquanto agências de desenvolvimento regional, terão um papel decisivo nesse programa, em todas as suas fases. “A  Suframa dispõe de mecanismos fiscais que poderão ser amplamente utilizados para, a partir das atividades desse Centro, desenvolver um pólo bioindústria voltado para o aproveitamento racional dos recursos naturais da Amazônia”, disse.

O orçamento previsto para a implantação do Centro de US$ 55 milhões será aplicado em instalações físicas, equipamentos laboratoriais e recursos humanos. Uma fundação de direito privado, sem fins lucrativos, estará habilitada a obter financiamentos e doações, considerados pelo governo como necessários para o custeio do empreendimento. As atividades paralelas do Centro envolverão a criação de um banco de dados, estudos de mercado, captação de fundos, transferência de tecnologia, patentes e certificação de produtos.

O governador do Amazonas, Amazonino Mendes (PFL), disse que a construção de um pólo bioindustrial em Manaus abre um novo ciclo econômico na região. O primeiro, citou ele, foi o extrativismo, o segundo veio com a ZFM e o terceiro inicia agora com a busca e identificação das vocações econômicas de região. Para Amazonino, o modelo da ZFM serviu à região e ao País durante 30 anos, mas chegou o momento de reciclar e acompanhar o desenvolvimento econômico e tecnológico da era da globalização. Hoje, segundo ele, Manaus vive apoiada numa “economia artificial”, como ele definiu a ZFM.                   

      

 

 

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Senado vota lei contra pirataria genética

 

Projeto visa a evitar que a Amazônia continue a fornecer matéria-prima de graça para a indústria farmacêutica mundial

 

Um sapo amazônico é a mais nova estrela das Laboratórios Abbott, em Illinois (EUA). “E. tricolor” – diz a placa de identificação. Epipadobates tricolor, é o nome dele. Nos últimos  dias ajudou a multiplicar as perspectivas de lucro do Abbott, um dos gigantes mundiais do setor químico- farmacêutico. Cientistas do grupo anunciaram a revista Science, a “bíblia” dos pesquisadores norte-americanos, a síntese de um novo composto (ABT-694) a partir de uma toxina extraída da pele desse sapo amazônico.

Descreveram o E. tricolor como a chave da porta para toda uma nova geração de analgésicos, do tipo inibidor da dor crônica e sem os efeitos colaterais característicos dos derivados do ópio (depressão respiratória, constipação e dependência química). A nova droga é duzentas vezes mais potente que a morfina, a rainha secular dos analgésicos.

A “ajuda” do sapo amazônica ao Abbott vai muito além do tubo de ensaio. Ele deu ao grupo vantagem estratégica sobre a concorrência, que há pelo menos uma década mantém pesquisadores no oeste da Amazônia caçando sapos e catalogando suas secreções. Apostavam na pele de P. bicolor, ou Phyllomedusa bicolor, coletado em áreas indígenas na fronteira do Brasil com o Peru.

Nessa milionária disputa da indústria farmacêutica mundial, o Abbott saiu no frente: registrou a patente do analgésico. É um novo caso de multiplicação de lucros privados a partir da exploração do patrimônio genético da floresta Amazônica, onde matéria-prima é grátis.

Mas o Senado indica que assim será mas por pouco tempo. Prevê para breve a votação da Lei da Biodiversidade, que estabelece instrumentos de controle do acesso, no país, aos recursos biológicos e seus derivados. O governo pretende que o projeto seja votado pela Câmara .

Com a lei, todos recursos genéticos disponíveis no País e o conhecimento a eles associados – incluindo o das populações indígenas – são classificados como bem públicos “de uso especial”. Para efeitos jurídicos e econômicos passam a ser tratados como mercadoria, a exemplo do petróleo, da soja ou de um analgésico. “É, com certeza, a legislação autoral mais importante depois da Lei de Patentes” – definiu o ministro do Meio Ambiente , Gustavo Krause (PFL).

O projeto vem sendo maturado a meia década, como sucedâneo da Convenção da Biodiversidade, assinada por 152 países durante reunião da ONU no Rio, em 1992. Esse acordo deu aos países detentores de reservas naturais com grande diversidade biológica a base jurídica internacional necessária à produção de suas próprias leis de controle do patrimônio genético. Mas, desde a Rio-92, os Estados Unidos evitam reconhecê-la: nos EUA estão os principais centros mundiais de pesquisas genéticas.

A proposta inicial nasceu pelas mãos da senadora Marina Silva (PT). Foi modificada numa longa negociação entre o governo , o Senado e quase uma centena de organizações não- governamentais. Mas as empresas e suas entidades mantiveram-se à margem. “Não apareceram nem mesmo nas inúmeras audiências públicas”, nota a senadora, acrescentando: “Talvez achem que o texto negociado foi bem adequado às suas necessidades”.

Na vida real, o motivo é outro. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Abifarma), os interesses das empresas em operação no Brasil ainda se concentram na reprodução dos processos já conhecidos síntese químico- farmacêutica.

Só a poucos meses a Abifarma começou a avaliar o potencial do mercado brasileiro para negócios nas áreas de farmacologia, genética e biotecnologia. Analisam-se parcerias entre universidades e empresas locais, subsidiárias de transnacionais. No alvo, a produção de vacinas.

Efeitos da divisão internacional do mercado. Pesquisa e desenvolvimento de tecnologia ficam nos laboratórios centrais, situados no exterior. Já a reprodução dos processos industriais patenteados é operação regionalizada.

Assim, a reserva genética tropical se mantém como uma grande mina biológica, cuja prospeção é tarefa dos centros de pesquisas estabelecidos nos Estados Unidos, Europa e Japão. Nela estão disponíveis mais de 55 mil espécies de plantas, 428 diferentes mamíferos e, pelo menos, 1,6 mil aves, como atesta o World Conservation Monitoring Center no seu catálogo biológico mundial.

Nesse reservatório de genes, florescem oportunidades. O químico Conrad Gorinsky percebeu. Viveu duas décadas em Roraima, cuja fronteira norte é povoada pelos índios Wapixana. Há algum tempo Gorinsky trocou Boa Vista por Londres, onde chegou à presidência da Fundação para a Etnobiologia.                

No final do ano de 1997, conseguiu do Escritório Europeu de Patentes o direito de propriedade intelectual, em escala mundial, sobre dois compostos farmacológicos originários de plantas da Amazônia, cujos usos pertencem à tradição dos Wapixana: o anticoncepcional Rupununine, extrato de sementes do arbusto Biruru, ou Octotea rodioei (patente EP 610060), e o estimulante do sistema nervoso Cunaniol, extraído do Cunani, ou Clibadium sylvestre (patente EP 610059).

Dono dos direitos de exploração dos compostos farmacológicos, Gorinsky montou a BioLink em parceria com o grupo canadense Geenlight. Desde novembro negocia a produção comercial com Glaxo e Zêneca, dois gigantes mundiais da químico- farmacêutica.

Uma investigação do Senado,  sobre casos de biopirataria demostrou que o certificado emitido pelo Escritório Europeu de Patentes explicita o uso tradicional do Rupununine pelos Wapixana como contraceptivo oral. É aplicável, também, no controle de tumores em processos de câncer e AIDS. Já o cunaniol é eficaz como anestésicos nas cirurgias em que é necessário a paralisação do sistema cardíaco.

Plantas, animais, grupos humanos geograficamente isolados, ou de maior homogeneidade genética, estão no alvo central das empresas especializadas em biotecnologia. Há razões econômicas muito objetivas. No mercado norte-americano os direitos sobre um único gene útil para pesquisas sobre obesidade têm sido negociados por US$ 70 milhões, na média.      

O potencial de lucro levou o grupo Axys Pharmaceuticals à região serrana do Rio de Janeiro. Desde outubro de 1997, uma família de Petrópolis, com 170 pessoas de ascendência suíça, compõe o grupo de cobaias da sua pesquisa de isolamento do gene da asma.

Entre os coordenadores do projeto está o geneticista gaúcho Noé Zamel, do Instituto de Pesquisas Lunnenfield, vinculado ao Hospital Mount Sinai, da Universidade de Toronto (Canadá). A Axys é uma espécie de consórcio de bioprospecção de 11 dos maiores laboratórios privados do planeta, todos envolvidos na investigação genética da obesidade, osteoporose e esquizofrenia.

A lei que o Senado está preparando tende a mudar a forma de operação dos laboratórios no mercado brasileiro. Ela não apenas define a biopirataria como crime. Também cria mecanismos de contratação, pelas empresas, do acesso aos recursos genéticos disponíveis e aos conhecimentos a eles associados. Plantas, animais e genes humanos passam a ser caracterizados como mercadoria de valor estratégico. Como já acontece na vida real.      

 

Empresas aguardam novo texto

 

Regulamentação muda a prospecção do material genético da Amazônia

 

Algumas empresas decidiram suspender investimentos no Brasil até que o Congresso edite a Lei da Biodiversidade. É o caso da Shaman Pharmaceuticals, da Califórnia, especializada em bioprospecção em áreas indígenas, que já classificou mais de sete mil espécies de plantas amazônicas.

Quatro anos atrás, a Shaman conseguiu a patente do princípio ativo de uma planta conhecida como Sangue de Drago. Nós catálogos de botânica essa planta leva o nome de Croton lechieri. O gênero é comum no Peru, Equador e Brasil, onde é encontrada em matas secundárias, nas zonas úmidas e alagadas. Índios de diferentes tribos costumam usar seu látex como medicamento cicatrizante e anti-viral, aplicável nos casos de doenças pulmonares, herpes genital e holsten.

A Shaman registrou o princípio ativo da planta, um alcalóide chamado taspina, que não é sintetizável em laboratório mas somente extraído a partir do látex. Pretende empregá-lo, também, em medicamentos usados na terapia da diabetes e da diarréia associada ao vírus da AIDS. Sua estimativa é de um mercado potencial de 26 milhões de pessoas, apenas no continente americano.

Como as reservas naturais da planta estão abaixo da linha do Equador, a Shaman projetou uma vasta plantação de Croton no Mato Grosso, para abastecer seu laboratório californiano. Chegou a treinar índios da região nos métodos de extração do látex, aperfeiçoados a partir da técnica tribal.

No final do ano de 1997, optou pelo recuo no empreendimento até a aprovação da lei pelos congressistas. Do  projeto da senadora Marina Silva (PT-AC) . A empresa comunicou sua decisão à comissão parlamentar que investigou casos de biopirataria no País. Aparentemente, preferiu o custo da espera, diante de potenciais riscos numa atividade ainda sem lei, onde a pirataria prevalece. Manteve coerência com seu método singular de operação nas áreas indígenas, que tangecia os princípios da Convenção da Biodiversidade.

Ao contrário da maioria, que simplesmente se apropria dos recursos genéticos e conhecimentos associados, a Shaman mantém uma fundação para distribuir às tribos envolvidas os benefícios econômicos resultantes de suas pesquisas. Mas retém a propriedade intelectual integral sobre os medicamentos que produz. E não vincula as atividades da sua fundação com as das quais extrai os conhecimentos que lhe permitem chegar a novas drogas.

A lei em preparação no Senado prevê um mecanismo jurídico novo para tais casos. É o “Contrato de Acesso”. Ele fixa as condições de acesso e posterior utilização dos recursos genéticos, seus derivados e o conhecimento a eles associados, “para fins de pesquisa, desenvolvimento, difusão, conservação ou aproveitamento comercial”.

É uma situação diferente daquela em que se meteu uma outra empresa da Califórnia, a International Plant Medicine Corporation. Ela patenteou um cipó amazônico de propriedades terapêuticas e efeitos alucinógenos usados em cerimônias religiosas por mais de 300 tribos da Amazônia. É como se os índios requeressem a patente da hóstia usadas nas missas católicas ou do processo kosher que os judeus adotam na purificação de seus alimentos.

A planta é usada como Oasca, da lado brasileiro, ou Ayahuasca, do lado hispânico da Amazônia. Os catálogos de botânica identificam como Banisteriopsis caapi.seitas como o Santo Daime, desde a década de30, distribuem aos fiéis na forma de chá como sacramento nos seus ritos de “purificação”. O presidente da International Plant, Loren Miller, acabou sendo declarado “inimigo” pelo Conselho de Organizações Indígenas da Amazônia, com sede em Quito (Equador), que representa interesses de tribos de nove países da região.

O conselho decidiu: “Proíbe-se a sua entrada e a de qualquer funcionário ou técnico da IPMC em qualquer comunidade indígena amazônica, sem responsabilidade pelas conseqüências para sua integridade física” – anunciou a entidade em comunicado, ao mesmo tempo em que recorreu aos tribunais dos Estados Unidos para anular a patente.

Um dos aspectos centrais dessa fragilidade exposta pelo Brasil no domínio de seus recursos genéticos é a rarefeita atividade de pesquisa científica nacional na Amazônia. Há uma lei de proteção da biodiversidade a caminho, mas o País continua sem ter na área - alvo o mínimo necessário de pessoal qualificado.

Com cinco milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia tem apenas 500 doutores. Significa um para cada 10 mil quilômetros quadrados, área que para ser vasculhada, na média de 68,5 hectares por dia, consumiria 40 anos de trabalho ininterrupto de qualquer pesquisador. Além disso, não há sequer uma política de investimento de recursos públicos em pesquisa e desenvolvimento na região. O Norte brasileiro tem 7% da população do Brasil, recebe 2,09% das bolsas de estudo e 2% dos recursos destinados à Ciência pelos cofres públicos. Já o Sudeste concentra: tem 43% da população, recebe 62,9% das bolsas e 67% dos recursos para pesquisa científica.

A maior empreitada de pesquisa na floresta tropical continua sendo o acordo do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA) com o Smithonian, dos Estados Unidos, em pastagens na bacia do Juruá, a 70 quilômetros de Manaus. Um de seus articuladores é Thomas Lovejoy, assessor especial da Casa Branca.

O projeto, em operação há 20 anos, foi tema de estudo de um analista de Ciência e Tecnologia do INPA, William Nazaré Gama. Ele notou que raras são as publicações das dezenas cientistas estrangeiros envolvidos no empreendimento, financiado por empresas privadas (Citibank e McDonald’s, entre outros). Os resultados das pesquisas são retidos, a pretexto da proteção da propriedade intelectual. Gama constatou, também, que a área tornou-se base de exportação legalizada de plantas, anfíbios e mamíferos para centros de bioprospecção e universidades agregadas ao Smithonian.

O governo federal  organizou a montagem de mega-laboratório de pesquisas na Amazônia. O plano está avançado. A burocracia deu-lhe um nome quilométrico: “Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia”. O Probem, como é chamado na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, despertou interesse imediato de uma dezena de instituições científicas nacionais e quase uma centena de organizações estrangeiras.

Prevê a construção de um conjunto de cinco laboratórios, em Manaus para pesquisas em :

. Germoplasmas - com sistemas de criogenia para conservação de tecidos e catálogos de genes;

. Biologia Molecular – com estrutura de isolamento, caracterização e sequenciamento de DNA e RNA; clonagem, cultura de células e/ou tecidos; microscopia eletrônica de transmissão e varredura;

. Fitoquímica – com infraestrutura de extração e purificação de moléculas orgânicas de baixo peso; base de espectroscopia e síntese orgânica;

. Venenos Animais – com sistemas de purificação para microgramas e nanogramas; bioensaio de farmacologia básica e de ensaios “in vivo”;

. Interação Inseto-Planta – com estrutura de micro-caracterização de moléculas orgânicas de baixo peso, sobretudo as de natureza volátil; sistemas de baixas temperatura e de síntese orgânica.

 

O projeto do mega - laboratório e a Lei da Biodiversidade, são conseqüências da dinâmica de um mercado novo, no qual 1,5 mil empresas norte-americanas de biotecnologia têm somado lucros superiores a US$ 10 bilhões ao ano. Quatro em cada 10 novos medicamentos que têm lançado contêm substâncias ativas derivadas de plantas típicas de florestas tropicais. A Amazônica é a maior delas.

 

Negócios na selva

(Mercado livre de material genético no Brasil multiplica lucros de empresas e laboratórios) 

 

BioLink

Fundação para Etnobiologia  

Sementes de Biruru e Cunani

 

O químico Conrad Gorinsky, presidente da fundação para Etnobiologia, de Londres, conseguiu do Escritório de Patentes Europeu o direito de propriedade intelectual em escala mundial sobre dois compostos farmacológicos originários de plantas da Amazônia, cujos usos pertencem à tradição dos índios Wapixana, de Roraima. Tratam-se das patentes EP 610060, para o Rupununine (extraída de sementes do Biruru ou Octotea rodioei), e EP 610059, para o Cunaniol (extraída da Cunani, ou Clibadium sylvestre). O Rupununine tem aplicações anticoncepcionais. O Cunaniol é estimulante do sistema nervoso. A empresa BioLink, sociedade de Gorinsky com o grupo canadense Geenlight, tornou-se a dona dessas patentes e negocia a produção em escala comercial com os laboratórios Glaxo e Zêneca, gigantes a químico-farmacêutica.  

 

Axys Pharmaceuticals

Gene da asma

Sua pesquisa para isolar o gene da asma tem como cobaias uma família de cerca de 170 pessoas, de ascendência suíça, que vivem na região de Petrópolis, no Rio de Janeiro. A pesquisa, em diferentes comunidades nos cinco continentes, foi iniciada pela Sequena Therapeutics, que apostou US$ 70 milhões. A Sequana está se unindo à Arris Pharmaceuticals, da Califórnia. Da fusão, negócio de US$ 160 milhões, nasce a Axys Pharmaceuticals, voltada para prospecção de genes da asma, da obesidade, da osteoporose , da esquizofrenia e da maníaco-depressão. Os sócios na empreitada são a Boehringer Inghelheim (Alemanha), Glaxo-Welcome (Reino unido), Novartis (Suíça), Merck  (Estados Unidos), Bayer (Alemanha), Pharmacia & Upjohn (Suécia), Amgen (Estados Unidos), Abbott (Estados Unidos), Warner-Lambert (Estados Unidos), SmithKline Beecham ( Estados Unidos), e Hoffman-Roche  (Suíça).

 

Johnson & Johnson

Produtos florestais em geral

 

Mantém acordo de pesquisa com Faculdade de Farmácia de Ribeirão Preto (SP). Propôs acordo idêntico à Universidade do Amazonas, que recusou que todos direitos de publicação, patente ou de processos industriais desenvolvidos a partir das pesquisas passariam a ser de propriedade da Johnson.         

 

Couro Vegetal da Amazônia S.A

Látex

 

O empresário carioca João Augusto de Andrade Fortes tornou-se o único proprietário da patente de invenção do “couro vegetal”, originalmente desenvolvido pelos seringueiros do Acre. A patente foi concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), sob o número PI94029083, classificação internacional sob o código D06N003/000. É um caso raro de empresa privada que, a partir de uma tecnologia tradicional, conseguiu reunir uma grande quantidade de parceiros, tanto governamentais como não -     governamentais, na produção, aperfeiçoamento e comercialização de um produto tipicamente amazônico. E, no final, ainda ficou com todos os direitos de propriedade. O couro vegetal é vendido com marca registrada (Treetap). Tem aplicação crescente em produtos do Greenpeace, Depp & C.O, Rainforest Action Network, entre outros. Desde o ano de 1997, quando seu registro de patente do processo indígena tornou-se público, Fortes passou a enfrentar problemas com organizações ambientais.

 

Shaman Farmaceuticals

Croton ou Sangue-de-Drago, planta

 

Essa empresa da Califórnia (EUA) já estudou e catalogou sete mil plantas típicas da floresta Amazônica com potencial de aplicação na indústria químico- farmacêutica. Deteve-se na espécie sangue- de- drago, ou Croton Iechieri, para produção de remédios usados no tratamento de doenças pulmonares, herpes genital e holsten, entre outras. Dedica-se, também, a testes com princípios ativos aplicáveis em medicamentos para terapias de seqüelas da AIDS, como a diarréia e diabetes. A estimativa da Shaman Phamaceuticals é que este remédio tem um público potencial de 26 milhões de pessoas no continente americano. A empresa estava montando uma área específica para cultivo do cróton no Mato Grosso, resolveu esperar a aprovação da Lei da Biodiversidade pelo Congresso.

 

Dow Chemical

Bristol Labs

Warner-Lambert / Park Davis

Microorganismos

 

Os balcões da American Type Culture Collection (ATCC) exibem microorganismos patenteados pôr esses laboratórios, depois de coletados na Amazônia. São vendidos ao preço médio de US$ 500,00 a cultura.

 

Genes de índios

 

Realizam pesquisas e venda de culturas células, amostras e coleções de DNA de índios brasileiros, como os das tribos Karitiana e Suruí, de Rondônia. Índios Karitiana e Suruí, de Rondônia, tiveram sangue coletado para compor banco de DNA da Coriell Cell Repositories, que vende até pela Internet (US$ 5,00 a cultura).

 

Bem & Jerry’s

Frutas amazônicas

 

Há sete anos mantém no mercado norte-americano o “Rainforest Crunch”, um sorvete crocante “da floresta tropical”. O sorvete é o carro-chefe da empresa. Custa mais caro do que a maioria dos similares porque, supostamente, é um produto “politicamente correto”. Ben & Jerry’s, de Vermont (EUA), lucrou US$ 4 milhões em 1996. Só cm sorvete.

 

Tawaia S.A

Exportação de sementes

 

Essa empresa de Cruzeiro do Sul (AC) especializou-se na exportação de sementes amazônicas. Exporta cerca de 600 quilos anuais de sementes dos mais variados tipos: amarelinha, aricuri, bálsamo, canfista, cedro branco, copaiba, jarina, limãozinho, manixi-da-terra-alta, manixi-da-várzea, marfim, mógno, mulateiro, mulungu, mutumba-mel, mutumba-voadora, orelha-de-negro, pãma, patoá, tanimbuca, entre outras.

 

Nikko Chemicals Co. Ltd.

Carjuru e Andiroba

 

Essa empresa japonesa está pesquisando extratos de Carjuru (Arbidaea chica) e Andiroba (meliaceae), entre outras espécies amazônicas, para uso na produção de cosméticos.

 

Aveda Cosméticos

Jenipapo e Urucum

 

Essa empresa de Rio Branco (AC) vem negociando com comunidades indígenas a extração do pigmento azul do jenipapo bem como o fornecimento e o processamento do urucum para aplicação na formulação de cosméticos. Os índios Yawanawa, no Acre foram os primeiros a fazer um acordo com a Aveda. Teriam recebido US$ 150 mil pôr seu trabalho no fornecimento de urucum. Já os índios Guarani-Kayowa, do Mato Grosso do Sul, teriam obtido US$ 51 mil dólares na extração do azul do jenipapo.

 

Fox Chase Cancer Center

Quebra-Pedra, planta

 

A Fox, da Filadélfia (EUA) registrou a patente da planta Phyllantus niruri Linn, do gênero filanto, conhecida como Quebra-Pedra, que tem aplicações terapêuticas específicas contra a hepatite B. Esse gênero de planta é comum na Amazônia. Suas qualidades terápicas sobre complicações hepáticas e renais há muito são conhecidas de índios e cablocos amzônicos que a chamam de Quebra-Pedra, numa alusão aos seus efeitos no tratamento de “pedras” nos rins. A ação específica da Quebra-Pedra contra a hepatite B, da mesma forma, há bastante tempo é reconhecida na área científica.

 

Phyto Pharmaceuticals Inc.

Produtos Farmacêuticos Siemens

Universidade de Roma, Instituto de Farmacologia Médica

Plantas e animais

 

A Phytos habitualmente convida cientistas do Brasil, China e Tailândia para “colaboração em pesquisa”. Oferece “treinamento adicional” em seus laboratórios para classificação de plantas e preparação de extratos certificados. Vende cerca de 20 mil extratos ao ano. A Siemens mandou carta a pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia propondo “colaboração em pesquisa” com seus laboratórios na Itália, nas quais especifica até mesmo a transportadora a ser usada para remessas do material coletado. Já o Instituto de Farmacologia Médica da Universidade de Roma fez propostas formais de pagamento ( em dólares, valor a ser escolhido pelo pesquisador) a cientistas brasileiros por coletas e remessas de peles das rãs das espécies Phyllomedusinae bicolor  Phyllomedusinae palliata e tomopitera, fontes primárias de analgésicos muito mais potentes que a morfina e com menores efeitos colaterais.

 

International Plant Medicine Corp.

Oasca, planta

 

A IMC tem sede na Califórnia e patenteou uma planta tropical considerada sagrada, usada há pelo menos quatro séculos em rituais religiosos por mais de 300 tribos indígenas da Amazônia. Ela se chama Oasca (Ayahuasca, em espanhol), ou Banisteriopsis caapi. É um cipó amazônico com propriedades terapêuticas, de efeitos alucinógenos. Seitas como o Santo Daime, desde a década de 30, distribuem aos fiéis na forma de chá como sacramento durante os rituais de “purificação”. Loren Miller, presidente da IMP, foi publicamente declarado “inimigo” pelo Conselhos de Organizações Indígenas da Amazônia, com sede em Quito (Equador), que representa interesses de tribos de noves países da região amazônica.                        

                                     

         

CIÊNCIA - Pesquisas  

 

 

G-7 vai liberar mais verbas para meio ambiente   

Novos recursos para financiar projetos voltados para o ecoturismo e  novas pesquisas genéticas na região Amazônica e na Mata Atlântica

 

O G-7, grupo dos países mais ricos do mundo, anunciou , em Manaus (AM), a disposição de liberar mais US$ 89 milhões ao governo brasileiro para continuidade do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil ( PPG-7). Os novos recursos anunciados garantem a transição para a segunda fase do programa, prevista para ser iniciada no ano 2000.

O anúncio foi feito durante entrevista coletiva pelos embaixadores do G-7 que estiveram reunidos com o governo brasileiro para a avaliação e definição de novas estratégias para viabilizar o PPG-7. O embaixador da Alemanha no G-7, Fritz Fischer, anunciou que o seu país vai liberar mais US$ 36 milhões para projetos na Amazônia Legal e Mata Atlântica nos próximos dois anos. A Alemanha, individualmente e através do Rain Forest Trust Fund, do Banco Mundial ,já financiou 60% dos recursos que sustentaram a primeira fase do projeto.   

Apesar de a Alemanha ser o país que mais contribuiu para o PPG-7, o embaixador Fritz Fischer disse que o país vai continuar investindo nas florestas tropicais brasileiras. Ele disse que a Alemanha se orgulha de estar assumindo a liderança do PPG-7 em termos de liberação de recursos e relembrou que a mesma posição foi tomada depois da Segunda Guerra Mundial, pelos Estados Unidos, quando financiou a reconstrução da Europa através do Plano Marshall.

No bolo dos US$ 89 milhões, a União Européia ( EU ), que já participa no PPG-7 COM 92,9% do total de US$ 197,5 milhões comprometidos no programa, vai liberar mais um milhão de ecus ( equivalentes US$ 1,150 milhão ) para estimular projetos nos quais o setor privado, nacional e internacional possa se envolver com o PPG-7. Os novos recursos vão financiar especialmente projetos voltados para o ecoturismo e para pesquisas genéticas na região Amazônica e na Mata Atlântica.

A União Européia também recebeu até janeiro de 1998 a proposta de quatro novos projetos do PPG-7, nas áreas de extrativismo, ciência e tecnologia, monitoração de queimadas e preservação de parques e florestas, para poder tratar da liberação de outros  US$ 25 milhões. Os recursos já estão comprometidos, mas segundo o conselheiro para a Cooperação de Desenvolvimento Ambiental da EU, José Vasconcelos, o dinheiro só será liberado depois da aprovação dos projetos finais.

O embaixador da EU, Christoph Bail, reclamou que 93% do PPG-7 vem sendo financiado pelos países europeus e pediu uma maior participação dos demais países do G-7 para que passem a se envolver com o programa mais efetivamente. “Não apenas os Estados Unidos, mas também a Ásia, como por exemplo o Japão”. Bail observou que esses países têm investido comercialmente na Amazônia e contribuído, de certa forma, para a devastação da região, mas pouco têm feito para a preservação ambiental através do PPG-7.

O embaixador americano no G-7, Mark Schneider, ponderou que os Estados Unidos pretendem aumentar a contribuição financeira que têm dado até agora e ainda estão avaliando as áreas prioritárias de investimento. Ele anunciou que os Estados Unidos podem liberar US$ 25 milhões através da agência espacial americana Nasa para um projeto de monitoramento atmosférico na Amazônia e Mata Atlântica. Schneider também observou que com a vinda do presidente Bill Clinton ao Brasil, em outubro de 1997 US$ 10 milhões foram autorizados para o PPG-7, sendo US$2 milhões com a liberação  até dezembro . A França também anunciou novos investimentos de US$2 milhões para as florestas brasileiras.

 

CIÊNCIA                                 

 

Amazônia ganhará centro de  biotecnologia

  

 

Programa tenta atrair investidores para exploração da fauna e flora locais

 

O ministério do Meio Ambiente, Recursos Hídricos e  Amazônia Legal (MMA) publicou em agosto de 1998, em Manaus, no Amazonas, o edital de licitação para as obras do Centro de Biotecnologia da Amazônia - CBA, prevista para serem iniciada este ano. Resultado de um programa orçado em US$ 60 milhões, o centro deverá ser um dos maiores do mundo em biodiversidade. O CBA consolida a fórmula encontrada pelo Governo Federal para atrair investidores estrangeiros interessados na fabricação de medicamentos e cosméticos utilizado produtos da fauna e flora amazônica. Ao mesmo tempo, incentiva novas pesquisas em conjunto com a iniciativa privada, universidades e instituições diversas. O centro faz parte do programa Brasileiro da Biodiversidade da Amazônia - Probem. Do orçamento total do programa, US$ 14 milhões serão gastos na construção do centro. O restante está destinado à exploração da fauna e flora da região, coleta de materiais e manutenção dos laboratórios. O Probem, a princípio, será realizado em pareceria com oitenta grupos de pesquisa brasileiros além de oito universidades nacionais e 15 entidades estrangeiras - dos Estados Unidos, Japão e Europa. Mas espera aumentar essa quantidade de sócios. O documento que dá base à estrutura organizacional do empreendimento, assinado na última Quinta-feira pelo ministro do Meio Ambiente Gustavo Krause, estabelece a parceria entre as empresas e entidades interessadas através de contrato diversos. Como por exemplo, investimentos diretos através de "joit ventures" voltadas para projetos específicos ao desenvolvimento de produtos e tecnologias de ambas as partes. Cada entidade a integrar o CBA, de acordo com a legislação, terá seus direitos assegurados. Terá também de respeitar compromissos múltiplos envolvendo propriedade industrial, "royalties" e demais formas de participação nos resultados dos projetos. "Trata-se de uma nova oportunidade de investimento para a Amazônia em absoluta conciliação com a floresta", explica Krause. O trabalho dará prioridade ao uso de mão-de-obra local. Consiste, ainda, numa nova alternativa econômica para a região, além da Zona Franca. O coordenador do Probem, Wanderley Messias da Costa, assegura que as estimativas são bem positivas. Segundo dados do MMA, o mercado brasileiro de cosméticos e medicamentos movimentou, em 1996, US$ 18 bilhões. Desde, 25% são provenientes de produtos naturais. O Banco Mundial também prevê, através de um estudo recente, aumento na exportação de produtos agrícolas do País através da descoberta de novas espécies vegetais capazes de adaptação fácil em solos pobres e produção de biomassa em pouco espaço de tempo. O trabalho está sendo visto, ainda, como uma forma inteligente de se combater a biopirataria (extração clandestina de espécimes animais e vegetais). "Não podemos colocar a Amazônia numa redoma de vidro e proibir a exploração da floresta por parte dos estrangeiros. Queremos que esse pessoal passe a trabalhar conosco", disse Costa. O Tribunal de Contas da União também está como os olhos voltados para a região. Simultaneamente, os ministros aprovaram uma recomendação aos dirigentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) sobre a adoção de providências para uma política de meio ambiente mais eficiente na área, sugerido o aumento da fiscalização e revisão da tabela de preços de serviços, penalidades e licenças. (*Especial para a Gazeta Mercantil).

Mão-de-obra local terá prioridade na contratação. Será uma alternativa econômica à zona Franca de Manaus

   

 

CIÊNCIA      

 

Amazônia inspira a Rhône-Poulenc

 

 A Amazônia é uma das fontes de inovação para a indústria farmacêutica. A constatação é de Michel de Rosen, principal executivo da Rhône-Poulenc Rorer - braço farmacêutico norte-americano da francesa Rhône - Poulenc. Segundo ele, experiências com plantas amazônicas estão entre as prioridades de pesquisa da companhia. Aos 47 anos, o parisiense Rosen está entusiasmado com o sucesso do "p53", o modelo de terapia genética que pode chegar ao mercado ainda este ano para combater vários tipos de câncer. 

 

 

A Amazônia é fonte de inovação para a cura

A Amazônia é uma das fontes de inovação para a indústria farmacêutica global. A Rhône- Poulenc Rorer - braço farmacêutico americano da francesa Rhône- Poulenc - acredita nisso e já pesquisando na região há anos. Segundo o presidente do conselho e principal executivo da companhia, Michel de Rosen, entrevistado em sua sede em Collegeville, na Pensilvânia, experiências com plantas amazônicas estão entre as prioridades de pesquisa da companhia, junto com terapias genéticas. Aos 47 anos, o parisiense Rosen está entusiasmado com o sucesso do "p53", o modelo de terapia genética que pode chegar ao mercado ainda este ano para combater vários tipos de câncer, usando a substituição da célula do organismo humano que supervisiona e controla a subdivisão das outras células - e que está inoperante ou desaparecida em mais da metade dos casos de câncer. Nesta entrevista exclusiva, ele discute sua estratégia no comando da empresa; o processo de inovação na indústria farmacêutica; a consolidação dos negócios a nível global, e sua teoria dual sobre o crescimento das empresas com o método da fazenda e o do caçador; e o interesse da Rhône- Poulec Rorer pelo Brasil, onde a Rhône-Poulec controla também a Rhodia.

 

 Em entrevistas a imprensa especializada do seu setor, ele tem dito que existe a maneira de crescer do caçador (através de aquisições) e a do fazendeiro (interna), que a do caçador pode ser mais espetacular, porém é a do fazendeiro que dá mais frutos.

Michel de Rosen- explicou . São milhões de detalhes, sobre os quais cada empregado na companhia tem que fazer alguma coisa, dia após dia, hora após hora. Isso trás uma contribuição efetiva para a companhia, de baixo para cima. A maneira do caçador é uma decisão de cima para baixo, tomada pelo principal executivo e sua diretoria, e que de repente acontece através da compra de outra empresa. Numa fazenda, você tem desafios diários. Espera que o tempo seja bom, e ele ficam ruim, ou então o contrário. Você tem boas colheitas e más colheitas; os preços sobem e descem; há insetos, o gado fica doente. A diferença vem da qualidade do seu trabalho, e da capacidade de enfrentar os desafios esperados e inesperados.

 Nosso negócio é muito similar ao do fazendeiro. Nosso trabalho farmacêutico é trazer valor para o paciente. Em meu trabalho anterior, chefiando a divisão de fibras e polímeros da Rhône-Poulenc, eu viajei freqüentemente ao Brasil, onde a Rhodia produz nylon e poliéster. Estive em São Paulo e no Rio de Janeiro, em Cabo Frio. Se você tiver sucesso produzido fibras, o que vai acontecer? As roupas das damas serão mais elegantes. Nada mau, em termos de trazer valor para o cliente. Mas no negócio farmacêutico, o resultado é mais dramático. Você pode salvar vidas. Claro que ninguém é mortal, e que todos morremos um dia; mas você pode acrescenta um, dois, vários anos de vida ás pessoas com o remédio adequado. Ou você pode mudar a qualidade de vida.

 Se você olhar a história das drogas que fizeram sucesso, tanto na nossa companhia como nas outras, parece que era óbvio. Mas de fato, não apenas demora muitos anos até desenvolver uma nova droga, como envolve muitos, muitos desafios entre a descoberta e a venda no mercado. Vou lhe dar um exemplo. Nosso remédio que mais vende é o Lovenox/ Clexane, que nós vendemos no Brasil e em muitos países do mundo, usado inicialmente para prevenir tromboses profundas nas veias. Esperamos receber em breve sua aprovação para uso também contra angina. Em 1983, a Rhône Poulenc adquiri uma empresa na França que tinha esse projeto na linha de montagem, sob o codinome PK10169. Eu me tornei gerente dessa companhia. No ano seguinte, fizemos uma reunião para avaliar o projeto, e convidei o autor da idéia original. Após algumas horas de conversas, o próprio autor da idéia nos disse para encerrar o projeto. Seus argumentos: é muito difícil de fabricar, as necessidades médicas são obscuras, os testes clínicos serão muitos difíceis de organizar. Ele foi embora, e nos deixou pálidos e deprimidos. Eu era um jovem, mas decidi continuar. Desde então, tivemos que superar muitos obstáculos, mostrar porque este remédio é melhor que os competidores, levar os pacientes médicos a entendê-lo e os pacientes a aceita-los.

 Este remédio vende hoje meio bilhão de dólares por ano. É o nosso primeiro candidato a campeão de vendas capaz de fazer um bilhão por ano. Mas de fato também temos o fracassos. Com Lovenox/Clexane, os testes foram realizados em porcos, porque é baseado numa enzima desse animal. Tínhamos grande esperança em prolongar a vida de pacientes com esquizofrenia, usando uma nova droga que estava em nossa linha de montagem. Havia boas razões científicas que nos levaram a pensar assim. Ela passou bem pela fase um. Mas chegou na fase dois, sua eficácia não se mostrou forte o suficiente. Tivemos que abandoná-la. É difícil para o nosso pessoal, que passou dias e noites, meses e anos, acalentando o projeto que tivemos de abortar.

 A questão-chave para criar valor para o acionista é inovação . Se você apenas copia drogas de concorrentes, qualquer um pode fazer isso. Cada projeto emprega milhares de pessoas em pesquisa, toxicologia, clínica, manufatura, aspectos legais, distribuição, finanças, comunicações e marketing por anos.

 Nosso atual presidente do conselho na França decidiu que a Rhône-Poulenc tem que ser mais global. Ele herdou uma empresa que era forte na França, forte no Brasil, forte no Reino Unido, mas fraca no resto do mundo. Seu objetivo inicial foi o de fortalecê-la na América do Norte e na Ásia. A empresa que ele recebeu para administrar era também muito centralizada, com muitas decisões tomadas no centro. A idéia hoje na Rhône-Poulenc é que a melhor maneira de ser eficiente e competitivo está na descentralização. Os negócios farmacêutico e de fibras são mais independentes agora. O terceiro ponto é que nós tínhamos 130 diferentes áreas de atuação, hoje reduzimos nossa atuação para 32 - com a decisão de ver no segmento farmacêutico a mais promissora delas. Em alguns países, nossa presença era muito pequena para crescermos internamente. Por isso, aquisições aconteceram em vários países, inclusive na Alemanha e aqui nos EUA. A companhia que opero tornou-se global.

Não é a nossa prioridade hoje, embora possamos voltar a adquirir algum dia. Ao contrário de outras empresas do setor, nós não necessitamos desesperadamente de uma transação. Temos uma presença global, uma boa organização, pessoas talentos e uma linha de montagem promissora, com experimentos em estágios diferentes. Se  algum dia aparecer uma complementação com outra companhia que nos torne mais inovadores, mais competitivos, mais forte, sim, poderemos estudar um acordo.

 O raciocínio é o de que não podemos estar em todos os lugares, vamos então escolher as áreas em que temos pontos fortes. Mas eu posso lhe antecipar que isso vai mudar. Quando nos encontrarmos de novo, digamos, daqui há cinco anos, tenho certeza de que algumas das áreas em que somos fortes hoje ainda estarão lá, mas outras vão mudar. Porque a estratégia no ramo farmacêutico tem que ser flexível. Vou lhe dar um exemplo. Cinco anos atrás, nós já tínhamos Lovelox, mas não dispúnhamos de idéias interessantes na área cardiovascular. Desde então, fizemos um grande esforço, colocamos muita gente em pesquisa, e hoje temos compostos muito promissores na linha de montagem para doenças cardiovasculares. Cinco anos atrás, nosso foco estava em trombose; hoje está nesses dois campos; em um ou dois anos, cardiologia pode de tornar o nosso principal foco. Outro exemplo: o sistema nervoso central da era a principal área da Rhône-Poulenc nas décadas de 1950 e 1960. Ainda temos bons produtos, Rilutek é um exemplo no combate à degeneração muscular. Se dois ou três compostos promissores emergirem no futuro, esta área pode se tornar importante outra vez para nós.

Vacinas demonstram porque a estratégia precisa ser flexível. Dez anos atrás, o mercado de vacinas era muito limitado no mundo dos cuidados com a saúde. Desde então, tem crescido mais que o resto da indústria farmacêutica. O mercado farmacêutico global está crescendo entre 6% e 7% ao ano; o mercado de vacinas está crescendo entre10% e 12%. E nós acreditamos que, dentro de poucos anos, no máximo até o ano 2005, o mercado de vacinas estará crescendo de 20% a 25% ao ano. Investimos em vacinas, porque é um mercado promissor.

 Na indústria farmacêutica, durante as décadas de 1950 e 1960, a busca de remédios naturais a partir das plantas foi muito popular. Nas décadas de 1970 e 1980, esse veio ficou menos popular, visto como algo do passado. Agora era a vez dos químicos e biólogos. Mas estamos voltando à idéia de que os recursos naturais podem ser de grande valia para ajudar-nos a inventar novas drogas. Não apenas dos compostos florestais, mas também de recursos marítimos - dos peixes, para ser mais específico. Como você sabe, estamos há muito tempo no Brasil. É um país muito importante para nós, do qual gostamos, mas também e um país no qual acreditamos, que está atravessando um  período positivo, e tem uma grande população. Há vários anos estamos pesquisando o que pode ser feito para usar o recursos florestais no desenvolvimento de novas drogas no Brasil. No ano passado, assinamos um contrato com uma empresa australiana, Amrad, especializada em analisar plantas para vendê-las a empresas farmacêuticas. A Austrália é um país interessante por estar cercado de água, então sua flora é diferente, não sofre contaminação.

Eu acredito que os recursos da Amazônia estão sub-utilizados. Haverá novas fontes de inovação farmacêutica surgindo de lá dentro de poucos anos. De fato, no ano passado, nomeei um novo chefe de pesquisas, e um dos objetivos - não é o único, mas é uma das prioridades - nessa escolha justamente envolve o estudo do que pode ser feito para explorar os recursos amazônicos e gerar inovações, porque temos uma presença no Brasil, é um país que conhecemos bem.

 Vejo como um dos caminhos. Deixe-me começar pelo passado. Nos negócios em geral, mas particularmente em nossa indústria, antecipar a tendência do futuro antes dos outros é fundamental. Algumas pessoas vêem a névoa, outras vêm o que está surgindo dentro da névoa como os mercados emergentes, as idéias emergentes. Algumas cientistas da Rhône-Poulenc identificaram, na metade da década passada, a terapia genética como uma fonte de inovação para o futuro. A empresa na época criou um instituto de biotecnologia, que fez muitas pesquisas para entender como o genes e as células funcionam, e o que pode ser feito para criar drogas que enfrentam doenças. Em 1993, criamos uma divisão específica, chamada Gencell, porque identificamos muitas oportunidades promissoras.

 A Gencell é um conjunto de idéias simples. Porque o assunto é muito sofisticado, se você apenas tem uma rede de colaboração, não funciona. É preciso Ter um grupo de pessoas muito qualificados internamente trabalhando no projeto. Ao mesmo tempo, como você precisa de muitas tecnologias diferentes, e essas tecnologias mudam tão rapidamente, que concluímos que só com os nossos recursos internos demoraríamos muito para progredir. Então fizemos parcerias com instituições acadêmicas, instituições de tratamento de saúde e investidores de risco para criar uma rede com tecnologias diferentes. Temos 18 parcerias pelo mundo, a maior parte nos EUA e na Europa. Basicamente, há duas abordagens distintas no desenvolvimento das terapias genéticas?

 Uma é chamada "ex-vivo". Eu tenho uma doença, sangue é retirado do meu sistema e colocado num laboratório para exames onde ele é tratado e depois reinserido no paciente. "In vivo" se fez diretamente, com o paciente num hospital. Fizemos experiências clínicas com as duas opções na época, e os especialistas acreditavam que o formato "ex vivo" era uma oportunidade de curto prazo, e "in vivo", de longo prazo. Isso se provocou errado. Estamos desapontados com o que se conseguiu "ex-vivo", mas entusiasmados com os resultados "in vivo". Hoje concentramos a maior parte dos esforços do Gencell na área de experiências "in vivo". O principal produto desenvolvido até agora é chamado "p53", a mais avançada tecnologia em terapia genética para combate ao câncer. Já fizermos três teste da primeira fase com ele, e vamos fase. Não é mais futurologia.

 Em mais de 50% dos casos de pacientes com câncer (especialmente em ocorrências no pescoço e na cabeça, grandes ocorrências no pulmão, ovário, pâncreas, seios, próstata, colo-recto e estômago, assim como nos linfomas e melanomas), o gene "p53"sofreu mutação ou foi destruído. Esse gene é o guardião do trabalho das células: ele confere as reproduções e, quando uma célula se reproduz com alteração, o "p53" ordena que a célula danificada interrompa suas divisões temporariamente até que o problema seja corrigido, ou determina seu suicídio. Sem o "p53" para fazer a revisão, células com mutações podem se multiplicar descontroladamente, provocando câncer. O que fazemos é introduzir genes "p53" normais dentro e em torno do tumor do paciente. Nas experiências que conduzimos, o novo gene "p53" pode restaurar as funções desse gene no paciente, seja mudando ou substituindo os "p53" originais. Já fizemos experiências com seres humanos. Temos esperança de registrar essa terapia genética ainda neste ano ou em 1999. Esta é a que está mais adiantada, mas temos outras terapias genéticas a caminho, também no curto prazo.

  Eu não quero chorar nem os nosso cientistas nem os órgãos regulamentadores do governo americano. O que eu posso dizer é que em alguns casos a terapia genética será usada sozinha, e em outras, junto com outras terapias contra o câncer. Nós já testamos seus resultados em alguns tipos de câncer, agora vamos testar em outros. Ano após a ano, temos visto mais e mais aplicações para a terapia genética. No câncer mais do que em outras doenças você tem que observar não apenas para a relação entre risco e resultados, mas também para a qualidade de vida. Alguns tratamentos funcionam contra o câncer, porém com efeitos colaterais profundamente desagradáveis: cirurgias, drogas que afetam também o fígado e radiação com perda de cabelos. Com a terapia genética, o combate se dá apenas na área afetada, minimizando efeitos.     

 

 Acho que há algo forte por trás dessa observação por duas razões. O que trás sucesso para uma empresa é a combinação de energia e criatividade. Sem energia, nada se move. Sem criatividade, você só repete o que os outros fazem, e aí serão Bill Gates e os outros que virão com inovações. Mas criatividade não cai do céu. Você precisa de idéias novas, e algumas vezes idéias novas também são erradas. Mas idéias novas emergem de pessoas pensando de modo diferente. Se todo mundo concorda, então você deve se preocupar. Às vezes você pode Ter uma idéia melhor olhando para fora, conversando com crianças, fazendo associações inesperadas. Não se trata apenas de trazer idéias financeiras para a indústria farmacêutica. O que eu não gosto hoje a respeito da minha própria vida é que não passo tempo suficiente do lado de fora, buscando idéias novas em outras áreas.

  Trabalho para que uma qualidade seja crítica para um tipo de tarefa, e outra qualidade para outra tarefa. O gerente geral de um país precisa ter algumas qualidades diferentes, por exemplo, do chefe de nosso setor de toxicologia. A Segunda é que para a maioria dos trabalhos as qualidades que procuro são as do nível de energia, a capacidade de mover as coisas para a frente; a abertura, porque algumas pessoas pensam que já sabem tudo; a capacidade de trabalhar com os outros de humor, que é um bom sinal; o rigor; o espírito do empresário, a capacidade de tomar decisões; e a especialização profissional. Eu mesmo sou um generalista, mas em comunicações, por exemplo, preciso de um especialista.

  Digo duas coisas. A empresa que uso como modelo, a que mais admiro na nossa indústria, é a Pfizer. Eles usam o modelo da fazenda. Acho que podemos ser uma outra Pfizer. Não se trata de uma grande decisão só; são muitos detalhes, cuidadosamente trabalhados, que passo a passo permitem que se cheguem lá. Já fizemos bastante, mas ainda estamos construindo a empresa globalmente; em troca, não estamos cuidando do que se fez no passado, e sim colocado desafios para o futuro. E o Brasil, eu tenho muita simpatia pelo Brasil e pelos brasileiros. Os brasileiros têm algo em comum com os americanos: são pessoas positivas. Nós, franceses, às vezes somos sérios demais, até deprimidos. O Brasil é um grande mercado de mais de US$ 10 bilhões, e Ter uma presença lá é importante para nós. Não só pelo nosso trabalho lá, mas também pelo que podemos fazer, exportando para outros países da região. Os brasileiros às vezes se subestimam. Temos muita gente boa trabalhando para nós lá.

 

CIÊNCIA - Pesquisas 

 

Ciência,Ecologia e Turismo

 

Esses três ingredientes juntos formam o centro de pesquisas Canguçu, que faz parte do projeto Seqüestro de Carbono, desenvolvido na Ilha do Bananal. E plena floresta amazônica, cerrado e pantanal; o centro, tipicamente construído em madeira, conta com modernas instalações projetadas pelo arquiteto Luís Hidelbrado Ferreira Paz. São quatro suítes, laboratórios, restaurante, cozinha, área de serviços e observação. O centro Canguçu (nome de uma onça da região) pode receber até 12 pessoas e dispõe de equipamentos de informática (inclusive internet), telefonia rural e outros materiais necessários à compilação de dados pesquisados. O projeto Seqüestro de Carbono é o primeiro resultados na América Latina (existem mais dois no Brasil), e deverá atrair pesquisadores de vários países, em função de estar localizado numa região que abriga três ecossistemas: floresta amazônica, cerrado e pantanal. Para os leigos no assunto vale explicar que seqüestro de carbono é um termo designado para o trabalho de contenção do acúmulo de Co2 (gás carbônico) na atmosfera e a conseqüente redução dos efeitos climáticos. O projeto se fundamenta em preservação e conservação ambiental. Ocorre que a grande quantidade de Co2 liberada na atmosfera funciona como uma grande cortina sobre, a Terra, bloqueando a saída da radiação quente para o espaço, isto provoca o efeito estufa. Estudos mostram que existem duas formas de reduzir a ação dos gases emitidos e a preservação das plantas que absorvem o gás carbônico durante a fotossíntese. É exatamente esse o propósito do projeto: promover a captura (o seqüestro) do gás carbônico, através do meio ambiente. Outra grande preocupação do projeto é reter desmatamentos e queimadas em áreas florestais. O seqüestro de carbono da  região da Ilha do Bananal é desenvolvimento pela Ecologia Planejamento e Desenvolvimento Ambiental, com financiamento da AES Barry, uma empresa de energia elétrica do País de Gales, na Grã-Bretanha. O projeto visa a conservação de 200 mil hectares de florestas na região, através de manejo, educação junto ã população local e pesquisa na região. "Nos do Tocantins temos a peculiaridade de transformar sonho em realidade", disse o diretor-executivo da Ecologia, Divaldo Rezende, ao inaugurar, dia 6 de agosto, o centro de pesquisas, às margens do rio Javaés, no município de Pium. A emoção do ambientalista, atuante no Estado desde o início da década de 90, foi compartilhada pelo governador Siqueira Campos, o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho e muitas e outras autoridades locais, nacionais e internacionais ao evento.

 

CIÊNCIA Pesquisas 

Cientistas iniciam check-up da Amazônia

 

Está prevista para este fim- de- semana em Brasília a chegada de um avião ER-2, da Nasa (agência espacial dos EUA), derivado do espião voador U-2. Ele vem em missão civil: iniciar o maior projeto científico internacional no Brasil. O ER-2, que voa a até 17 km de altura, é a estrela do Experimento de Grande Escala da Biosfera - Atmosfera na Amazônia. Mais conhecido pelo apelido inglês, LBA, o projeto vai consumir seis anos e mais de US$ 100 milhões. Com esse dinheiro, será possível utilizar aviões e satélites para esmiuçar ventos, nuvens e gases sobre a floresta. Estão também sendo montadas 15 torres com até 60 metros de altura, equipadas com sensores e instrumentos. O objetivo é fazer um check-up do metabolismo da Amazônia. Mais precisamente,como se dá a interação entre floresta e atmosfera. Metade da biomassa (madeira) das florestas tropicais fica estocada nela, o que torna uma gente global da mudança climática. A principal questão que o LBA deve ajudar a responder é se a Amazônia contribui para agravar o aquecimento global ou para mitigá-lo. Trata-se de saber se ela é um sumidouro ("Sink", em inglês) ou fonte líquida de carbono. Houve um tempo em que de acreditava que a floresta sul-americana era o "pulmão"do mundo. O mito, baseado só na fotossíntese, foi substituído pela idéia de equilíbrio. De noite, a respiração das plantas consumiria todo o oxigênio gerado durante o dia. Existem indícios de que os pratos dessa balança podem pender para um lado. Se emitir mais CO2 do que absorve, a floresta reforça o cobertor de gases que impede o planeta de perder calor (efeito estufa). Caso contrário, contrabalança as emissões mais graves, da queimada de combustíveis. Esse debate tomou as páginas das revistas científicas. Na "Nature"do último dia 17, americanos afirmaram que a Amazônia se torna fonte líquida de carbono nas épocas de El Niño, quando a falta de umidade inibe a fotossíntese. Brasileiros discordam, pois acham que o efeito do El Niño ocorrem até dois anos depois. Dois cientistas pretendem escrever à "Nature", questionando o artigo: Carlos Nobre, chefe do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTec/Inpe), e Niro Higuchi, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Não por acaso, Nobre e Higuchi estão entre os líderes e iniciadores do LBA. Eles esperam que o experimento os ajude a tirar a teima, assim como a melhorar a capacidade de realizar no país a parte nobre da ciência, interpretar dados e gerar modelos de previsão. Nobre, 47, afasta desconfianças nacionalistas contra o LBA: "A gente vai deixar sempre o valor agregado ser feito fora do Brasil, ou dentro dele? Colaboração é a melhor maneira de se aperfeiçoar. Conhecimento científico não tem dono, é público, está disponível também para o Brasil". Outro astro do experimento LBA é Paul Crutzen, Nobel de Química de 1995. Chefe do Instituto Max Plank de Química (Alemanha), é um dos pesos- pesados da ciência internacional atraídos pelos brasileiros. Crutzen deve seu Nobel a descobertas sobre a camada de ozônio. Por sinal, parte da investigação foi feita na Amazônia. Por sua extensão e complexidade, o ecossistema por equipes internacionais. No caso do LBA, dividem a conta três parceiros: Brasil, EUA e Europs (Reino Unido, Holanda, Alemanha, França e Itália). As entidades-âncora do projeto na área em estudo são: Inpa, de Manaus, Museu Goeldi, de Belém, Embrapa e Universidade Federal do Pará.

 

Avião só decola com supervisão

 

Até o final de fevereiro, cientistas do LBA em Brasília e Porto Velho farão todo dia telefônicas para decidir se o avião ER-2 decola da capital para fazer medições e observações sobre Rondônia. A decisão depende da previsão do tempo, em particular da presença das nuvens de chuva que se pretende estudar em detalhe. Só o ER-2 consegue observá-las de uma grande altitude (até 17 km). Caso se decidam pela decolagem, começa outro ritual, o da Segurança Nacional. Técnicos brasileiros vasculham o avião. A câmara de vídeo é selada. Normalmente, representantes do Brasil deveriam também embarcar. Mas o ER-2 é um avião não- pressurizado com espaço só para o piloto, que voa com traje especial. É o mesmo sistema do U-2, que protagonizou em maio de 1960 crise mais séria. Em plena Guerra Fria, um U-2 caiu na então URSS. Uma das dificuldades para fazer o LBA sair do papel estava no envolvimento de outro países, o fantasma da internacionalização" da Amazônia. Chegou-se a considerar a hipótese de submeter o projeto à aprovação do Congresso, o que o adiaria por meses, ou anos. Outra fonte de resistências no governo decorreu de uma suposta  superposição do LBA com o módulo ambiental do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia). Concluiu-se que não há competição, mas sim complementação entre os projetos. O LBA vai inclusive usar dados do Sivam - quando eles começaram a ser coletados. (ML).

Um estetoscópia gigante

 

Conheça a estratégia e os instrumentos do Experimento de Grande Escala da Biosfera - Atmosfera na Amazônia (LBA)

 

Os instrumentos

 

Aviões                                                                                      

ER-2                                                                                       

(Nasa, EUA)                                                                             

Citation

(Universidade da Dakota do Norte, EUA)

Bandeirante

(Inpe, Brasil)

 

 

Satélites

SCD (Brasil)

CBERS (China/Brasil), lançamento previsto para junho deste ano

TRMM (Japão/EUA)

Spot (França)

EOS (EUA), lançamento neste ano

Séries Landsat, Goes e Noaa (EUA)

 

Serão realizados sobrevôos e instalados torres de medição ao longo de duas grandes linhas no país, chamadas de transeções ecoclimáticas

 

Amazonas - Santarém- Brasília

Linha que corresponde a uma diminuição gradativa da umidade e à transição da floresta equatorial para o cerrado.

 

Amazonas - Porto Velho- Mato Grosso

Escolhida mais para medir os efeitos da agropecuária e do desmatamento, particularmente intensos em Rondônia

 

 

CIÊNCIA - Pesquisa - Ecossistemas    

 

Natureza só se regenera após milhões de anos.

 

A natureza só deverá se recuperar dos estragos causados pelo homem após 10milhões de anos.

Essa é a conclusão de um estudo que estimou o tempo de recuperação de meio ambiente após extinções causadas por desastres naturais ou pela ação humana.

A pesquisa, que sai hoje na revista  "Nature", indica também que os homens podem causar um estrago que se equipara à extinções em massas, que acabaram, por exemplo, com os dinossauros, há 65 milhões de anos. "Alguns biólogos acreditam que podemos eliminar de 20% a 50% de todas as espécies da Terra nos próximos 50 a 100 anos. Se fizermos isso, iremos rivalizar com as grandes extinções que constam dos registros geológicos", disse à Folha James Kirchner, um dos autores do estudo, da Universidade da Califórnia em Berkeley. A recuperação a que o pesquisador se refere não é o reaparecimento de uma espécie extinta, e sim a ocupação de um certo nicho que estava "vago"após o desaparecimento dos seres vivos. "Uma espécie extinta nunca vai reaparecer. Ela pode ser substituída por algo que não tenha nenhuma semelhança", disse Kirchner. "Pense nos dinossauros, que foram substituídos praticamente pelos mamíferos". Segundo o cientista, o período de milhões de anos se refere ao intervalo entre casos de extinção e períodos em que há uma maior diversificação dos organismos.

 

Histórico de fósseis

 

O estudo, que constitui na análise de fósseis de animais marinhos dos últimos 530 milhões de anos, foi realizado por Kirchner e Anne Weil, da Universidade Duke, na Carolina do Norte. Os pesquisadores comparam épocas em que havia picos de extinção de espécies de fósseis com período de picos de formação de novos seres vivos. Ao comparações mostraram que, seja para grandes extinções como para aqueles de menor porte, o pico de recuperação aparecia sempre após o mesmo período, de cerca de 10 milhões de anos. "O que queremos dizer é que, após 10 milhões de anos, a taxa de diversificação, ou seja, de criação de novos organismos, atinge um pico e então desacelera novamente, indicando que o ecossistema está se tornando completo o suficiente para inibir novas diversificações", afirmou Kirchner. Segundo ele, o estudo não sofreu interferência da falta de fósseis de alguns períodos. "A imperfeição do registro fóssil, por si só, cria um padrão diferente do que observamos", disse. Os dados são detectados claramente a partir de cinco grande extinções em massa, causadas por catástrofes naturais. "Apesar de a conclusão Ter aparecido em grande parte pelas  cinco maiores extinções, a correlação é significante mesmo após a remoção desses dados", escreveu, em um comentário na mesma "Nature", Douglas Erwin do Museu Nacional de História Natural, em Washington. Ou seja, mesmo para extinções de menor porte, o meio ambiente leva os mesmos milhões de anos para voltar a atingir sua diversidade . "Muitas espécies já foram perdidas (pela ação humana), mas o número a que podemos chegar no futuro próximo é muito maior", afirmou Kirchner. "Nosso trabalho mostra que, se levarmos muitos organismos à extinção, nosso legado- uma mundo biologicamente empobrecido - irá durar milhões de anos", concluiu. 

 

 

CIÊNCIA - Pesquisa - Biologia 

 

BIOLOGIA Pesquisa brasileira desenvolve antibiótico até 50 vezes mais poderoso com base em tecido animal

 

Pele de perereca combate bactérias

 

A pele de anfíbios brasileiros pode ser a alternativa para a produção de antibióticos que combatam as bactérias causadoras da infecção hospitalar.

Os anfíbios em questão são pererecas do gênero Phyllomedusa, e são quatro as espécies que vêm sendo estudadas: a Phyllomedusa tarsius e a tomopterna, da região amazônica, a P. distincta, que vive na mata atlântica e a P. hipocondrialis, encontrada no cerrado.

O grupo, liderado por Carlos Bloch Jr., já isolou mais de 20 peptídeos com atividade anticrobiana da pele desses anfíbios. Peptídeos são moléculas menores que as proteínas, porém formados pelo mesmo tipo de unidade básica, os aminoácidos.

Bloch é professor do Instituto de Química da UnB (Universidade de Brasília), mas atualmente trabalha no Cenargen (Centro Nacional de Pesquisa em Recursos Genéticos e Biotecnologia), da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária).

"Os peptídeos encontrados têm entre 25 e 30 aminoácidos e foram testados nas bactérias Staphylococcus aureus e Pseudomonas aeroginosa, comuns em casos de infecção hospitalar. Os testes revelaram que eles são de 10 a 50 vezes mais potentes do que os antibióticos já utilizados", disse.

Os peptídeos destroem a membrana dos microrganismos sem destruir as células de mamíferos.

"As paredes das células dos mamíferos são mais resistentes, devido à presença do colesterol. Nas bactérias, os peptídeos causam a ruptura da membrana e a subsequente lise (destruição) celular", explicou Bloch.

O modo de ação desses peptídeos pode tornar mais difícil para as bactérias desenvolverem algum mecanismo de resistência.

"Enquanto os antibióticos conhecidos agem sobre as vias metabólicas, esses peptídeos atuam sobre a permeabilidade das membranas. A menos que surja uma bactéria capaz de conseguir modificar sua membrana, ela não terá como se defender da ação desses peptídeos", afirmou.

Além dos peptídeos da PhyllomedusaI, o grupo também vem pesquisando peptídeos com atividade contra fungos, cicatrizante e antiinflamatória de outros gêneros de anfíbios da região Amazônica. Os peptídeos encontrados pertencem a uma nova classe, ainda não descrita na literatura científica.

 

Sabedoria indígena 

 

O uso da secreção e da pele de anfíbios faz parte de rituais das tribos indígenas da Amazônia. De acordo com Bloch, os índios injetam a secreção da Phyllomedusa no corpo quando saem para caçar á noite, pois dizem que, com isso, os sentidos de audição e visão ficam aguçados. Além disso, usam a pele do sapo para tratar ferimentos externos devido, justamente, às suas propriedades cicatrizantes e antiinflamatórias.

"O conhecimento da alguns estudos antropológicos sobre o assunto nos levou a investigar com ferramentas bioquímicas o relato da observação comportamental e tradição oral das comunidades indígenas", declarou Bloch.

Bloch, no seu pós-doutorado trabalhou com toxinas para o uso agroquímico, associou essa informação à necessidade de outro professor da UnB, Antônio Sebben, do Laboratório de Fisiologia Animal, que estava interessado em utilizar técnicas mais precisas de classificação de anfíbios do cerrado. Assim, deu-se início à busca de moléculas com potencial farmacológico.  

 

 

CIÊNCIA – Pesquisa

 

Planta contra a gastrite é examinada

 

O efeito da espinheira-santa, planta popular no Brasil para tratar gastrite, será investigado em humanos, após estudos preliminares em animais indicarem que ela é eficiente e não-tóxica.

O estudo com humanos, que será conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), deverá ser usado para um futuro pedido de patente do produto.

Em ratos, a planta apresentou uma melhora de 65% na gastrite, segundo Ricardo Tabach, responsável pela pesquisa. O estudo também foi conduzido em camundongos e cachorros.

A espinhadeira-santa é comum no Brasil, embora seja encontrada também em outras localidades. O seu uso para esse fim já é conhecido popularmente. Mas , para a pesquisa, Tabach está usando um novo extrato da planta. “Esse extrato não tem sua ação comprovada cientificamente em humanos,”  disse.

Outros países já pediram a patente da espinhadeira-santa. Por isso, a pesquisa usa um extrato novo da planta.

Após esse estudo, três outras pesquisas, também em humanos. Terão de ser conduzidas antes de uma droga ser lançada no mercado. “Essa será uma forma mais barata de tratar a gastrite”, disse.